A nova Encíclica do Papa Francisco

Publicação: 2020-10-20 00:00:00
João Medeiros Filho
Padre 

No dia 03 de outubro, o Santo Padre assinou, junto ao túmulo de São Francisco de Assis, a sua terceira encíclica: “Fratelli tutti” (Todos irmãos).  Daquela cidade úmbria, centro de espiritualidade, o Pontífice envia sua mensagem, alertando a Igreja, as nações e as pessoas de boa vontade sobre os problemas que afligem atualmente a humanidade. Dirige-se a todos para “propor uma forma de vida com sabor de Evangelho” (FT. Nº 1). A partir da fidelidade à doutrina cristã, reafirma o sentido e os limites do direito de propriedade. Chama a atenção sobre os migrantes, excluídos, doentes e cidadãos da terceira e quarta idade. Declara que “a desigualdade não afeta apenas indivíduos, mas países inteiros, e nos obriga a pensar em termos de uma ética das relações internacionais.” (Nº 126). Admoesta que doutrinas e princípios econômicos não devem submeter-se cegamente aos ditames e paradigmas da tecnocracia, mas às verdadeiras necessidades humanas (Nº 177).

Francisco surpreendeu muitos citando, em um documento oficial da Igreja, Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” (Nº 215). Os versos do poeta emolduram os argumentos sobre a falta de diálogo, cooperação e solidariedade entre os povos. 

Apesar da diversidade dos temas abordados nos oito capítulos e 287 números, o fio condutor do documento é a “amizade social”. É preciso que esta reine entre as nações. Não deve haver entre elas apenas interesses meramente políticos, comerciais e econômicos. Tal amizade se expressa no diálogo e na cultura do encontro. Nesse ponto, volta-se de modo particular para os homens públicos, a quem “mais uma vez pede a reabilitação da Política” (Nº 180). A eles faz sério e urgente apelo à fraternidade diante de um mundo egoísta, para transformar a “cultura de confronto em uma cultura de encontro.” (Nº 215). 

O Sumo Pontífice reprova o fanatismo e o radicalismo que grassam nos dias atuais. “Deve-se reconhecer que os fanatismos, capazes de levar à destruição de outros, também são liderados por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos”. (Nº 46). Estes talvez façam parte das redes de violência verbal, através dos vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Acrescenta Francisco que mesmo nos círculos ditos católicos, perdem-se os limites da moral e do bom senso. Assim, a difamação e a calúnia tornam-se frequentemente rotina e são tidas como normais e naturais. Hoje, a Ética e o respeito pela reputação dos outros parecem estar esquecidos. O Papa alude ao clima de polarização política e instrumentalização da fé por líderes, parlamentares e governantes. Merece reflexão suas palavras a respeito das “políticas sobre os pobres”, que são manipulados demagógica e ideologicamente, ao sabor de grupos e partidos.

A elaboração da Encíclica é um exemplo claro da cultura de diálogo para a qual todos são convidados. Francisco assevera explicitamente que, a partir de entendimentos com o grande Imã Al-Tayyeb e outros religiosos, sentiu-se ainda mais motivado a escrever o documento.

 Confessa também que os testemunhos de religiosos e místicos – como Desmond Tutu, Luther King, Gandhi, Charles de Foucauld e Francisco de Assis – foram fonte de inspiração para a Encíclica. Trata-se de um texto que mostra uma caminhada dialógica em sua elaboração, baseada na escuta das diferentes realidades locais. O Papa vivencia as palavras da Sagrada Escritura: “Ouvi atentamente o clamor do meu povo”. (Ex 3, 7).

O texto foi enriquecido com a contribuição das igrejas dos vários continentes. Há menção expressa em doze ocasiões a conferências episcopais de diversos países. De igual modo, continua o pensamento de seus predecessores. Bento XVI é citado vinte e duas vezes, e São João Paulo II aparece em quinze passagens. Não resta dúvida de que o documento é denso, reafirmando a doutrina da Igreja e a mensagem de Jesus. Como sói acontecer, pode agradar muitos e desagradar outros. Não se deve ler um documento teológico, à luz da ideologia. O compromisso do Papa é com Cristo. Nos pastores devem ecoar as palavras do apóstolo Paulo: “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9, 16). 








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