“O Alecrim não se salvou da crise, mas há certo conforto”

Publicação: 2015-12-06 00:00:00
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» ENTREVISTA » Denerval Sá - Presidente da Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (Aeba)

Sara Vasconcelos
Repórter


Um turbilhão de gente, mercadorias e preços. É desta forma que o comércio popular do Alecrim é conhecido e consegue se manter mesmo em tempos de recessão econômica. O setor projeta um crescimento de 10% nas vendas de dezembro em relação ao mesmo período do ano passado e deve manter o número médio de empresas.  “Não há como dizer que o Alecrim se salvou da crise. O fluxo diminuiu, mas se mantém, diferente de outros  locais em que  o consumidor desapareceu”, afirma o  presidente da Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim, Denerval Sá. Os efeitos da retração se refletem na  mudança no perfil de consumo, com consumidores mais exigentes e gastando menos e também na redução de empregos temporários, de cerca de 3,5 mil vagas geradas nos últimos anos, o numero de contratados caiu para 20%. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Denerval fala sobre as projeções para as vendas do final do ano e em 2016, das dificuldades de infraestrutura e característica que levam o comércio de rua mais conhecido de Natal a atravessar o período com “certo conforto”.
Denerval Sá afirma que o consumo caiu menos no Alecrim e que o comércio do bairro espera crescer no Natal
Como o comércio do Alecrim tem se comportado nesse período de recessão?
O comércio do Alecrim, pela sua complexidade, continua recebendo um público bom de pessoas. O problema é exatamente o que este público está consumindo.  Não há como dizer que o Alecrim se salvou da crise, mas se passa com um certo conforto em relação a outros setores. O fluxo diminuiu, mas se mantém, diferente de outros  locais em que  o consumidor desapareceu.

Isso demandou mudança de estratégias por parte dos lojistas?

Sim para manter esse fluxo foi preciso fazer  mais promoções, ofertas, aumentar os prazos para pagamento, para atrair o cliente, que é menor em número e mais exigente no produto e no preço.

Nos últimos anos, o crescimento da economia vinha puxado pelo consumo das famílias. Por ser um comércio mais popular, os efeitos desse arrefecimento é sentido mais diretamente?
O crescimento nos últimos anos foi sentido a olhos vistos e, na mesma proporção, claro, sentimos  esse arrefecimento com muita veemência. Muito rápido também, com as pessoas mais seletivas, exigentes na hora de gastar.  Tinha uma classe de consumidores que adquiriam produtos de segunda necessidade.  Que trocavam com mais facilidade mercadorias, como geladeira, televisão, produtos de maior preço. Hoje há mais prioridades na hora de comprar. Continua a venda de alimentos, vestuário, de bens de primeira necessidade e muitos tem optado em fazer reservas, para se resguardar.  Este ano, o décimo terceiro deve ser usado para isso: pagar dividas e poupar. Houve uma esfriada no grande consumo popular e as pessoas passaram a consumir produtos essenciais e os produtos de época, natalinos. Hoje, devido o momento da economia, há uma triagem do que realmente é necessário, há uma economia maior no gasto dos valores e um perfil mais exigente do consumidor.

Isso se reflete em quedas nas vendas? Qual a perspectiva para fechar 2015,  com prejuízo?
Sim. Em relação ao mesmo período do ano passado, já temos no comércio do Alecrim uma queda média de 10%. Há outros ramos de negócios com quedas maiores, mas essa é uma meta real da diminuição do mercado. Houve uma redução e valores de compras, uma redução de lucro, uma defasagem na renda das pessoas por conta da inflação e  que significa uma queda geral do mercado.

Essa queda chega aos postos de trabalho?
Tivemos uma redução significativa nos números de empregos e principalmente na contratação dos temporários para este período. Para se ter uma ideia o comércio do Alecrim emprega em média de 30 mil a 35 mil  pessoas trabalhando e os empregos temporários representavam em média 10% deste total, todos os anos, o que daria algo em torno de 3 mil a 3,5 mil novos postos. Este ano, tivemos que reduzir e deveremos ter em temporários cerca de 20% do número que costumeiramente contratávamos, no máximo 1 mil empregos. É uma queda brusca. Mas foi a forma de readequar e reduzir custos para manter as atividades. 

Quais as perspectivas para 2016?
A esperança é que a crise política seja resolvida para, só assim, a crise econômica aos poucos ir desaparecendo. Sabemos que uma casa sem chefe fica tumultuada. Esperamos que tenha um desfecho mais rápido das questões políticas, para que o mercado possa reagir rapidamente. Há uma insegurança  por parte do mercado por conta desta crise político-econômica, ninguém tem mais coragem de fazer empréstimos para fazer investimentos. Não se busca crédito, há uma restrição também do correntista, é uma fuga mesmo da busca desses empréstimos, porque há dinheiro no mercado, há oferta de crédito mas a juros tão altos que se torna impraticável. Afugenta quem quer contrair e investir.

Em relação ao fechamento de lojas aqui no bairro, há como mensurar as  perdas?
Houve alguns fechamentos, na verdade, mais transferências. Nenhuma grande rede. Pequenas e médias lojas fecharam, foram vendidas e abriram outros pontos no local. Então, acabou tendo uma compensação, sem crescimento ou perdas. O número de lojas que fechou é pequeno e mesmo nesses pontos que fecharam há uma procura permanente de outros comerciantes para abertura de novos negócios. Ou seja, é uma prova que o Alecrim continua com investidores interessados em abrir empreendimentos aqui, continua atrativo. Inclusive estamos tratando com um grupo, uma grande loja de confecções de Santa Catarina, que quer vir se instalar aqui. Não podemos falar em crescimento, mas a média se mantém. Nós tivemos nos últimos três ou quatro anos um crescimento espetacular em média de 10% do crescimento do mercado,  em numero de lojas, mas lamentavelmente  em 2015 parou, a entrada de novas lojas é mais lenta. 

O que contribui para que o encerramento de atividades seja menor aqui no bairro, na avaliação do senhor, do que em shoppings e em outras áreas da cidade que fecharam?
O grande trunfo do bairro é que, com essa reposição, não se vê portas fechadas. É essa complexidade, essa característica do bairro de atrair um grande número de compradores mesmo em períodos de crise, mesmo readequando e mudando o perfil de consumo. De ter um comércio que economicamente se sustenta de uma forma menor, mas contínua. E as empresas se mantém, reduzem os custos e conseguem se equilibrar para superar essa fase de crise.
 
É o tipo de mercadoria?

Acredito que não. Aqui o padrão de qualidade é igual ao de muitas lojas mais sofisticadas e existe também o comércio mais popular, temos produtos que atendem a todos os segmentos de públicos A, B, C, D e E. E é essa conjuntura nos mantém.
 
E como está esse endividamento, freia o consumo?

O número de endividamento é muito grande. Gente querendo comprar, mas o cartão não passa porque está estourado. E isso acontece em todas as camadas e faz com que essas vendas não aconteçam ou as pessoas se resguardem, evitem a compra.
 
Qual a taxa de inadimplência no comércio do Alecrim?
Não chega a 5%. Por ser um mercado mais popular que atrai pessoas mais humildes, há um cuidado maior com a dívida, essas pessoas tem maior medo de ter o “nome sujo”, como dizem.  Então, isso faz com que essa taxa de inadimplência seja menor do  que em outras praças. O que causa essa inadimplência é o desemprego que aumentou, a inflação também, o endividamento dobrou.

A Associação chegou a apresentar projetos de urbanização do camelódromo e melhorias de infraestrutura e segurança do bairro. Em que fase está isso?
Lamentavelmente, nós temos tido pouca sorte com as Prefeituras que tem passado por Natal. O Alecrim é discriminado ou esquecido pelos gestores, só é lembrando em períodos de campanha eleitoral. Até conseguimos acesso ao Executivo, mas os projetos, as ações não andam. Apresentamos um projeto junto com o Sebrae que englobava desde a Praça Gentil Ferreira até o cruzamento com a avenida Presidente Bandeira. Esse projeto topou na necessidade de construir um prédio para os camelôs, conseguimos o terreno no Centro do Alecrim, uma empresa com recursos e capacidade técnica se mostrou interessada, mas a Prefeitura postergou e houve a desistência. E esperamos que apareça um gestor com coragem de ajudar o Alecrim. E continuamos com os mesmo problemas permanentes.

Problemas de segurança?
Os permanente são os problemas de trânsito,  falta de estacionamento, saneamento, iluminação pública. A segurança melhorou. Temos aqui na 3ª Delegacia de Plantão do bairro tem o menor número de ocorrências de Natal. Para um bairro que recebe diariamente de 100 mil a 150 mil pessoas é um saldo bastante positivo. o índice de furto tem reduzido graças a uma parceria da Aeba e as Polícias Civil e Militar, em conjunto, com uma maior cobertura. Há um compromisso de em três minutos chegar para atender qualquer ocorrência no bairro.

Esse público movimenta quanto?
Não tenho esse número atualizado, mas o que podemos dizer é que 44% de todo o volume mercadológico de Natal é do Alecrim, bem como mais de 50% dos empregos do comércio. São mais de 30 mil comerciários de carteira assinada e mais de 20 mil empregos gerados diretos e indiretos.

Quais as expectativas para as vendas de fim de ano, há projeção de crescimento?
Estamos esperando boas vendas, que o mercado reaja, temos um movimento já bastante interessante em lojas de confecção feminina. Não temos ainda projeção, mas esperamos crescer 10% em relação as vendas de dezembro do ano passado, com as compras suprimidas e de produtos de época. E puxadas por vestuário, alimentos,  calçados e acessórios, com alguma queda aí em eletro-eletrônicos.

Com o Black friday já houve antecipação dessas vendas?
Conseguimos atingir a meta, não tenho os números. Mas posso dizer que conseguimos atrair o público, trazer para loja, houve um bom fluxo, descontos reais e boas vendas. Mas diferente de outros anos, nas semanas que antecederam houve um esfriamento das vendas. As pessoas esperaram para comprar na black friday, então se reflete mais no desempenho de novembro do que na antecipação das vendas de fim de ano.


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