"A obra da Roberto Freire, a priori, é desnecessária"

Publicação: 2014-08-24 00:00:00
Cledivânia Pereira, Margareth Grilo e Vicente Neto
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O prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves, deixou claro em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, na última terça-feira, 19, que é contra o projeto do Governo do Estado que pretende reformar e alargar a Av. Roberto Freire. “A Prefeitura tem sérios questionamentos a fazer, inclusive foi dada, na administração passada, a licença e eu mandei rever, porque acho que essa obra, a priori, é desnecessária”, argumentou.

Na conversa, Carlos Eduardo fez um balanço das obras de mobilidade urbana, licitações do transporte e da limpeza pública, e disse que, além de recuperar obras de mobilidade previstas na Matriz de Responsabilidade da Copa “que estavam perdidas”, conseguiu reabrir todas as unidades de saúde, concluir a UPA da Cidade da Esperança e iniciar a construção de uma terceira UPA, na zona Norte de Natal. Falou, ainda, sobre o déficit público municipal acumulado na administração passada, em torno de R$ 500 milhões. “Nós conseguimos pagar inacreditáveis quase 90 milhões de reais, prejudicando a nossa gestão”, afirmou ele. Sobre a realização da Copa da Fifa em Natal, ele ressaltou o bom resultado na arrecadação de ISS no período do evento, mas foi taxativo: a Prefeitura fez “um péssimo negócio” ao doar os terrenos onde estavam construídos o estádio Machadão e o Machadinho, sem pedir contrapartida para outros projetos municipais. Eis a entrevista:
Carlos Eduardo detalha novos projetos de mobilidade, critica obra do Governo do Estado e afirma que Natal fez “péssimo” negócio para a Copa
Quais são os principais projetos de infraestrutura que a Prefeitura tem? O que já está encaminhado?

Atualmente, a prefeitura está fazendo um investimento ao redor de 1,2 bilhão de reais na cidade. E agora estamos nos preparando para fazer um novo investimento, de R$ 1 bilhão, somando-se a esse, sendo que o primeiro projeto é referente à zona Norte, da ordem de 150 milhões de reais, sendo 135 milhões de reais para Lagoa Azul e 15 milhões para Brasil Novo e Novo Horizonte. Significa abastecimento de água, drenagem e pavimentação. Quarta-feira passada, assinei contrato dos primeiros 75 milhões. E estou aguardando exame da Caixa Econômica de outro projeto de 122 milhões de reais que é na área de mobilidade urbana.

O senhor pode detalhar o projeto?

Ele implica na construção de tunéis, viadutos e grande investimento na recuperação da malha viária, sobretudo em ruas e avenidas que são corredores do transporte de massa; 1.052 abrigos de ônibus novos e padronizados; BRTs que vamos ter pioneiramente e outro projeto que já assinamos no Palácio do Planalto, perante a presidente Dilma e já estamos com os recursos da ordem de 13 milhões de reais para fazer a consultoria que vai elaborar o projeto onde a obra principal dele será um túnel que vai começar do lado do Midway, partindo da avenida Salgado Filho com Bernardo Vieira, e cruzando a Antônio Basílio, a Nascimento de Castro e a Amintas Barros.

Eliminando os semáforos...

Isso, vai eliminar todos esses gargalos. E mais nesse projeto de 122 milhões está incluído o túnel da Alexandrino com a Hermes da Fonseca, o que significa dizer que o natalense, que hoje tem ali seu maior gargalo, vai enfrentar nesse trecho um único sinal, que é ali em frente ao 16 RI, e a partir dai ele vai embora, sem travar no trânsito. Quero dizer que esse projeto também inclui viadutos na avenida da Integração, com o final da Prudente, e outro na Xavier da Silveira com a Bernardo Vieira. Temos ainda outros projetos nessa área de mobilidade, estações de transferência, sem eliminar o cartão, climatizadas, com acomodação boa.

Prefeito, essas são obras para dois anos? O senhor termina o mandato com essas obras concluídas?

Esses investimentos de R$ 150 milhões, na zona Norte, e de R$ 122 milhões nós terminaremos em um ano e meio. E esse investimento que eu estou falando maior, cujo orçamento especulado porque a consultoria está levantando o projeto é da ordem de 1 bilhão de reais será realizado até o final do meu mandato em 2016. Eu espero que até outubro, novembro de 2016 essas obras todas estejam prontas. Hoje, as pessoas reclamam que estão passando uma hora e meia, duas horas no trânsito e estão perdendo tempos preciosos da sua vida, seja no trabalho ou na convivência com a sua família.  Então, essas são as obras macro que temos para a cidade, na sua infraestrutura, na sua área de mobilidade urbana.  E acrescento que essa obra de 1 bilhão também contempla a zona Norte, com dois complexos de túneis e viadutos, na Avenida João Medeiros Filho.

Têm obras que dependem do poder municipal, como essas que o senhor citou. Mas a gente também tem gargalos em vias como na BR-101, que é federal e cruza o centro urbano e tem impacto grande na cidade, e na Engenheiro Roberto Freire, que depende do poder estadual. Vai ter alguma articulação com esses poderes para que obras nessas vias também se tornem realidade?

Toda semana, uma vez por semana eu reúno na Prefeitura, a Caixa Econômica, empresários, secretários, Caern, Cosern, Dnit e companhias telefônicas porque a gente trata da micro-obra, de um posto de saúde que estamos construindo, até viadutos e túneis, e galerias pluviais, que estão em execução. O Dnit participa e ao que sei essa obra da Avenida Maria Lacerda com a BR-101, que é um viaduto, está prestes a ser iniciada. Pelo que tenho ouvido do Dnit, começa em pelo menos 30 dias. No que diz respeito a essa obra da Roberto Freire, a prefeitura tem sérios questionamentos a fazer, inclusive foi dada, na administração passada, a licença e eu mandei rever porque acho que essa obra, a priori, é desnecessária. Ela representa um investimento de mais de 200 milhões de reais, que pode ser investido em outra carência da cidade, e não na Roberto Freire, que já é uma avenida de seis pistas. E ela tem ao lado um lugar, que hoje é um lugar, digamos, precioso da cidade e que não é utilizado para a cidade, mas que mais cedo ou mais tarde essa área de Capim Macio abrigará um ambiente que valorizará obras que valorizem o meio ambiente e a cultura, trazendo mais lazer, mais cultura para a população e potencializando nossa principal atividade econômica que é o turismo, que carece de alternativas para usufruir mais a cidade, além do litoral, dos hotéis e da gastronomia.

Então o senhor não é a favor desse projeto do Governo do Estado de ampliação da Roberto Freire?

Essa obra me parece que é um monstrengo. Pelo que eu vi – agora é uma opinião superficial, mas ouvi algumas pessoas -, ela vai brutalizar essa área que é uma riqueza para os natalenses, e uma obra desnecessária porque francamente uma avenida onde se tem seis pistas não tem mais o que fazer.

Então, o senhor pensa em um parque para aquela área?

Esse projeto será que ser rediscutido.

Existem outras tipos de intervenções viárias, que até já são utilizadas nas grandes cidades, que é mudança de horário, de trajeto em algumas vias de acordo com o fluxo, como ocorre no Rio de Janeiro, em Copacabana. A prefeitura estuda esse tipo de intervenção menos invasivas, tipo fazer corredores exclusivas para ônibus, que são medidas simples de ser implantadas e que custam menos?
Nesses projetos que mencionei eles contemplam corredores de ônibus e de táxis, os BRTs, que têm dado certo. Por exemplo, o Rio de Janeiro, antes,  você saia do Leblon, atravessava todo o bairro, Ipanema, Copacabana e chegava lá no final de Copacabana, na avenida Princesa Isabel, em uma hora e meia. Com o BRT hoje, lá, esse tempo diminuiu para 30 minutos. Quer dizer houve uma redução. Os BRTs estão dentro do planejamento da Secretaria de Mobilidade. E eu acredito que esses corredores têm dado resultado, e vão facilitar. Essas obras todas de mobilidade também vão facilitar.

E a licitação do transporte?

Ela vai redimensionar toda a questão do transporte coletivo na nossa cidade, a demora nos ônibus, a falta de conforto dos ônibus, que andam cheios. Essa nova licitação que vamos realizar no início do próximo ano ela vai replanejar o sistema. Então é um conjunto de obras, não só de viadutos e túneis, mas obras, como por exemplo, de linhas exclusivas do transporte de massa, abrigos mais confortáveis, uma melhor sinalização, dando horários de ônibus, as estações de transferências, que vão ser uma espécie de biblioteca do transporte público. Você vai entrar lá vai ver as linhas, você vai poder entrar na internet, vai poder se planejar melhor. Então, é um conjunto de fatores que vai melhorar, vai diminuir muito os nossos problemas na área de mobilidade urbana. Mas sempre que você faz uma coisa, aparece um problema mais adiante. A obra que está em execução na Mor Gouveia, que vamos terminar dentro de 20 dias, vamos descer para a Industrial João Mota, que será uma nova Mor Gouveia, depois vamos chegar na Felizardo Moura, isso sem desapropriar casas. Então eu acredito que todo esse conjunto de obras vai diminuir radicalmente os nossos problemas hoje.

Prefeito, nessas intervenções teremos novas ‘Bernardos Vieiras’. Existem críticas de motoristas que com aquele corredor na Bernardo Vieira, a Prefeitura acabou com a Bernardo. Em compensação, quem anda de ônibus diz que melhorou bastante...

Eu tenho uma pesquisa, feita antes de sair da prefeitura, em 2008, que diz que para o transporte coletivo, 96% entre motoristas, cobradores e usuários aprovaram. Nós reconhecemos que para o automóvel, está certo, não foi uma solução. O problema continuou. Mas eu quero dizer que aquela obra foi feita para a maioria. A maioria anda de transporte coletivo, então a maioria foi beneficiada.

Se precisar de novas ‘bernardos vieiras’, serão feitas?

Sim, porque a nossa política é de privilegiar o transporte de massa. Nós temos uma população de 820 mil habitantes e 500 mil usam o transporte coletivo e pouco mais de 300 mil usam o automóvel.

O transporte coletivo está hoje no centro das discussões da cidade, seja por questão da qualidade, seja por questão econômica, ou por uma questão de segurança. Acho eu que a licitação é fundamental para esse seu projeto de priorizar o transporte público. É ela que vai normatizar tudo. O senhor está no seu terceiro mandato, já tem experiência, porque é tão difícil fazer a licitação, o que trava?
Nós iríamos licitar este ano, mas aconteceu o seguinte: nessa licitação, o projeto só atenderia a 89 permissionários do transporte coletivo. Quando nós deixamos a prefeitura em 2008, nós conseguimos duas coisas: primeiro, permitir que quem tivesse van tivesse o direito de ter o micro-ônibus, o que foi feito; em segundo lugar, a gente garantia 176 permissionários. Mas no projeto que encontramos, a licitação estava montada para esses 89. Então, eu mandei desmanchar tudo e começar do início, para que atendesse aos 176, porque no meu tempo de prefeito, com esses 176 e o sistema de ônibus – não digo que era um sistema ideal, deixava a desejar – mas atendia a contento à população, com problemas pontuais, porque o alternativo entra lá dentro, e o coletivo só vai nas grandes avenidas e ruas. Eles completam. O atraso foi por uma determinação do prefeito. Mas vai sair com os 176, estamos estimulando o pequeno, são 176 donos, pequenas ou médias empresas, e aí nós vamos licitar com esse atraso, porque está sendo replanejado. Ter 176 alternativos no sistema mexe com todo o planejamento que foi feito. Mas a consultoria está terminando, acredito até dezembro, e queremos iniciar 2015 com essa licitação na rua.

Em relação ao plano diretor de trânsito. A gente não consegue andar em Natal numa onda verde, nem na Rio Branco, que é uma avenida pequena, você para em muitos sinais. Há algum projeto para modificar o trânsito, criar mãos únicas, mais livres, ou não?

Agora, por ocasião dessas obras do complexo viário Dom Eugênio Sales, muitas avenidas passaram por uma reordenação do trânsito e isso comprovou que funciona – tanto que avenidas como Amintas Barros e outras vão manter a mão única. E a Semob está envolvida em muitos projetos. Estava envolvida no complexo, está envolvida nesse projeto dos R$ 122 milhões e está participando com seus técnicos nesse projeto de 1 bilhão de reais. A equipe, portanto, está muito ocupada, mas simultaneamente eles estão vendo alternativas para que a gente possa melhorar efetivamente o trânsito em Natal. Em algumas situações, sem grandes obras, com planejamento e pequenas medidas.

Vamos fazer um balanço das obras paralisadas?

Quando iniciamos essa nova gestão encontramos todas as obras que iniciamos na outra gestão paradas. Hoje, a situação é a seguinte: Capim Macio, retomada. África, retomada. Nossa Senhora da Apresentação, retomada. Mercado Modelo das Rocas, retomado. Marui, que nós deixamos o projeto pronto e os recursos na conta passou quatro anos parado. Não fez nada. Nós já começamos semana passada essa obra, porque é muito importante, porque esse projeto do Maruim tem três características importantes: primeiro, transfere as famílias para morar a 700 metros de onde moram hoje; e vão morar em uma habitação digna, quando hoje moram em uma sub-habitação, moram numa favela; segundo, vai permitir o crescimento do Porto de Natal, sobretudo na área de estocagem, que é do que se ressente muito nosso porto, para melhorar as exportações e receber as importações e, evidentemente, com esse crescimento vai se pagar mais imposto ao município; em terceiro lugar, toda aquela área que vem do Mercado do Peixe até o Maruim vai receber um centro comercial totalmente reformulado, padronizado e o grande sonho dos pescadores de Natal, os moradores das Rocas, que é o grande frigorífico, que ali se trabalha improvisadamente, sem condições de higiene. Então, ali vai ser colocada uma grande máquina frigorifica, que vai potencializar a pesca. Por fim,  Vila de Ponta Negra, é a última obra que vamos retomar, dentro de 15 dias. As máquinas já estão encostando. Vale dizer o seguinte: essas obras paralisadas durante quatro anos e retomadas deram um prejuízo a Natal de 24 milhões de reais por conta de uma coisa chamada reajustamento de preços. Houve aumento de preço de vários itens.

O que está sendo feito diante dessa dificuldade?

Estamos pagando e vamos pagar isso, esses 29 milhões de reais, esse prejuízo, até dezembro de 2015. Foi negociado grande parte e outra parte está faltando fechar, mas o construtor vai ter que atender os interesses da prefeitura também – de como podemos pagar – e vamos pagar atualizado. Ele vai receber até dezembro de 2015, mas atualizado.

Os recursos para esse pagamento são próprios, da prefeitura?

Recurso próprio do Município, do contribuinte de Natal, oriundo do IPTU, do ISS, e de outras taxas. Esse é o prejuízo. Então, essas obras todas estão ai retomadas. Dentro de um mês, Capim Macio estará pronta;  em 45 dias, aproximadamente, N. Senhora da Apresentação estará pronta;  até o mês de novembro, o Mercado Modelo das Rocas estará pronto, e até final de 2015, o residencial Maruim e a África estarão prontos; e Vila de Ponta Negra, dentro de seis meses, porque é uma obra com duas lagoas e 14 ruas que serão drenadas e pavimentadas. Então, essas obras paralisadas nós já recuperamos, estamos fazendo, e algumas entregamos. O Parque da Cidade é um exemplo. Passou quatro anos fechado. Uma obra perseguida. Mas essa obra já foi resgatada e já foi devolvida ao natalense. Lá hoje funciona o Memorial Natal, que foi inaugurado dia 5 de junho, e já passaram por lá mais de 15 mil pessoas, entre natalenses, brasileiros e estrangeiros. Biblioteca funcionando,  auditório e escola de  Educação Ambiental, que toda semana recebe estudantes de escolas públicas, privadas e das universidades. E essa é uma obra que à medida que o tempo passa, por ser uma obra que saiu da prancheta de Dr. Oscar Niemeyer, ela passará em breve a ser uma referência internacional. Alguns hoteleiros da via costeira já me afirmaram que alguns turistas estrangeiros chegam na portaria do hotel querendo ir para a obra de Dr. Niemeyer.

Prefeito, e quanto a saúde?

Saúde foi a pior situação que encontramos. Nós temos a obrigação de investir constitucionalmente 15% do orçamento na saúde. Nós investimos hoje 25%, só que 23% é salário, incluindo os terceirizados. Das 76 unidades de saúde, nós encontramos ao redor de 60 unidades literalmente fechadas. Estavam trancadas. No programa Saúde da Família, de 136 equipes, nós encontramos 22 funcionando. Então a saúde foi a pior situação. Mas todas as unidades foram abertas, não tem nenhuma unidade que não tenha médico, contratamos até hoje 89  médicos novos para a rede municipal – estrangeiros, do Mais Médicos, e profissionais daqui. Voltamos com as 136 equipes do Saúde da Família, todas com médicos.

Quando o senhor assumiu, esses profissionais estavam dando expediente, como estava?

Foi o seguinte: os terceirizados, que são os vigias, o que varre, o que limpa, estavam com sete meses de salário em atraso, então não ia nem lá. O médico chegava lá tudo sujo, abandonado não atendia. Também não tinha remédio não tinha papel, então não funcionava. Então rememorando, todas as unidades reabertas, com pelo menos um médico; as 136 equipes do PSF voltaram a funcionar com médicos;  concluímos a obra da UPA da Cidade da Esperança e abrimos ela. Está funcionando plenamente, inclusive com plantão 24 horas, clínico geral e odontologia; começamos a construção da terceira UPA no conjunto Soledade, na zona Norte, e quero dar a ordem de serviço, dentro de 15 dias, da quarta UPA, no Planalto. O terreno existe, a empresa ganhou licitação, está pronta para entrar, mas existe um problema com a Cosern para tirar um poste lá com carga muito pesada de energia. Problema técnico que está sendo resolvido. Quando a Cosern resolver a parte dela, eu acho que dentro de 15 dias começamos as obras. Tudo para entregar em abril do próximo ano. Agora, problemas ainda temos. Ainda falta remédio, a gente teve que pagar a muitos fornecedores que não estavam recebendo. Muitos chegaram até a falência.

Prefeito, se nós temos 23% dos recursos direcionados para a saúde concentrados na folha de salários, qual é a solução de gestão para abrir essas duas novas UPAs? Porque isso exige mais contratações...
Eu espero melhor a receita da prefeitura, para ver se a gente faz maiores investimentos porque o financiamento da saúde é uma coisa conjuntural no Brasil. Até os planos privados estão em crise. E o SUS, que é o maior projeto de Inclusão social da América Latina, ele carece de recursos. Veja bem, do PIB nacional só 4,5% é investido na saúde. O Chile tem 17 milhões de habitantes mas destina 12% de seu PIB para a saúde. Nós temos 200 milhões de habitantes. Eu acredito que a solução da saúde, que passada pela má remuneração do médico, que não ganha o que deve ganhar, bem como outros profissionais, enfermeiros, psicólogos. Enfim, de um modo geral, ganham péssimos salários e a solução não está nos municípios brasileiros, passa por duas coisas: primeiro, aumentar o percentual de investimento do PIB na saúde, porque saúde é caro. A educação conseguiu sair de 6% para 10% do PIB, mas não vejo movimento nacional para a saúde sair de 4,5%.  Não sei porque, mas haverá que ter. E o segundo ponto é uma solução em nível federal porque o município não tem recursos para resolver todas as demandas da saúde. Você veja que a distribuição do bolo nacional é injusta, porque quase 70% dos recursos estão na mão do governo federal, e o município tem 10%, mas arca com todas as demandas.

E esse problema das cooperativas médicas, que está aumentando e parece ser uma bola de neve... Como se resolve isso?

Hoje, o médico concursado, que é aprovado, quando é convocado, grande parte não assume; outros passam três ou quatro meses e abandonam. E a gente não pode fazer concurso permanentemente.  E outra coisa: como ganha mal ele está saindo para a cooperativa, e o município tem que se virar porque tem que dar a assistência de saúde, não interessa.

É uma das situações mais delicadas?

É a mais delicada de Natal e do Brasil. Acho que vamos ter um grande momento agora de discutir isso em nível nacional, que é com a eleição de presidente. Nós temos duas coisas ai: uma é a questão do investimento do PIB na saúde e outra é a criação de um plano de carreira nacional para a categoria porque o município não pode pagar o que eles têm direito. No Brasil hoje quem bem – e ganha justamente, merece ganhar – é juiz, desembargador, procurador, toda a área do ‘data vênia’. Esses souberam na Constituição garantir  seus justos salários, e se ganham 25 mil, têm uma grande responsabilidade, de decidir o destino de uma comunidade, de vidas e de uma vida, individualmente. Ainda no Brasil se paga bem no Legislativo. Já o Executivo ganha bem, mas não ganha o salário justo. Mas professor, carreira médica e policial não é ainda o salário justo.

O senhor falou que o Executivo ainda não ganha bem. O senhor está tentando corrigir isso com a reforma administrativa. Mas o que está emperrando a efetivação dessa reforma?

Estou corrigindo agora. Algumas melhorias estão na reforma que foi votada na Câmara, e será implantada inicialmente em setembro. Veja como é difícil fazer uma gestão no Brasil porque a reforma passou dez meses na Câmara.

O senhor esperava mais agilidade?

Eu fui à Câmara, fiz uma exposição da situação financeira do Município, disse que aquelas secretarias e empresas que estavam sendo extintas, o município não tinha condições de manter, e muitas delas eram supérfluas, nós precisávamos diminuir o tamanho da prefeitura e, mesmo assim, foi muita dificuldade. Isso para eliminar 212 cargos comissionados e funções gratificadas. O projeto elimina quatro secretarias e a Alimentar, que é uma autarquia. Aí, você tirou carros, aluguel, manutenção, celulares e assim por diante. Acredito que, com essa sanção, a economia será da ordem de 10 milhões de reais, ao ano.

Essa sanção deve sair quando?

O que foi aprovado na Câmara está sendo examinado pela procuradoria [Geral do Município] e, dentro de 15 dias, eu sanciono com alguns vetos.

Existe uma emenda que mantém a Secretaria da Mulher. Haverá veto a essa emenda?

Eu queria que a Secretaria da Mulher se transformasse em um departamento, mas eu tive que voltar atrás, não convencido mas voltei atrás, porque na Câmara houve uma unanimidade pela manutenção dessa secretaria. E, como diz o ditado: “em alguns momentos, para se conseguir atravessar uma boiada é preciso abrir mão de um boi”. Agora, essa secretaria funcionará dentro da Secretaria de Assistência Social, então não terá estrutura própria, portanto, não terá aluguel de casa, não ter custeio, carros alugados, mas funcionará em um lugar decente, com as condições para que se faça um bom trabalho.

E a parte do reajuste dos comissionados?

Foi aprovado, mas não dará para implantar em agosto. Nós vamos implantar o aumento para os comissionados no mês de setembro.

E esses vetos, o senhor pode adiantar algo?

Está sendo examinado. Não posso me posicionar ainda. A procuradoria, o Planejamento e a Controladoria estão examinando para me levar o que foi aprovado e o que eles acrescentaram.

Voltando à saúde, o que está emperrando na conclusão da Leide Morais?

A Leide Morais teve um erro de construção. Veja bem, os ares-condicionados que eram para ficar na lateral do prédio foram colocados em cima da laje e a estrutura não estava preparada para isso e, com o tempo, houve uma infiltração que não foi corrigida à tempo e, quando assumi estava um queijo suíço, toda furada. Então, nós fechamos. Vale dizer que fizemos duas licitações, que deram desertas. A terceira licitação é que apareceu uma empresa e sua estrutura foi replanejada para que esses ares-condicionados passassem para a lateral do prédio e os que permanecessem ficassem sob uma proteção impermeabilizada para evitar dano. Acredito que até o mês de novembro, finalmente, nós devemos entregar essa maternidade funcionando plenamente.

O senhor falou, antes da entrevista das contas da Prefeitura, que recebeu com débito de meio bilhão. Como está isso?

Quero responder a essa pergunta fazendo esforço para ser bastante elucidativo, bastante claro, fazendo um comparativo da minhas gestões e das gestões que sucedi, que tenho a memória. Toda vez que nós terminávamos um ano o déficit orçamentário da prefeitura – que é aquilo que não pagávamos no exercício e deixávamos para o ano seguinte – ficava em torno de 14 e 16 milhões. Isso foi a minha média e a média da gestão de Wilma a qual tive acesso. Quando nós assumimos a prefeitura em 2013 encontramos um déficit acumulado, em quatro anos, de meio bilhão de reais. Então, eu quero dizer uma coisa: Natal terá que ter muita sorte com seu atual e seus futuros gestores, porque essa dívida não se paga antes de 20 anos. Quando ganhamos a eleição e fomos para a transição e constatamos essa situação, antes de assumir, eu fui ao Tribunal de Justiça, eu fui ao Ministério Público, eu fui ao Tribunal Regional do Trabalho e disse: olhe eu vou assumir a prefeitura, mas se vocês executarem essa dívida não tem cidade. Os tribunais e o ministério público estão muito pressionados, mas nós só chegamos a essa situação de Natal ter retomado sua autoestima, sua obras, enfim aberto suas escolas, suas unidades de saúde, recuperado suas praças, quadras de esporte, enfrentando seus problemas de gestão porque temos tido até agora a compreensão desses órgãos. E quero renovar aqui, nessa entrevista, um apelo a essas instituições que, antes de executar a prefeitura, é preciso continuar esse diálogo, para que Natal não sofra um colapso. Mas de 1º de janeiro de 2013 até agora não tem salário atraso, ao contrário, tem um calendário de pagamento que a gente divulga todo janeiro; fornecedores em dia; empresas prestadoras de serviço em dia, Cosern, Caern, telefonia, aluguéis, tudo em dia.

E do passado, o que foi pago?

Nós conseguimos pagar inacreditáveis quase 90 milhões de reais, prejudicando a nossa gestão digamos assim. Fora isso,  os 29 milhões de reais que temos que ter para terminar as obras que estavam paralisadas durante quatro anos. De maneira que essa é a situação.

Licitação do lixo é um problema... envolve muitos recursos e está muito monitorada pelos órgãos de controle. O que está sendo feito para que essa situação fique regular?

A Urbana nós encontramos com 56 cargos comissionados. Hoje, a Urbana funciona melhor do que antes – porque está limpando a cidade - com 20 cargos comissionados. Foram eliminados 36 sem fazer falta. E estou com gestores novos, gestores criteriosos, que estão fazendo um excelente trabalho, mas têm encontrado dificuldades de encontrar o preço justo, porque não é só fazer a licitação, porque não pode fazer com prejuízo para o erário, porque é pior. Então essa questão é delicada. Nós estamos com os mesmos contratos de antigamente, a cidade está limpa, a coletiva seletiva voltou a 56 bairros (estava em 12) e estamos cuidando de não fazer uma licitação que não seja onerosa ao erário. Não é fácil porque é uma licitação de 341 milhões reais, de um valor muito alto. Hoje, a cidade está limpa com o preço antigo, até com prejuízo, segundo as empresas. Mas vamos fazer a licitação.

O senhor tem uma data limite?

Até dezembro. Agora, a cidade não está com prejuízo por causa desse atraso.

Tem algumas obras que não falamos, o Baldo é uma delas. Porque a demora?

Foi o seguinte: duas licitações desertas. E cada licitação dessa é 45 dias. Chamei o Sinduscon: rapaz vou ter que trazer empresa de fora, dispensar licitação, num processo penoso, difícil, delicado de dizer que não tem empresa em Natal interessada, então eles disseram não e trouxeram uma empresa que está fazendo o serviço. Entregamos em dezembro. Na semana passada, na reunião das obras a empresa me disse que inadiavelmente me entrega em dezembro. Natal e ano novo, voltaremos a usar viaduto do Baldo.

E a Copa, o senhor considera que foi positiva a Copa em Natal?

O que posso dizer é que, na Copa, a prefeitura de Natal fez um péssimo negócio doando terrenos a OAS. Na verdade, a área [da Arena das Dunas] que era da prefeitura foi entregue de mão beijada. Não pediu nada de contrapartida. Foi um presente de Papai Noel a OAS. E não existe papai noel. Um prefeito medianamente antenado teria feito o seguinte: entregaria os dois patrimônios [terrenos do Machadão e do Machadinho], e pediria a contrapartida das obras de mobilidade. Mas, o que aconteceu: tiramos  R$ 70 milhões e, a partir de agosto de 2015 e durante seis anos, vamos desembolsar mais de 2 milhões, por mês. Essa situação foi, no mínimo, muito mal negociada. Nós demos um patrimônio da cidade, da população de Natal, sem pedir absolutamente nada, sem negociação para melhoria do patrimônio público.

Prefeito, e o pós-Copa... já existe uma mensuração de qual o resultado para Natal. Os tributos aumentaram como esperado?
Graças a Copa tivemos celeridade na captação de recursos e conclusão das obras de mobilidade. Isso é um ganho importante para a cidade. Na questão econômica, dados da Secretaria de Tributação mostram que houve aumento de 24% na arrecadação de ISS (Imposto Sobre Serviços) no primeiro semestre deste ano. Esse percentual de crescimento é o maior dos últimos oito anos. E a Copa é apontada como principal motivo. Por exemplo: a arrecadação com atividade hoteleira foi 59% maior em junho deste ano, em comparação com junho do ano passado. É um saldo positivo e vai nos ajudar a fechar o ano atingindo a nossa meta de crescimento (10% na arrecadação). Também tem o ganho da divulgação do destino turístico, que esse só as próximas temporadas turísticas irão confirmar.