‘O Governo vai afetar direitos do povo’

Publicação: 2014-11-23 00:00:00
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Anna Ruth Dantas

Repórter
Principal líder do PSOL, a ex-candidata a presidente da República Luciana Genro faz uma avaliação positiva das eleições deste ano, embora admita que  “ainda falta muito para o partido ser uma alternativa real de poder”. Mesmo com essa ponderação, ela disse que não se desestimula a continuar militando na esquerda e observa que o PSOL foi o único partido que não se envolveu no escândalo da Petrobras.
Luciana Genro, que concorreu à Presidência pelo PSOL
“É preciso construir uma esquerda coerente, que não abandone suas bandeiras. Porque é, justamente, a sombra de uma esquerda que abandonou suas bandeiras, que não foi fiel a seus princípios que a direita cresce. É por isso que o PSDB  vem se fortalecendo”, analisa Luciana Genro, que esteve em Natal participando de evento promovido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Sobre o pleito de 2014, as perspectivas do trabalho do PSOL, a avaliação da atuação da esquerda no país e os projetos para o pleito municipal, Luciana Genro concedeu a seguinte entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

Qual a leitura que a senhora faz das urnas de 2014?

Primeiro eu preciso agradecer. As urnas foram generosas com o PSOL. Nós dobramos a nossa votação em relação a 2010, tivemos mais de 1,6 milhão de votos. Dobramos a nossa bancada de deputados. Aqui no Rio Grande do Norte nosso companheiro Robério Paulino foi candidato a governador e teve uma votação extraordinária, mais de 22% dos votos na capital. Tivemos candidato a deputados que, embora não eleitos, tiveram uma votação muito boa, como é o caso de Sandro Pimentel. Houve um crescimento expressivo do partido. É claro que ainda nos falta muito para sermos uma alternativa real de poder, que o povo nos enxergue com possibilidade concreta de vitória. Isso é resultado também de uma enorme desigualdade na disputa que beneficia os grandes partidos. Eu vejo que essa disputa acirrada que houve no segundo turno (nacional) foi resultado de uma insatisfação muito grande que existe com o governo. E acabou fazendo com que a direita crescesse na falta de uma alternativa de esquerda. Por isso para nós é muito importante a construção do PSOL, para haver uma oportunidade de superar o PT pela esquerda. Se nós não oferecermos ao povo uma oposição de esquerda, obviamente que a oposição de direita é que vai crescer. Até porque a situação econômica do país é muito complicada e, com certeza, o Governo vai tomar medidas que vão afetar os direitos do povo. Está previsto um ajuste nas costas do povo. Já aumentou a gasolina, aumentou a taxa de juros. Quer dizer, o Bolsa Banqueiro foi quem ganhou já nos primeiros dias depois da vitória da Dilma. Então o discurso de esquerda do PT foi enterrado no final do segundo turno e agora, se não houver muita pressão social, o que a Dilma (presidente da República) vai fazer é o que ela dizia que Aécio (Aécio Neves) iria fazer. Não foi a toa que chamei os dois de irmãos siameses.

A senhora disse que o papel do PSOL é oferecer como alternativa de esquerda. Mas o PT também se apresentou como esquerda. Esse discurso não cai no descrédito?

O problema é que o PT deixou de ser de esquerda no momento em que se aliou com figuras como Sarney, Collor, Renan Calheiros, no momento em que entrou no esquema de corrupção das grandes empreiteiras, como nós estamos vendo agora. Esse escândalo da Petrobras envolve praticamente todos os partidos com representação no Congresso Nacional, inclusive o PT, o PC do B. Exceto o PSOL que por estatuto não recebe dinheiro de bancos, empreiteiras e multinacionais. Então, o PT abandonou as bandeiras da esquerda e passou a ser um instrumento de aplicação dos planos do capital. Não é a toa que os mercados, os bancos nunca lucraram tanto como nos governos do Lula e da Dilma. É preciso construir uma esquerda coerente, que não abandone suas bandeiras. Porque é, justamente, a sombra de uma esquerda que abandonou suas bandeiras, que não foi fiel a seus princípios que a direita cresce. É por isso que o PSDB  vem se fortalecendo. Para combater o crescimento da direita, é preciso ter uma esquerda coerente que não abra mão de defender suas bandeiras.

A senhora disse que está “distante de se mostrar uma alternativa de poder real” perante as pessoas. Isso não lhe desestimula?

Não. De forma alguma, não me desestimula. Eu acho que, ao contrário, estamos desafiados a nos postular como alternativa de poder. E demos passos importantes nesse sentido, nesse processo eleitoral, assim como nos anteriores. O PSOL teve sua participação de forma significativa. Agora temos que remar contra a maré porque o sistema político eleitoral é desenhado para favorecer quem tem dinheiro e é parte do esquema. Tanto é que o dinheiro dessas empreiteiras milionárias é para Dilma, para o Aécio, para a Marina. Eu gastei R$ 400 mil na minha campanha. Provavelmente isso foi o que a Dilma gastou em um dia e o Aécio em 12 horas. Então há uma desigualdade muito grande, mas ao mesmo tempo há um processo político em curso que se demonstrou em junho de 2013 que é o povo começa a tomar consciência que tem força e pode ser protagonista das mudanças. 2013 foi o primeiro momento desse destravamento dos protestos porque há muitos anos, desde que o PT havia chegado no poder, os movimentos sociais vinham se enfraquecendo. Junho mostrou que já não controlam mais e há um espaço politico real para o PSOL crescer e se fortalecer no meio desses movimentos. O PSOL não é só para disputar eleição, mas para fazer a discussão no seio do dia a dia.

No pleito deste ano o PSOL lançou candidato próprio e o PSTU também. A esquerda dividida se enfraquece para entrar no páreo com mais força e chance de vitória?


Sim. Acho que o ideal seria termos uma candidatura unificada das esquerdas. Mas, muitas vezes, não se consegue chegar a um bom termo. Porque embora tenhamos uma posição  ideológica muito semelhante temos divergências políticas de como nos apresentar que são grandes. Basta ver como foi o perfil da minha campanha e como foi o perfil da campanha de Zé Maria (candidato do PSTU). O importante é que nós não ficamos nos digladiando entre nós. Fizemos os ataques contra os nossos maiores adversários políticos, que não são do campo da esquerda coerente.

Durante a campanha de 2014 a senhora digladiou com o candidato Levy Fidelix (Luciana Genro acusou Fidelix de homofóbico). O que restou daquela troca de acusações nos debates?


Restou o balanço da população a respeito desse embate. Eu tive três ou quatro vezes mais votos do que o Levy Fidelix. O que mostra que os setores progressistas são mais numerosos que os setores fundamentalistas, que apóiam esse tipo de manifestação homofóbica, preconceituosa, odiosa. Acho que, de alguma maneira, foi importante esse embate para trazer à tona para sociedade ver como a homofobia ainda é um elemento forte na e que precisamos combater a partir da educação para que as crianças não cresçam e se transformem em adultos como Levy Fidelix.

O que esperar de Luciana Genro em 2016?

Primeiro antes de 2016 precisamos dizer que nós do PSOL não terminamos uma campanha pensando na outra. Nós pensamos nas coisas que acontecem também entre as campanhas. São muitas lutas. Estive na luta em São Paulo pela moradia. Estive na luta pelo plebiscito da constituinte da reforma política. Fizemos mobilização em Porto Alegre para mostrar que continuamos a lutar pelas bandeiras que expressei na campanha. Em 2016 vamos ter importantes disputas nas eleições municipais. E é possível que eu me apresente como candidata a prefeita de Porto Alegre, assim como aqui em Natal é muito provável que o PSOL tenha força significativa já que Robério (Robério Paulino) conquistou 22% dos votos da capital. Então seja quem for o candidato a prefeito, com certeza, será liderança importante no processo político. O PSOL conquistou papel importante nas lutas e na política nacional. Vamos continuar desenvolvendo essas lutas com muita coerência, sem nos vender e nos entregar para esquemas podres.

Em Natal, o professor Robério Paulino será o candidato a prefeito em 2016?

Tenho certeza que seria um grande candidato. Sandro Pimentel também seria um grande candidato. Temos que ver o que eles vão optar porque com certeza uma bancada de vereadores também é importante para o PSOL. Então não sei qual será a decisão do partido. Mas com a votação expressiva que Robério teve ele já desponta como candidato natural a prefeito de Natal.


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