“Natal é a capital mais articulada para ser inteligente e humana“

Publicação: 2016-02-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Lima
Repórter
   
Natal é a cidade com o maior potencial para tornar-se “inteligente e humana” em todo o Brasil. Essa é a impressão do coordenador da Comissão Europeia para Cidades Inteligentes e Humanas, Álvaro de Oliveira. Todavia, ainda falta decisão política para chegar a esse patamar segundo ele. Logo quando surgiu na década passada, o conceito de cidade inteligente considerava somente a articulação de sistemas de informação para aprimorar os serviços públicos nas cidades, como mobilidade urbana, saúde, energética e segurança pública. Hoje, essa ideia promete “inovar a democracia”. Oliveira veio a Natal articular acordos com a Prefeitura e Governo do Rio Grande do Norte. Ele também participará de um evento na UFRN.    
Magnus NascimentoConceito de Cidade Inteligente depende de iniciativa política e Natal é tida por especialista como a capital do Brasil com maior potencial para se tornar inteligente e humanaConceito de Cidade Inteligente depende de iniciativa política e Natal é tida por especialista como a capital do Brasil com maior potencial para se tornar inteligente e humana

Até pouco tempo atrás, os entusiastas do uso da tecnologia da informação para a melhoria dos serviços públicos das cidades  trabalhavam apenas com o conceito de “Cidades Inteligentes”.  O que muda com a inclusão da parte “humana”?
Até agora, se pensava em cidades inteligentes como cidades que compravam tecnologia  muitas vezes daquelas grandes empresas americanas ou europeias. A nossa filosofia não é essa. Essas empresas têm seu lugar nessa infraestrutura complexa, mas o conhecimento a nível de serviço e entender a necessidade da cidade de articulá-lo tem que ser local. E isso é a grande oportunidade para o ecossistema de inovação da cidade. Portanto, é a cidade que vai criar e desenvolver conhecimento para a própria cidade e até para fora. Isso vai enriquecer a cidade não apenas no conhecimento, como também na geração de renda. É isso que nós  queremos fazer nomeadamente em Natal. Para que aconteça, é necessária uma grande interação entre universidade, prefeitura e empresas. Pelo que conheço no Brasil, Natal é a cidade que melhor faz essa articulação. A prefeitura está articulada com universidade não apenas na prática, mas em convênio.

Na prática, quem mora em Natal vê poucos resultados dessa articulação, seja para envolver a população nas decisões, seja no desenvolvimento de sistema de informação que melhorem os serviços. O orçamento participativo, por exemplo, tem limitações para aplicação de recursos sugeridos pela população. De outro lado, os sistemas de videomonitoramento que deveriam servir para a segurança que nunca passaram por manutenção e nem são integrados.
Conheci a equipe do orçamento participativo e acho que tem uma metodologia sensacional. Quem está no governo sabe o que faz, sabe como engajar a população. O conhecimento existe. O que deveria existir também é o componente político perceber o fator de importância da participação da população. O componente político precisa entender, dar a devida importância e multiplicar. Os resultados são completamente visíveis e positivos. Isso vai melhorar inclusivamente a aceitação política de quem está no governo nesta altura.

Quando o senhor era consultor da Nokia desenvolveu a metodologia do “Living Lab” (Laboratório Vivo, em tradução livre). O que isso significa e como pode ajudar os serviços da cidade?
O Living Lab é um sistema de inovação, onde se sentam na mesma mesa, as universidades, quem faz pesquisa; as empresas, que aplicam; a administração pública, que regula; o financiador desse processo, com a figura que seja facilitadora desse processo, e os usuários. A grande novidade é envolver os cidadãos e usuários desde o início do processo de criação, seja de um produto novo, uma tecnologia, um serviço novo ou até de uma política nova. O Living Lab urbano, no fundo, é a cidade inteligente e humana. Para as cidades há duas coisas fundamentais: uma é recuperar o que um dia foi os bairros da cidade. Hoje as pessoas quase que não dizem bom dia ou boa tarde ao seu vizinho, há uma exclusão social, as pessoas não se conhecem. Portanto, o sentido de gostar do lugar onde vive, a interação entre as pessoas diluiu-se muito. A ideia é usar a tecnologia para recuperar essa interação entre os cidadãos e os cidadãos e o governo.

Em outros lugares do mundo há experiências bem sucedidas?
Na Finlândia, houve uma reforma no serviço de saúde, que já era um dos melhores do mundo, mas estava muito caro. Objetivo da reformulação era continuar a qualidade do serviço de saúde, ou melhorá-lo, com menos dinheiro. Na Finlândia, as pessoas participam muito mais, de tal maneira que todos têm a confiança de que aquilo que vem do Estado é bom. Não há médico privado, não há ensino privado. É tudo público e de qualidade, mas também é um país pequeno. É diferente do Brasil. Aquilo que se veio a desenvolver foi uma boa integração entre serviços voluntários, como ONGs.  Articulados com tecnologia essa obra de voluntariado com a administração pública. Um médico, por exemplo, precisa fazer uma cirurgia numa pessoa, mas ela só pode ocupar uma vaga no hospital por não mais de três dias. Depois ela precisa ir para casa e apoio. Para a tecnologia não custa nada a fazer esse acompanhamento. Como esse, há ene exemplos.

Para tornar a cidade inteligente e humana, é necessário um ambiente fértil para isso. Natal tem essas características?
O terceiro pilar das Cidades Inteligentes e Humanos é a inovação, ou o ecossistema de inovação. Hoje em dia, Natal tem encubadoras de empresas, tem espaços de cowork, tem startups. Na maioria das cidades do mundo existe, mas não há uma política integrada de inovação. Isto tem que fazer parte de inovação como política fundamental. Tem de haver um política que integre e que pense nesse ecossistema não como ideia interessante para fazer startups que fazem aplicativos e etc. Mas é muito importante que se pense nisso como uma fonte de criar renda de forma sustentável. O prefeito não é mais a pessoa que é eleita e quer oferecer bons serviços aos cidadãos. Ele também vai ter que se preocupar com a geração de riqueza e ter um papel facilitador desse processo.

Como o senhor analisa as mobilizações sociais organizadas a partir de mídias sociais?
Em 2013, eu vim para o Brasil quando houve as manifestações de rua estive aqui no Brasil numa conferência. O repórter queria explorar o impacto das mídias sociais ainda na Primavera Árabe.  Eu chamei isso de ouvir e dialogar com a rua. Isto chamamos de inovar a democracia. O nosso mundo precisa de inovar a democracia. Cada vez menos o cidadão está ligado a quem supostamente o representa. Esse elo precisa ser reforçado, portanto o governo precisa ouvir permanentemente, não só no ato eleitoral, a reação dos seus cidadãos. Esse é um objetivo das cidades humanas e inteligentes. Essa transformação do governo  da cidade, sendo mais transparente, aberto e proporcionando a participação. O outro aspecto é a interação entre as pessoas, o que vocês chamam aqui no Brasil de parcerias público-privadas.

Como o senhor veio parar em Natal?
Ano passado, quando fui à  Campus Party em Recife. Era um workshop que ajudei a organizar sobre cidade inteligentes e humanas com a participação de várias cidades. Quando chegou a vez da pessoa que vinha de Natal, não era uma pessoa, mas duas pessoas, uma da prefeitura e uma da UFRN. Uma apresentou o componente dos projetos e outra, o planejamento. Pareciam que estavam a falar a mesma linguagem. Isso não é habitual, encontrar essa ligação entre os pesquisadores e aplicação da prefeitura. No fim, fui falar com os dois e fui falar brincando. “Essa articulação é mesmo assim?”. E eles disseram que sim. Aí eu disse que queria conhecer Natal. De fato, encontrei coisas muito interessantes, não somente a nível dessa articulação.

O que por exemplo?
Coisas aqui da Região Metropolitana, como o Instituto Internacional de Neurociências (IINN). No ensino, vi oficinas com crianças de seis anos que desenvolveram maquinazinhas que depois o professor, na sala de aula, associam à teoria. Isso é o que se faz de mais avançado na Finlândia. A procura da nova educação está exatamente nesse modelo, que é o ensino por projeto. É só encontrar maneira de multiplicar o que já sabe muito bem fazer. O Brasil precisa muito melhorar o sistema de ensino, mas não precisa aprender lá fora, porque já tem aqui dentro. Na linha da pesquisa médica, eles conseguem desenvolver os próprios sensores para as pesquisas do cérebro, não dependem de empresas.

Quem é
Engenheiro de Telecomunicações, de Computação, Doutorado em Telecomunicações (Circuitos Integrados Óticos e Comunicações Óticas). O atual coordenador  da  Comissão Europeia de Cidades Inteligentes e Humanas já  dirigiu uma grande empresa americana da área eletrônica. Nos anos de 1990, começou a atuar como consultor focado no desenvolvimento de pesquisa, inovação e aplicação de tecnologia da informação. Também foi consultor de estratégia da Nokia.

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