A nossa escalada

Publicação: 2020-06-28 00:00:00
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República •  Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL •  Mestre em Direito pela PUC/SP

Fui à casa dos meus pais para apropriar-me da edição que ele possui de “A escalada do homem” (“The Ascent of Man”), de Jacob Bronowski (1908-1974). Publicação da Martins Fontes/Editora da Universidade de Brasília em 1993. Tudo muito difícil hoje. Fui à porta do quarto da minha mãe, não entrei, mas conversei um pouco com ela. Na sala, bem à distância, conversei mais com meu pai e pedi para ele pegar na biblioteca o livro, alegadamente como empréstimo. Saí furtivamente e, chegando em casa, descobri o meu nome (e não o dele) posto na primeira página do livro, com duas leituras minhas realizadas em 1995 e 2009. E isso me deu um certo conforto: apropriando-me do dito cujo, talvez eu esteja praticando um crime impossível.

Cometi esse pecado para poder aqui escrever sobre a série da BBC “A escalada do homem”, de 1973, da qual o livro se origina e que acabei de rever estes dias. Simplesmente fantástica. Em todos os aspectos. Na temática, a escalada do homem através da ciência – desde tempos imemoriais, de antes do sapiens, passando pela revolução cognitiva, pela revolução agrícola, pelo fogo e pelos alquimistas, por Pitágoras, Euclides e Ptolomeu, por Copérnico e Galileu, por Newton, Liebnitz, Einstein e Bohr, por Pasteur, Darwin, Wallace, Mendel e a moderna genética, pela indústria, pela mente ou pelo computador, chegando à tragédia dos cientistas ou a uma civilização científica (é você quem escolhe) – é um deleite. Na produção, é padrão BBC em altíssimo nível (com os recursos da época, claro). Na apresentação, um Bronowski, matemático de formação, mas polímata, mestre em muitas artes, inclusive na de contar histórias. Dele, certa feita disse o grupo Monty Python: “o homem sabe de tudo”. Segundo o British Film Institute – BFI, “A escalada do homem” está entre os 100 melhores programas de TV britânicos de todos os tempos, inclusive melhor posicionada que a sua coirmã “Civilização” (“Civilisation”, 1969). E, como dá a entender David Attenborough (1926-), à época diretor da BBC2, ela, misturando história e análise, popularizando a ciência, é, em si, um importante passo na escalada da humanidade.

Vou dar um gostinho dos insights da série/livro falando de uma mistura entre astronomia e direito. Está no capítulo 6 – “The Starry Messenger” e trata da ciência de Galileu Galilei (1564-1642). Galileu, com o seu telescópio no topo do campanário, é considerado “o criador do método científico moderno”. Como explica Bronowski, “pela primeira vez, se consumou de forma completa aquilo que chamamos de ciência aplicada: construção do equipamento, realização da experiência e publicação dos resultados. Isso tudo realizado entre setembro de 1609 e março de 1610, data da publicação, em Veneza, de seu esplêndido livro Sidereus Nuncius (O Mensageiro Sideral), que apresentava um relato ilustrado de suas, então recentes, observações astronômicas”. 

E tudo ia bem até a ciência heliocêntrica de Copérnico (1473-1543), Kepler (1571-1630) e Galileu virar perigosa. Mesmo com o prestígio do último com a Cúria romana, a Inquisição bateu. Todo julgamento político tem uma longa história secreta. O famoso “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo” (“Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo”) é de 1632. O julgamento em si é de 1633. Não adiantarei os detalhes. Está nos arquivos do Vaticano. Codex 1181 – “Processos contra Galileu Galilei”. O fato é que Galileu foi silenciado, preso em sua própria casa e, a partir daí, teve fim “a tradição científica do Mediterrâneo. Daqui para frente, a Revolução científica se transfere para o Norte da Europa”. Grave erro. 
Curiosamente, já para o final de “A escalada do homem”, revelando as dificuldades da ciência do seu próprio tempo, também atacada pelo obscurantismo, Jacob Bronowski faz uma advertência: “Ciência é apenas uma palavra latina para designar conhecimento. Se não galgarmos o próximo degrau, isso será feito por outros povos, da África, da China”.

Eita, será que, levando em conta as agruras de hoje, eu deveria ter escrito, no lugar de “curiosamente”, “profeticamente”?