“O que mata na dita 'guerra as drogas' são as armas de fogo, e não o uso da substância”

Publicação: 2017-06-04 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Entrevista: Leilane Assunção - historiadora, socióloga e ativista

Como você se inseriu no debate antiproibicionista da Cannabis?

Em princípio, tem a questão do uso. Como uma pessoa que usa. Eu me via enfrentando os preconceitos, um debate raso e sem embasamento científico. Enquanto universitários e estudantes de pós-graduação resolvemos nos articular para que na universidade houvesse um debate com um nível mais elevado e que saísse do senso comum. Foi aí que nasceu o coletivo em 2010, foi quando a gente fez o primeiro ciclo de debates antiproibicionistas e a primeira marcha da maconha, que não era um momento só de oba oba. A ideia era fazer um evento que possibilitasse o debate e a problematização teórica e política da coisa, para que os ativistas fossem para a marcha devidamente conscientizados e politizados. Em oito anos, tivemos bons resultados.
A professora Leilane Assunção é uma das participantes do Fórum
A professora Leilane Assunção é uma das participantes do Fórum

Quais são os resultados positivos ao longo desses anos?
Tem outros coletivos atuando, a ideia da marcha é plural e no bojo disso tudo está surgindo os meninos do Fórum Delta 9. Eu sou para eles uma referência porque organizo isso tudo há algum tempo e sou ativista com expressão nacional. Durante algum tempo eu fui representante do Brasil na Lanpud (Rede Latino-Americana de Pessoas que Usam Drogas). Esse movimento surgiu em 2012, e a ideia era de que como todos os movimentos sociais que estavam conquistando seus direitos e conseguindo o protagonismo e cada vez mais o movimento negro influenciava o tipo de política pública que o estado adotava em relação aos negros, cada vez mais as mulheres tinham influência sobre as políticas públicas do estado para elas. A gente percebeu que as pessoas que decidiam sobre drogas eram as que não tinham essa experiência. Foi aí que lançamos nosso slogan “nada sobre nós, sem a nossa participação”. Temos amplos estudos, com literatura científica que embasa nossas atividades que mostram, por exemplo, que as pessoas que usam drogas de maneira problemática respondem por 10% de todas as pessoas que usam substâncias. Há uma sensacionalização da mídia dos casos problemáticos que cria uma visibilidade como se todo uso  fosse ruim e problemático e a gente está querendo mostrar como a legalização é um benefício para a sociedade.

Temos países que legalizaram a Cannabis, e o Brasil ainda não. A que se atribui isso?

No Brasil, a gente imaginava que a legalização fosse feita no final dessa década ou no início da próxima, só que esse período está acabando e esse horizonte ficou mais distante depois do golpe (impeachment). Porque parte da agenda do golpe tem uma agenda moral muito proeminente e moralizante. Além da ignorância. Os países que legalizaram já mostraram que não tem o aumento do consumo. O que mata na dita 'guerra as drogas' são as armas de fogo, e não o uso da substância. Quando a gente conseguir que a sociedade acesse essas informações e lide com ela sem preconceitos, aí conseguiremos avançar. A gente sente que a própria universidade tem receio de dar o selo institucional para esse tipo de debate. Patrocina o evento mas não o acolhe como uma vitrine.

As intervenções governamentais são repressivas? Para onde caminha a nossa sociedade com ações estatais a exemplo do que acontecendo na 'cracolância', em São Paulo?

Ficamos com a sensação de que caminha para trás. Esse tipo de política foi aplicada em sociedades totalitárias, do começo do século 20. Essa intervenção que o Dória (João Dória, prefeito de São Paulo), está fazendo lembra o caso do icônico prefeito Pereira Passos, no Rio de Janeiro. Em que ele chegou a determinar que só podia acessar o centro do Rio de Janeiro  pessoas com um vestuário específico que a maioria do trabalhador não tinha acesso.

A marginalização dos usuários de maconha é fruto dessa sociedade?

Existe os dois lados. Os 90% que são usuários não problemáticos estão dentro dessa categoria de maneira estereotipada. Os pesquisadores tem constatada que os usuários problemáticos  são pessoas com história de abuso, que sofreram alguma violência física ou psicológica. São pessoas traumatizadas e não conseguiram se recuperar, fazer sua resiliência. São pessoas que estão nessa condição e você coloca cachorro, cavalaria pra correr atrás dele, é de uma violência devastadora.

Por que legalizar?

Para beneficiar toda a sociedade. A Holanda, que é o país europeu que tem a experiência mais antiga com a semi legalização, tem a menor população maconheira de todo o ambiente europeu. O consumo cai pela perda do elemento proibido, que é muitas vezes visto como um rito de passagem para os jovens. Quando pensamos nas pessoas que usam porque tem interesse medicinal, recreativa ou religiosa são as que não estão preocupadas com disseminação desse uso. Elas não vão  montar uma barraca para chamar os outros para usar. Pra mim ela é recreativa, mas também medicinal. Ajuda na nutrição porque abre o apetite, inibe a dor de cabeça, dá um foco extra nas atividades intelectuais e artísticas. Muita gente que está interessada nesse tipo de uso vai parar de ser perseguida. Estamos em um país que não investiga mais de 90% dos homicídios. A polícia está perseguindo adolescentes  nas periferia por causa de maconha e crack. O governo gasta mais dinheiro em prender pessoas do que em educar.

continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários