“O poeta Câmara Cascudo: um livro no inferno da biblioteca” (2019, SESC RN, 212 p.)

Publicação: 2019-06-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves
Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Em mais uma faceta do múltiplo Câmara Cascudo, desta vez é a espaçada poesia escrita pelo potiguar ao longo da primeira metade do século XX que se tornou o mote do pesquisador Dácio Galvão, aqui adaptando para a versão de livro sua tese de doutorado em Letras. Além do hercúleo trabalho detetivesco de encontrar os poucos poemas escritos por Cascudo – uma dezena deles, incluindo três traduções de poemas de Walt Whitman, pai do Modernismo nos EUA –, Galvão conecta Cascudo com os criadores do Modernismo nacional na década de 1920 (em especial, Mário de Andrade), localizando e analisando composições poéticas publicadas nas hoje renomadas publicações modernistas, em especial a seminal “Terra Roxa & outras terras” (lá foi encontrado o insólito texto poético “Não gosto de sertão verde”, de 1926), e a revista portuguesa “Descobrimento”, cujo poema “Brasil de madrugada” foi publicado em 1931. E ainda como parte do volume vem esclarecedor posfácio de Marcos Silva (Professor de História da USP) e o CD “Brouhaha”, organizado por Galvão e contendo tais poemas, traduções e coletas de Cascudo, sendo musicados por Dominguinhos, Ná Ozzetti e Xangai, entre outros. O mistério mesmo continua sobre os motivos de Cascudo não ter continuado a escrever poesia – moderna, sim –, assim como saber se existiu realmente uma obra dele tratando da literatura do RN, produção até hoje não encontrada. A biblioteca cascudiana ainda aguarda novos achados em pleno século XXI.

Mariana Enriquez, “As coisas que perdemos no fogo” (2018, Intrínseca, 194 p.)
A contista argentina – para algumas publicações importantes, uma “sensação” do momento – demonstra nos 12 contos aqui trazidos uma produção interessante no ponto de vista da multiplicidade de temas e enredos, mas ainda irregular em sua consistência narrativa enquanto (ainda) jovem escritora. Por um lado, ela arquiteta estórias sobre temáticas conflituosas como sexualidade e vingança (“A hospedaria”), problemas de personalidade no amargo “Fim de curso” – uma das protagonistas apresenta sinais de esquizofrenia na puberdade – e amadurecimento pessoal (sem sinais de auto-ajuda) na narrativa de “O menino sujo”, esta aqui quase um espelho do bairro da Ribeira (Natal), mas passada na atmosfera decadente do bairro de Constituición (Buenos Aires), repleto de desigualdade social. Por outro lado, cansa demais o excessivo foco na adolescência retratada nestes mesmos contos, além de outros mais, como o quase longo “Anos intoxicados” (este dividido em quatro anos da vida das personagens) e suas protagonistas “leves e pálidas como garotas mortas”, de enredo pífio e resultado narrativo de efeito quase nulo no leitor. Incomuns mesmo são o conto título e seu estranho enredo envolvendo autoflagelação, e o surpreendente “Nada de carne sobre nós”, narrativa contando a obsessão de uma mulher jovem por uma caveira encontrada em meio ao lixo da cidade (“Não pode continuar sem dentes, sem braços, sem coluna vertebral”, diz a narradora). Nesta dupla de contos, a temperatura aumentou.




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