“Norte e o Nordeste sofrem com os piores indicadores de pobreza”

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Como o IBGE define a insegurança alimentar? É o mesmo que passar fome?
Importante esclarecer que o indicador de segurança alimentar é produzido a partir da Escala Brasileira de Segurança Alimentar – EBIA, que foi inserida na Pesquisas de Orçamentos Familiares – POF 2017-2018 e em outros levantamentos anteriores realizados pelo IBGE. Nessa escala há quatro níveis, destacando-se o melhor nível: segurança alimentar, que se refere ao pleno acesso dos moradores à alimentação na quantidade e qualidade adequadas, em um extremo.  No outro lado, há três níveis de insegurança alimentar: leve, moderada e grave.  Especificamente, quando um conjunto de domicílios apresenta insegurança alimentar grave, significa que a fome de fato foi vivida naquele lar, havendo ruptura nos padrões de alimentação de todos os moradores, inclusive de crianças ou idosos, quando presentes.
Créditos: João Gilberto/ALRNDamião Ernane, chefe da Unidade Estadual do IBGE no Rio Grande do Norte e Doutor em Saúde Pública pela UFBADamião Ernane, chefe da Unidade Estadual do IBGE no Rio Grande do Norte e Doutor em Saúde Pública pela UFBA

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A Pesquisa de Orçamentos Familiares Contínua apontou que a insegurança alimentar atinge 59% da população potiguar. O que é analisado para chegar a esse resultado?
O número de acometidos por insegurança alimentar grave, que é o pior dos índices, representa 7,6% dos domicílios potiguares ou aproximadamente 81 mil lares. Contudo, quando se juntam as quantidades de domicílios com alguém em condição de insegurança alimentar grave, moderada e leve, o percentual chegou a 59% de residências no estado, ou seja, quase dois terços do total de domicílios tiveram algum grau de insegurança alimentar entre 2017 e 2018. Para se chegar a esse resultado, o IBGE realizou a POF 2017-2018 e aplicou um questionário com 21 quesitos, dos quais 14 são da EBIA. Em conjunto, esses catorze itens produzem um indicador que classifica cada domicílio de acordo com os quatro níveis da escala.

Houve um aumento do número de pessoas afetadas pela insegurança alimentar desde 2013. Que fatores podem ter contribuído?
Sim. Apesar de ser importante tratar a comparação com o levantamento realizado em 2013 com certo cuidado, observou-se aumento da insegurança alimentar grave tanto a nível nacional, quanto no Rio Grande do Norte. No estado, esse aumento foi de aproximadamente 2,5 pontos percentuais, atingindo em 2017-2018 o patamar de 7,6%. Sobre eventuais causas para esse aumento no índice de insegurança alimentar, é importante destacar que, desde 2015, o Brasil passa por dificuldades econômicas e os próprios indicadores produzidos pelo IBGE, como o baixo crescimento do Produto Interno Bruto, aumento no nível de desocupação e a queda na atividade econômica em vários setores apontam nesse sentido. Portanto, é possível que esse contexto sustentado de dificuldades tenha refletido no aumento da vivência da fome nos lares brasileiros e norte-rio-grandenses.

Que medidas podem ser adotadas para tentar mudar esse quadro? Como a pesquisa pode ajudar?
Inicio a resposta pelo último questionamento. O IBGE tem como missão “retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania”, portanto os indicadores do IBGE, nesta e em outras pesquisas, subsidiam gestores públicos em todas as esferas de governo para propor, orientar, avaliar e reorientar políticas públicas para dar conta da intensa agenda social brasileira, inclusive essa. Sobre as medidas mitigadoras, cabe ao IBGE a produção de estatísticas oficiais para subsidiar a tomada de decisão de legisladores e gestores. Contudo, em 84 anos, o IBGE aponta que historicamente o Norte e o Nordeste do País sofrem sistematicamente com os piores indicadores de desigualdade social e pobreza. Desta forma, na arena de debates sobre o que fazer diante deste quadro, surgem três horizontes para reflexão. O primeiro se refere ao incentivo para o crescimento econômico e, neste sentido, iniciativas como o Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) devem ser fortalecidas e ampliadas para reduzir as taxas de desocupação e desalento vigentes nos estados dessas regiões. Em segundo lugar, ações para melhoria e ampliação da educação básica, da formação e requalificação profissional são fundamentais e reconhecidas pela ciência como potencializadoras da inclusão social. E por fim, enquanto as duas ações anteriores se consolidam, ações de apoio social e transferência de renda devem sustentar esse volumoso segmento submetido a essas condições de pobreza e insegurança alimentar.