A natureza e os livros

Publicação: 2020-11-15 00:00:00
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A natureza, em toda complexidade e vastidão de elementos que a compõem, emite sinais, permanentemente, dos vínculos com o homem. Essa interação, abrangendo a vida, o homem e a natureza, nasceu na aurora dos tempos. No Antigo Testamento assim o Senhor Deus se revelou a Abraão: “Ergue os olhos e enxerga desde onde estás para o norte, para o sul, para o oriente e para o ocidente; porque toda esta terra que vês eu ta darei a ti e à tua descendência, para sempre”. Amálgama, vinculando e misturando o homem e seu habitat, que se revela como fonte de uma sinfonia universal, a ser regida pela humanidade, detentora de atributos deferidos por Deus no âmbito da Criação. Esse é um estado de espírito, que inspira a forma, senão o conteúdo, das criações literárias e artísticas. Os sentimentos se aguçam, renovam-se ou se expandem sob influência da beleza dos campos com a variedade de suas cores, que fascinaram e se exteriorizaram na obra genial de Vincent Van Gogh. Também o canto dos pássaros, o cheiro da terra molhada pela chuva e da metamorfose no  chão esturricado, que milagrosamente se despoja do manto cinza da estiagem para se cobrir de verde e de uma inimaginável, surpreendente, inexplicável e incontida variedade de cores nas arvores e nos seus frutos. A névoa, espessa ou fina, que no inverno cobre, desde a madrugada, até o fulgor do dia, todo o esplendor da natureza. O chilrear das aves no verão, as cores e o perfume doce, balsâmico e estonteante das flores e das rosas. Os ventos que agitam os lírios e os canaviais. Os rios que, placidamente, retomam seu curso invariável. Também os mares, com a perspectiva de infinito no horizonte. Mas, por trás de todas essas coisas vistas, a conhecer ou a redescobrir, existe algo mais amplo e profundo. Porque o homem se defronta, enfim, com um caminho, um portal, ou uma janela, descortinando ou permitindo acesso a algo magnífico, essencial, que é o sentido de tudo e de todos. As coisas, pequenas ou grandes, na amplitude da natureza, integram o real e o transcendental. Assim, a beleza inexcedível e fantástica do Rio de Janeiro, nos anos 30 e 40, foi proclamada por Stefan Zweig como a “mais fascinante antevisão do paraíso”. Do mesmo modo D. Pedro II, em sua correspondência do exílio, reiterou seu amor pelo Brasil. Exorcizou quaisquer mágoas e ressentimentos. O imperador, no navio de sua viagem para o exílio, insistiu em contemplar, no amanhecer, as belezas transbordantes da baía da Guanabara. Proclamou, até morrer, a saudade de sua terra e do seu povo.

 Um dos mais belos e encantadores livros da humanidade, “As mil e uma noites”, revela coragem, argúcia e criatividade de uma bela mulher. Seu nome: Sheherazade. Astutamente escapa da sentença de morte, decretada por um sultão, seu marido. Seu ardil: seduzi-lo com estórias infindáveis, narradas madrugadas adentro, suscitando-lhe amor, fascínio e paixão. Shakespeare, em “Romeu e Julieta”, vinculou o amor eterno do casal ao raiar do dia, inebriado por um hálito suave de ventos primaveris. Enquanto cânticos da cotovia induziam esses personagens a identificar o sentido universal da vida. A placidez dos campos e os raios de luz, que dissipavam a névoa. O som do atrito das águas dos rios com as rochas que os margeavam. O aroma exalado por flores que desabrochavam e beija-flores que pareciam sussurrar ao extrair néctar das plantas. Tudo ali configurando a atmosfera romântica, desfeita por tragédia imprevisível e traumática. Mas submetendo a violência ao sentimento do amor. Além disso, uma simples verdade prevalece por todo o sempre: “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Em qualquer circunstância da História, repleta de avanços e retrocessos, o homem só identifica a si mesmo com os sentimentos.  No epicentro de todas as crises a humanidade as supera com serenidade e paz de espírito. Conjugam-se, então, amor, esperança, ternura, misericórdia e paz. Nada as vence. Nada as transcende. Sempre...

 Chateaubriand enternece até hoje com a descrição da explosão de vida em “O amanhecer e o entardecer no Novo Mundo”. Ernest Hemingway, em seu estilo original e envolvente, conciso e forte, impactante e soberbo, fixa excepcional contraponto entre os Alpes (“Adeus às armas”), os altiplanos africanos (“As neves do Kilimanjaro”), Paris, do alto de Montmartre e os Pirineus ocidentais (“O sol também se levanta”). Percepções semelhantes do grande Prosper Merimée. A lista é interminável. Léon (Liev) Tolstói (“Guerra e Paz”) e Boris Pasternak (“Doutor Jivago”) inseriram o leitor em belezas contagiantes dos campos, vales e planícies da Rússia, que se estendem às estepes nos confins da Ásia. Enquanto Axel Munthe converteu Anna Capri (baía de Nápoles) no lugar mais próximo do paraíso (“O Livro de San Michele”).  Somersett Maugham revelou a intensidade e a magia de vida, cores e belezas que sensibilizaram e foram captadas por Paul Gauguin (“Contos dos mares do sul”). Gabriel Garcia Márquez, em “Cem anos de solidão”, “O outono do patriarca” e “O amor nos tempos do cólera” desvendou as fontes do seu realismo fantástico. Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, entre outros, consagraram os esplendores do tempo e da vida no Brasil. São inimitáveis. Gonçalves Dias em “Canção do Exílio” também os eternizou.

Poucos livros são tão geniais, tão magistralmente escritos quanto “Lord Jim” de Joseph Conrad. Personagem estigmatizado por suas contradições morais e psicológicas. Visualiza no amanhecer e no crepúsculo rara percepção da felicidade. Redime-se de suas fragilidades em ato de imolação na defesa de nativos na Malásia. Ao contrário de Gilliat, em “Os trabalhadores do mar” (Victor Hugo), que se refaz em cada crepúsculo. Mas é tragado pelo mar, na Normandia, antes de ver seu último pôr do sol. Enfim, Hemingway (“O velho e o mar”) disse que a vida sorri na aurora e no entardecer.