“Nunca parei de desenhar e isso rememora a infância”

Publicação: 2016-11-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Lima
Repórter

Foi em Natal que o ilustrador Rogério Coelho recebeu, na última sexta-feira (11), a notícia de que venceu o 58º Prêmio Jabuti, a maior comenda da literatura brasileira. Ele concorreu em três categorias e venceu em “Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil” com Barco dos Sonhos (2015) da editora Positivo. A inspiração para o livro veio em uma praia com tempo nublado. Curiosamente, ele estava em Natal no dia do anúncio dos vencedores, porém, num dia majoritariamente ensolarado. O Barco dos Sonhos concorreu também na categoria Infantil e ficou entre os dez finalistas. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Coelho fala de sua experiência na Maurício de Souza Publicações, da Turma da Mônica, e do trabalho feito para o primeiro livro infantil de Luís Fernando Veríssimo. O ilustrador – que esteve em Natal participando da 6ª Feira de Livros e Quadrinhos de Natal (FLiQ) - também revela o segredo para se manter conectado com o universo infantil, aos 41 anos de idade.  
Alex RégisO ilustrador Rogério Coelho, anunciado como vencedor do prêmio Jabuti na última sexta-feira, fala sobre inspiração para criaçõesO ilustrador Rogério Coelho, anunciado como vencedor do prêmio Jabuti na última sexta-feira, fala sobre inspiração para criações

Como nasceu a ideia pra o “Barco dos Sonhos”?
A história surgiu quando a gente foi para São Francisco do Sul no litoral de Santa Catarina. A gente foi numa época que estava frio. Era julho ou começo de agosto de 2008. Meus filhos eram pequenos.  Acho que foi lá que me vi como pai, que eu realmente estava ficando mais velho. Eles estavam correndo ali, brincando, não ligando se estava frio ou nublado, mas estavam ali se divertindo. Imaginei que um dia também estava naquela situação. Naquele dia vi as coisas com olhos mais críticos, 'pô, que saco essa chuva'. Então, comecei a ver aquele momento de outra maneira. Comecei a valorizar aquela baguncinha só deles naquela imensidão de mar e de areia. Aquela reflexão de eu envelhecendo e dos meninos fazendo que eu fazia talvez  alguns dias atrás – porque passa tudo tão rápido. Então, essa coisa começou a mover essa engrenagem. Tinha uma história ali. Existe algo que quero falar sobre isso. Aí a editora acabou acreditando na história, aí foi a sorte. 

Como foi o processo de produção dele?
Esse livro demorou sete anos para ser produzido. A versão que saiu impressa demorou um ano para fazer, mas ele ficou sete anos em processo. Nesse tempo, acabei perdendo tempo, mudando a história, desenhei de maneira diferente. Cheguei a desenhar mais da metade dele duas vezes. Durante todo o tempo o pessoal da editora acreditou, mesmo em momentos em que eu queria desistir do livro. Cheguei a falar abertamente, 'vamos encerrar isso por aqui'. Eles enxergaram o livro mais do que eu poderia ver.

Pessoas como você, que conseguem montar histórias que despertam o interesse das crianças, seja por meio de imagens ou palavras, conseguiram preservar o lado infantil mais do que os outros?
Acho que fui obrigado [risos]. Estou fazendo a mesma coisa até hoje desde quando era criança de quatro a cinco anos. Nunca parei de desenhar na minha vida. Isso acaba trazendo muito da memória afetiva da infância. Cada dia que levanto e vou desenhar, sei que aquilo começou na mesa da cozinha da minha casa com minha mãe, que hoje é falecida, do outro lado dando instrução. Vai bater no aniversário de dez anos, quando meu presente foi um pacote de folhas sufite e uma caixa de lápis de cor. Na verdade,  ninguém cresce se não quiser. A memória da infância sempre existe, só que a gente vai soterrando, vai substituindo. Naquela praia, na hora em que eu vi que meus filhos estavam se divertindo e eu não estava conseguindo fazer, então eu estava soterrando um pouquinho. É tanto que o velho, no “Barco”,  desenha sozinho numa praia deserta.
Alex RégisIlustrador venceu o prêmio com o livro “O Barco dos Sonhos”Ilustrador venceu o prêmio com o livro “O Barco dos Sonhos”

O prêmio Jabuti não foi novidade. Você já tinha recebido antes?
Ganhei em 2012 na categoria didática e paradidático [Mundo Leitor – linhas da vida: caderno do orientador. Editora Ahom Educação]. Mas já concorri de maneira indireta, quando livros que eu ilustrei já concorreram em outras categorias. Mas aí não havia uma distinção específica para o ilustrador.

Você ilustrou o primeiro livro infantil do Veríssimo?
Esse é o primeiro livro que tem uma narrativa única. O “Gêmeas de Moscou” é um livro infantil. Na década de 1990, ele já tinha lançado O Santinho (1991), que é uma narrativa mais infanto-juvenil e uma coletânea de contos  já publicados.

Você também trabalhou na Maurício de Souza Publicações. Como foi a experiência?
Trabalhei com o Maurício através do Sidney Gusman, editor das publicações dele. O Maurício faz parte do processo, mas já é uma coisa entre ele e o Sidney. Com o Maurício, já me relacionei algumas vezes, mas em conversa rápida. Trabalhei com ele entre 2010 e 2011 numa coletânea chamada MSP Novos 50. Fiz uma história de cinco páginas do Horácio, a primeira vez que colaborei em material da MSP. Depois, no livro Mônicas, fiz uma ilustração da Mônica. Daí tem o Louco, uma história de 68 páginas  que eu escrevi e ilustrei. O Louco é um personagem do Maurício, mas foi interpretado do meu jeito junto com o que já sabia e achava sobre o personagem.

Já tinha vindo a Fliq?
Foi a primeira vez.

O que achou?
Anteontem participei de um bate-papo sobre livro infantil. Na verdade, gosto muito de vir para o Nordeste. Já estive em João Pessoa e já morei em Brasília, então convivi muito com o pessoal daqui. Gosto muito do astral da maneira que as pessoas se relacionam aqui. Parece tudo mais aberto, mais fácil. Lá no evento foi muito legal, a maneira das pessoas se dirigirem. Não tem aquele cerimonial todo. As pessoas vem, falam, dizem o que acharam. E na sexta-feira, consegui fazer uma coisa que não tinha conseguido fazer em outros eventos: circular entre o público, as mesas, conversar com cada autor.

O que achou da cena de quadrinhos local?
Tem uma produção bem legal aqui. Tem uma cena de quadrinhos grande, bem diversificada e desenhistas muito bons mesmo.


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