“Natal precisa formatar um ambiente sem amarras”

Publicação: 2016-03-05 00:00:00
Sara Vasconcelos
Repórter

Entrevista - Juliano Seabra
Presidente da Endeavor brasil

Um estudo publicado pelo  Instituto Endeavor Brasil mostra Natal na 25ª colocação no ranking do Índice de Cidades Empreendedoras -  Brasil 2015. A publicação analisou o ambiente de negócios entre as 32 analisadas no país. Para Natal  aumentar a competitividade e a capacidade de atrair investimentos, o presidente de Endeavor Brasil, Juliano Seabra afirma que é preciso entender as limitações de mercado e investir em melhorar o ambiente regulatório, a educação básica e média, as regras para abertura de empresas, renovação de licenças e pagamento de carga tributária.  Nesta entrevista, ele comenta a publicação, os desafios do empreendedor em meio a crise, e o mercado de scale-ups.
Juliano Seabra - Presidente da Endeavor brasil
Empreender, em tempos de retração da economia, é mais difícil? É a melhor saída?
Empreender em tempos de crise é enxergar soluções aonde todo mundo só vê problemas. É descobrir a oportunidade de resolver a vida de outra empresa, outros setores fazendo algo novo, um negocio que vai empregar gente, que vai crescer e inovar a partir da solução que o empreendedor consiga desenvolver. Eu não consigo ver diferença entre empreender dentro ou fora da crise. O que pode mudar é que, na crise, empreender  tem a vantagem que é a de todos estarem olhando para o problema e o empreendedor enxergar a solução que está evidente no mercado. Em todos os momentos da história, as maiores empresas do mundo nasceram em momentos de crise. Porque a crise obriga a sociedade corra atrás de um produto melhor, mais eficiente, com menor custo e entregue em menor tempo. Isso é uma oportunidade olhar nesta perspectivas. É uma enorme porta para construir uma empresa que vai dar certo no Brasil.

A Endeavor publicou recentemente o Índice de Cidades Empreendedoras do Brasil 2015. Quais os critérios para este ranking e como ele é usado?
A Endeavor é uma instituição internacional sem fins lucrativos presente em 25 países. E aqui no Brasil nós promovemos , há dois anos, o Índice de Cidades Empreendedoras para identificar entre as cidades as com condições mais e menos favoráveis, a partir de sete perspectivas: ambiente regulatório, acesso a capital, mercado, infraestrutura, capital humano, inovação e cultura empreendedora. A gente acredita que para um país, uma região, uma cidade ser atrativa, conseguir se desenvolver, crescer é preciso ter um bom equilíbrio entre estas sete variáveis. Desde o momento que demora para abrir o negócio até a dificuldade em encontrar gente preparada para trabalhar, acesso fácil ou não a crédito, capacidade de inovar ou não na cidade.

O estudo, então, é usado para direcionamento dos investidores?
A ideia do estudo é, de um lado, dar um mapa para o empreendedor tomar uma decisão antes de abrir o negocio. E, de outro, alertar a sociedade, governantes, estimuladores de políticas públicas dos caminhos a seguir caso queiram que a cidade seja mais atrativas para os empreendedores.

Há fatores que pesam mais para aumentar essa capacidade de atração dos investimentos?
Esse momento de crise é mais difícil um momento em que todo mundo toma menos riscos. É mais difícil pra começar, de tomar capital, para estabelecer como empresa comum. Mas por outro lado, quando o empreendedor está preparado, conhece o mercado, tem experiência e se propõe a resolver um problema existente na vida das pessoas e das empresas, normalmente consegue ser bem-sucedido.

Mas nesse período de retração se vê muito o empreendedorismo por necessidade, isso traz mais riscos aos negócios?
Em meio a crise, muitos se lançam a empreender mesmo por uma questão de desemprego, são empurradas para isso e não há um planejamento adequado. Claro que isso reduz as chances de dar certo.

Natal aparece em 25º no ranking. O que é preciso para avançar?
Uma coisa que é relevante é a empresa entender a sua limitação. Natal não é uma cidade enorme do ponto de vista de mercado. Então, tem que compensar com outros pontos que sejam atrativos para o empreendedor, ou seja, formatar um ambiente regulatório sem amarras, em que as regras do jogo sejam simples desde o momento em que ele vá abrir a empresa, conseguir o alvará, renovar as licenças, como ele vai pagar o imposto. Como Governo pode estimular  programas de aceso ao crédito, como pode promover uma melhoria significativa na média para que consiga ter mão de obra qualificada para estas empresas. Este é um grande gargalo não só em Natal, mas em cidades importantes do país. Eu acho que o principal segredo para Natal é definir como pode compensar não ser um grande pólo de mercado, à exemplo do que tem feito Florianópolis.

O que tem sido feito lá?
Florianópolis é uma cidade de 400 mil habitantes e tem se destacando porque está formando pessoal qualificado, apostando em educação, na criação de parques tecnológicos e, em paralelo, olhando para  mecanismos de atração de investimentos. É isso que Natal deveria fazer, criar mensagens de curto prazo que possam ser positivas para os empreendedores. E que o gestor público se comprometa com este tipo de mudança.

Criar esse ambiente depende apenas do poder público? Qual seria o papel das empresas?
O papel da classe empresarial é cobrar mudanças. Ela não vai resolver o problema da burocracia no Brasil, mas pode pressionar, sugerir, apontar onde e como fazer isso. Quem faz a burocracia é o Governo. E os governantes e legisladores precisam entender que formular políticas públicas pró-empreendedorismo é uma convidar, de ser parceiro do empreendedor para que estes possam cumprir o seu papel de identificar oportunidades, inovar  empregar, transformar a região em que atuam.

No Rio Grande do Norte, há uma reclamação do empresariado em relação ao licenciamento ambiental. Isso ocorre nas demais áreas pesquisadas?
É um problema sério em todo o país. Mas a solução não é demonizar a licença que as vezes, parte do empresariado faz de forma equivocada. Mas mostrar que há um caminho racional com clareza de como será feito, em relação a processos, sistemas. E o que é mais eficaz de ser feito, é o empresariado mostrar como essa eficiência pode ser aplicada no setor público. Em Porto Alegre adotaram um projeto Simplificar, uma parceria público-privada para melhoria do ambiente de negócios.

Neste contexto de inovação, as scale-ups, tema de publicação também da instituição, encontram espaço para crescer no país?
As scale-ups são empresas que um dia já foram start-ups e que continuam crescendo, criando condições de gerar impacto e fazer a diferença na sociedade mantendo o ritmo sustentável por algum tempo. A gente percebe e a Endeavor publicou “Scale-ups no Brasil, as empresas que vão tirar o Brasil da crise” é que há um impacto importante na economia brasileira. Apesar de representar menos 1% das empresas geram 3 milhões de empregos por ano. O grande objetivo de fomentar o crescimento das empresas e por isso a gente faz o estudo de cidades é construir ambientes para que empreendedores cresçam sem amarras e poderem usar o maximo do potencial, sem se distrair com questões secundárias, como se as regras do impostos vai mudar, se a licença vai mudar. Apenas focar na competitividade, em crescer e é isso que as scale-ups conseguem fazer.