A omissão que provoca mortes

Publicação: 2018-03-17 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Das 175 crianças, adolescentes e jovens até 21 anos vítimas de mortes violentas em 2017 em Natal, 150 (85,7%) não tinham processos na Justiça. Os dados são do “Relatório de Óbitos de Crianças, Adolescentes e Jovens na Cidade de Natal (RN)”, coletados em cartórios das quatro zonas da cidade pela Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude. Os motivos das mortes são os mais variados: vão desde latrocínios ao tráfico de drogas e brigas de gangues. A conclusão da Justiça, no entanto, aponta que a principal responsável pela morte desses adolescentes é a ausência de políticas públicas adequadas para a juventude que, em muitos casos, poderiam ter reduzido o número mortes violentas na capital potiguar.

Créditos: Magnus NascimentoEm 2017,  maior número de mortes violentas em Natal foi registrado em localidades pobres das zonas oeste e norte da cidadeEm 2017, maior número de mortes violentas em Natal foi registrado em localidades pobres das zonas oeste e norte da cidade

Em 2017, maior número de mortes violentas em Natal foi registrado em localidades pobres das zonas oeste e norte da cidade

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As zonas Norte e Oeste foram as que registraram o maior número óbitos violentos. Foram 64 mortes registradas pelo Cartório de Igapó, e 57 no 5º Ofício de Notas, que cobre a maior parte da zona Leste da cidade. Para o juiz da 3ª Vara da Infância e da Juventude, José Dantas, responsável pela organização do Relatório, os números são alarmantes. “Acho que estamos vivendo uma espécie de caos social. Faltam políticas públicas adequadas para crianças e adolescentes. A questão social e econômica do país também faz com que esses jovens percam a esperança e perspectivas de vida”, afirma o juiz.

A exclusão social e a falta de figuras próximas que sirvam de exemplo aos jovens também contribuem para as estatísticas, de acordo com José Dantas. “Qualquer adolescente precisa de espaços de referência a partir dos quais ele possa se orientar. Esporte, escola, cultura, lazer: tudo isso deve fazer parte desse período da vida. A maioria de nossa juventude, no entanto, não tem acesso a nada disso”, diz. Para ele, na falta de um espaço no qual o adolescente possa encontrar um envolvimento saudável, as alternativas de pertencimento mais comuns encontradas são as torcidas organizadas de futebol, grupos de bairro e, também, as facções criminosas. Grupos que, de acordo com o juiz “em geral, não têm tanto respeito à vida”.

Créditos: Magnus NascimentoJosé Dantas, responsável pelo relatório: tempos de caos socialJosé Dantas, responsável pelo relatório: tempos de caos social

José Dantas, responsável pelo relatório: tempos de caos social

A cooptação de pessoas cada vez mais jovens pelas facções criminosas é uma realidade com a qual as forças policiais já lidam há algum tempo. “Eles se apresentam como uma figura de autoridade para jovens que muitas vezes não tem exemplo para seguir. O traficante é aquele cara que tem o tênis, o celular, o prestígio: tudo aquilo que esses jovens desejam ter, mas não têm em razão de sua própria situação econômica”, afirma o titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marcos Vinícius dos Santos.

Para ele, a questão econômica é um fator de peso. “Nós vemos que há uma combinação de fatores que se complementam. Vivemos uma crise econômica, e esses jovens, principalmente os mais pobres, empobreceram ainda mais. Isso é um terreno fértil para a cooptação pelo tráfico, que se apresenta como uma solução mais fácil para eles terem acesso a tudo aquilo que a juventude, quer atualmente”, explica o delegado.  Nos últimos dois anos, a população brasileira como um todo empobreceu 9,2%, de acordo com o IBGE.

Famílias dos mortos lidam com o vazio e a dor
Se para os especialistas, os números são alarmantes, para as famílias dos jovens que perderam a vida de forma violenta na capital potiguar, o sentimento é de vazio, como relata Sandra* (optamos por preservar o sobrenome) , mãe de Mateus da Silva, morto aos 17 anos, próximo de  casa, na Redinha Nova. “Há dias que fico olhando para o portão e parece que vejo ele entrando e dizendo: 'mainha, bote minha janta, por favor”, relata. 

Créditos: Magnus NascimentoFilho de Sandra saiu para celebrar o Natal e foi assassinadoFilho de Sandra saiu para celebrar o Natal e foi assassinado

Filho de Sandra saiu para celebrar o Natal e foi assassinado

O corpo do adolescente foi encontrado na madrugada de 25 de dezembro – mesma semana em que 70 agentes federais chegaram ao Rio Grande do Norte para realizar o patrulhamento ostensivo e conter a onda de criminalidade que se alastrava pelo RN. “O que era para ser o natal, momento de alegria, se transformou em um pesadelo, que me acompanha todos os dias”, completa a mulher. O policiamento ostensivo, no entanto, não chegou à sua casa: o primeiro contato que teve com a polícia foi durante as investigações da morte do filho.

Dos assassinos de Mateus, não se sabe, e a família prefere assim. “A memória que queremos ter dele é do menino que ajudava em tudo dentro de casa. Que era carinhoso com a gente. Sabemos que ele se envolveu com gente ruim, na escola. Mas nunca trouxe problema pra nós”, completa a mãe. Quando fala do jovem, que tinha planos de se alistar no Exército ao completar 17 anos e 9 meses, a mãe se emociona. “Nunca vamos ver ele mudar de vida como ele tanto queria fazer”.

Para o juiz José Dantas, a falta de perspectivas de vida e sonhos para os jovens é uma das principais causas das mortes. “A verdade é que não há perspectiva de vida. Não há escolarização, não há sonhos. Se você olhar o nível de escolarização deles, verá que muitos sequer chegaram a concluir o Ensino Fundamental“, diz. Para ele, sem ter nada a perder ou ganhar, os jovens também passam a não ter medo nem de matar, nem de morrer. 

Para a família de Guilherme Kelvin Brito, de 16 anos, morto quando voltava de uma partida de futebol em seu bairro, Felipe Camarão no dia 5 de dezembro, o sentimento de perda prevalece até hoje. Atualmente, os únicos que continuam morando na rua onde o jovem foi assassinado são os avós. A mãe, se mudou por não aguentar passar diariamente em frente ao lugar onde viu o corpo sem vida do filho. O avô, Antônio*, de 70 anos, se emociona ao lembrar do neto.

Créditos: Magnus NascimentoAntônio se emociona ao lembrar do neto, morto em dezembroAntônio se emociona ao lembrar do neto, morto em dezembro

Antônio se emociona ao lembrar do neto, morto em dezembro

“Era um menino bom, entende? Nunca se envolveu com droga. Com nada, nada disso. Gostava de coisas que os meninos dessa idade gostam: namorar, jogar bola. O sonho dele era ser jogador de futebol”, relata Antônio. Para ele e o resto da família, a morte de Guilherme foi uma surpresa. “Às vezes, quando eles se envolvem com droga, a família já espera que alguma coisa ruim aconteça. Mas ele gostava de estudar. Não tinha nada disso. Ninguém conseguia acreditar no que tinha acontecido”, conta.

O crime de Guilherme também não foi solucionado. Assim como Mateus, o adolescente não tinha registro de infrações. A família chegou a ver o jovem, na rua lateral à de sua casa , que fica em um beco, fugindo de jovens armados. Ao invés de entrar em casa para tentar se esconder, Guilherme correu na direção oposta. “Ele sabia que se corresse pra o beco onde a gente mora, eles poderiam atirar em alguém da família. Aí correu pra longe. Nós ouvimos os tiros daqui. A última coisa que ele fez, na verdade, foi proteger a gente”.