A nova rota da Seda

Publicação: 2018-09-29 00:00:00
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Augusto Bezerril*
Especial para o Viver

A quarta edição do ID Fashion, realizado nos dias 26 e 29 de setembro no Campus das Indústrias da Fiepe, reflete, tal como as pesquisas de intenções de votos na eleição, uma fotografia do momento pelo qual passa a moda, como se articulam os players do setor, tendências atuais e de médio prazo e, no caso da indústria paranaense, o modo como se constrói uma trajetória de consolidação da marca "made in Paraná". 

Créditos: DivulgaçãoReúso: Trasmuta desenvolve upcycling como diferencial de estilo no ID FashionReúso: Trasmuta desenvolve upcycling como diferencial de estilo no ID Fashion
Reúso: Trasmuta desenvolve upcycling como diferencial de estilo no ID Fashion

Luciana Bechara, coordenadora do ID Fashion, firma em pontuar: se existe um viés a partir do qual o vestuário paranaense converge é a qualidade. "Seja uma camiseta, o consumidor sabe que é bem feita", garante Luciana. O Paraná é hoje o mais importante produtor de seda das Américas. Sabe aquele lenço de seda da Hermés? O tecido sai da região de Maringá, cidade localizada ao norte do Paraná. A região de Cianorte há anos se impõe na fabricação de jeans e persegue o conceito de fabricação de denim com baixo impacto para meio ambiente. O Paraná tem ainda um pólo de fabricação de bonés - reconhecido internacionalmente - e um outro voltado para moda infantil.

A moda Curitiba caminha para a exclusividade a partir de ateliês, muitos deles erguidos com a ideia do upcycliling (reutilização de peças). O grande desafio, assunto presente nos talks proferidos por profissionais de moda, é unir as pontas entre tecnologia e trabalho manual. Ironicamente, tanto o processo de alta tecnologia de customização da chamada indústria 4.0 - conceito amplificado pelo Senai - e o cuidado do feito à mão do artesão convergem para exclusividade. Enquanto proliferam chamados "influencers", a tendência sinaliza um consumo de peças cujos  traçado nasce do diferencial que faz do ser humano único.

Créditos: DivulgaçãoVale da Seda, por Enéas Neto, propõe sustentabilidade e estilo para democratização da sedaVale da Seda, por Enéas Neto, propõe sustentabilidade e estilo para democratização da seda
Vale da Seda, por Enéas Neto, propõe sustentabilidade e estilo para democratização da seda

O mundo sobre o qual a moda gravita é híbrido. De um lado, a alta tecnologia da indústria 4.0 cria expectativas únicas de personificação mediante exatidão de medidas, escolhas de tecidos e padrões, na outra ponta o artesanal impõe-se sobre bordados, aviamentos e beneficiamento da roupa. O maquinário tecnológico e as horas de produção do artesanal despertam para um grande desafio: o custo de produção. Segundo Luciana, estilistas e designers tem traçado um processo de utilização eficiente entre o mundo digital e binário. Uma coisa é certa: a busca por exclusividade, segundo Luiz Arruda - diretor do WGSN Mindset, é um caminho sem volta. Yasmim Lapolli - estilista da grife Transmuta - adiciona um ingrediente igualmente importante no processo da individualização da roupa: a customização. A grife é uma das pioneiras em upcycling - reutiliza tecidos e faz com que o consumidor acompanhe passo-a-passo a feitura da roupa. O desfile no Catwalk do ID Fashion mostrou que, com toda tecnologia disponível, o ateliê ressurge a partir de um conceito atual.

Seda social
Tecido natural e milenar, a seda ganha tramas de sustentabilidade, tradição e desenvolvimento social. A Associação Brasileira da Seda - Abraseda - tem desenvolvido, a partir do Paraná, o apoio desde do sericicultor, com o nascimento do bicho da seda, passando pela indústria e indo até a moda. Renata Amano, presidente da Abraseda, diz que o processo de fabricação da seda é marcado pela "transformação". E tem um forte componente social, pois permite alta lucratividade ao pequeno produtor rural. O desfile da grife Vale da Seda por Enéas Neto, além de apresentar soluções de estilo, aponta uma democratização do tecido. O quimono visto na passarela tem fio de seda, jeans e PET. "A tecnologia permite que possamos trabalhar com diferentes composições entre a seda e o algodão e fios tecnológicos como poliamida. O nosso desfile teve o objetivo de inserir a seda como possibilidade para vida real", pondera Enéas, lembrando fatores como toque e climatização para escolha do tecido. 

Seda e linho
Cris Guerra, palestrante e autora do livro Moda Intuitiva - acredita que o retorno da seda e o linho (tecido sensação no verão 2019) faz sinaliza uma nova ética de consumo. Autora do primeiro blog voltado para look do dia no Brasil, Cris acredita na formação de um consumidor consciente do seu corpo e valores pessoais. Os produtores, ao menos no Paraná, estão de olho nesse mercado. Já existem fábricas de índigo na região de Cianorte, conta Luciana Bechara, capaz de produzir lavagens sofisticadas sem utilizar água. A cartela de cores vista no desfile do Vale da Seda, por exemplo, é proveniente de tingimentos naturais.

Créditos: DivulgaçãoDesigner angolana Soraya da Piedade une alfaiataria e referências afroDesigner angolana Soraya da Piedade une alfaiataria e referências afro
Designer angolana Soraya da Piedade une alfaiataria e referências afro

Diante do híbrido do instante feérico da moda, a estilista Soraya da Piedade propõe um fator também presente nas tendências mundiais de comportamento: a transculturalidade. Angolana, Soraya apresentou coleção baseada na clássica e providencial alfaiataria. A estamparia, assinada pela artista angolona Fineza Teta, teve como referência em variações do pied-de-poule (mais francês impossível), animal print e máscaras africanas. Para estilista, as escolhas unem o cosmopolitismo e as raízes africanas.

Mesmo com o crescente olhar da imprensa especializada nacional, o ID Fashion - reforça Luciana Bechara - é um evento local. É voltado para o fortalecimento do setor de moda no Paraná. O grupo Morena Rosa, gigante do setor no Brasil, é um dos patrocinadores da semana de moda. Na atual fase, o ID Fashion se propõe na mostra da pluralidade dos players paranaenses. A seda do lenço da grife francesa é uma possibilidade real para criadores brasileiros. Startups e artesões vivem em ambiente binário e quase matrix. O futuro tem trama e vem sendo alinhavado por grandes e pequenos produtores. De Curitiba vem os sinais. Eis a mensagem do ID Fashion. 

*Jornalista viajou a convite do ID Fashion, Sebrae/PR e CIEPE.








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