É o Leste!

Publicação: 2019-10-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Estivesse vivo - que saudade dele! - meu querido poeta Gilberto Avelino, das odes do mar, sentindo esse vento farto que alisa o rosto e varre as ruas, e diante do verão que já vem vindo, já teria avisado a mim, naquele seu jeito majestático de ser: “É o Leste, seu Serejo!”. Nosso último encontro foi saudado assim, ele singrando os ventos na galeria do Edifício Rio Branco, mão espalmada para o alto, altaneiro como os poetas destemidos do meu mar antigo.

Nenhum poeta foi tão singular quanto Gilberto. Tinha o destemor dos grandes líricos a lançar versos cheios de uma fartura ao mesmo tempo substantiva e adjetiva. Dizia a ele, sesmeiros que somos da Rua da Frente, ser a voz de nós todos diante do mar primevo e talássico. Dos nascidos no seu mar aceso em lua, os que arrastam nos olhos, quando não na própria alma, as águas do mar de sargaços, reinaugurando na alma novas e atlânticas viagens.  

Tive o privilégio e sou vaidoso - prá que negar? - de ter sido o escolhido por ele para escrever a introdução do ‘Diário Náutico’, a reunião de toda sua poesia. Parece que estava antevendo sua partida que, embora inesperada, talvez não fosse tanto para ele mesmo. Ainda lembro a cena. Quando dei por concluído o texto, fui à sua casa e li, entre muitas pausas emocionadas, o que toda aquela sua poesia representava para nós, os pobres macauenses.

Ali está seu formal de partilha. Livro a livro. Verso a verso. Sua terra e seu mar. Suas marés de sizígia, às vezes, em preamar. Suas salinas, as mesmas salinas do grande poeta Edinor Avelino, seu pai, nos tempos humanos e não industriais, das pirâmides brancas, as mais lindas do universo. São de Edinor, e perdoe a vaidade, alguns dos mais belos e sonoros alexandrinos da Macau reinventada e que ele viu iluminada pelo velante farol de Alagamar.

Seu último livro - Os Tercetos - a ouvir as vozes do mar, tão belo quanto os outros, não é sobra, coisa que veio depois. Não. Ele queria que o ‘Diário Náutico’ reunisse a poesia de todos os seus livros publicados. Só. Como escritura de sua herança poética. Rol dos bens imateriais que só a poesia saber fazer. Formal de partilha, quem sabe, de não declarada revisão de haveres, se é que se pode deixar em poesia o destino de ser partilha de todos. E foi. 

Ninguém mais do que Gilberto Avelino sabia da estranha solidão na alma dos que nascem no mar, entre sombras de nuvens. O sentido do sozinho. Daquele navegante que leva na equipagem a solidão sem mágoa. Nós nos sentimos assim, se para nós o mar é o lugar do reencontro com nossa própria solidão. Uma solidão que ele não nega, mas afaga, quando diz no belo e minúsculo poema, bem assim: “Por quem / passares, / fala. / A palavra / apascenta”.

PALCO

PAGA - O prefeito Álvaro Dias já fez as contas e sabe que paga o décimo-terceiro até dia 20 de dezembro. E que a folha de dezembro cai na conta até o quinto dia útil de janeiro. É gol.

INCERTO - Já o Estado, não confirma até agora se cumpre o calendário de final de ano com três salários que somam R$ 1,5 bilhão de reais. Não tem leilão do pré-sal que tape o rombo.

MAS - Em compensação, não há o menor sinal de atraso nas folhas do Legislativo, Judiciário, Ministério Público e Tribunal de Contas. Dezembro e décimo sairão em dezembro. E daí?

DÚVIDA - Qual seria a decisão da Justiça com a extensão do aumento de 16% para todos os servidores estaduais, do menor ao mais graduado? Por ‘justa’ desigualdade em nome da crise?
VIDA - Segunda-feira, 21, a partir das 117h30, no saguão da Justiça Federal, Ivan Lira de Carvalho autografa ‘A Dignidade como patrimônio’. História de vida e exemplo do seu pai.

FANTASMA- ‘O Espírito que Anda’ é o herói que abre a série ‘Era de ouro dos Quadrinhos’ da editora Mythos, São Paulo, reunindo histórias clássicas e inéditas. Em lojas especializadas. 

VALEU! - Para agradecer a Alexandre Alves, doutor em literatura, o elogio nas páginas da TN ao esforço do cronista em fixar num ensaio jornalístico a vida e a obra de Lenine Pinto.

PRÊMIO - Saudoso, ando, desde sexta-feira, entre os ventos e as águas do mar à espera de merecer o prêmio da moqueca de garoupa que Márcio Melo, amigo e irmão, prometeu fazer.  

CAMARIM

ÍCONE - O historiador e biógrafo Cláudio Galvão deve lançar até final do próximo ano a biografia de Henrique Brito. O natalense que inventou o violão elétrico, foi do Bando da Lua e amigo de Noel Rosa, e um dos ícones esquecidos da história da música popular brasileira.

VIDA - Brito não é macauense, como foi inicialmente divulgado. Ele é natalense, nascido na Rua Princesa Isabel, em 1908, como constatou o historiador Cláudio Galvão. Nasceu em 1908 e faleceu precocemente, em 1935, aos 27 anos, e sem nunca merecer uma biografia até hoje.

VALOR - A história intelectual no Rio Grande do Norte que já deve ao historiador Cláudio Galvão, doutor em História, importantes biografias e pesquisas, ficará devendo mais esta. Cláudio vai pesquisar em cidades mineiras, áreas de atuação de Henrique Brito. É esperar. 










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