“Onde está a honestidade?”

Publicação: 2018-08-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Padre João Medeiros Filho

Não é raro aparecer em nossas cidades, pessoas exibindo sinais de riqueza ou opulência. De acordo com o grau de suntuosidade, surgem logo questionamentos a respeito de sua origem. Os mais ferinos dizem: “como aconteceu esse milagre”? Os primeiros comentários dão conta de que a renda de tais cidadãos não condiz com o que está sendo ostentado. Houve um tempo, em que se dizia ter sido o felizardo premiado pela loteria. Muitos se lembram do episódio dos Anões do Orçamento (início dos anos 1990), que desviaram mais de cem milhões de reais do Erário Público. Um deputado ganhou fama ao apresentar, na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso Nacional, como justificativa de seu patrimônio, a premiação de cerca de duzentos bilhetes lotéricos. Fica no ar o benefício da dúvida. Há sempre alguém para afirmar: “bem longe de mim dizer que isso vem de uma falcatrua”, mas a pulga fica atrás da orelha... E as maledicências vão tomando fôlego.

Tais milagres e a evidência da sorte benfazeja vão se tornando rotineiros e impregnados na cultura brasileira. E são definidos informalmente em alguns grupos bem-humorados, como sendo um efeito sem causas aparentes. E assim, devido à sua escassez, a honestidade passou a ser vista como exceção e não regra; virtude, quando deveria ser obrigação. E o Brasil prossegue testemunhando acontecimentos novos, envolvendo personagens do cenário público e privado. Estes participam ativamente de grandes negociatas, movimentando propinas de milhões de reais, dólares, contas bancárias no exterior e, de vez em quando, o emprego do instituto da delação premiada.

Essa situação faz lembrar o compositor Noel Rosa, nascido no Rio de Janeiro, em 1910, falecido com apenas 26 anos de idade. Na sua efêmera carreira artística, compôs cerca de duzentas músicas. Uma delas, em parceria com o cantor Francisco Alves, data de 1933 e com o título  “Onde está a honestidade?” Oitenta e cinco anos depois, ela continua atual e vale a pena ser cantada, relida, refletida, pois, quem sabe, ajudará a ter força e esperança para virar a atual página da história desta pátria.

Em 2014, preparando as comemorações dos oitenta anos de falecimento do poeta de Vila Isabel, Luciana Sandroni e Maria Clara Barbosa escreveram Memórias póstumas de Noel Rosa. Antes, o musicólogo Ricardo Cravo Albin catalogou as obras de Noel e, em seu Dicionário da Música Popular Brasileira, legou-nos um verbete sobre o compositor. Este primava pela sua crítica social, ironia e sátira. Os pesquisadores explicam a gênese do pensamento de Noel pelo sofrimento com o suicídio de seu pai, a separação conjugal do poeta e o diagnóstico de sua tuberculose. Foram acontecimentos próximos, que marcaram as músicas dos últimos anos de sua vida.

 “Onde está a honestidade?” demonstra que naquela década já grassava a corrupção, e o povo se revoltava. É óbvio que a desonestidade não existia apenas nessa época, assim como nos dias atuais. A crítica de Noel voltava-se, sem dúvida alguma, para homens públicos, administradores e políticos. O célebre compositor foi mordaz com personagens da sociedade de seu tempo: “Onde está a honestidade? Você tem palacete reluzente... jóias e criados à vontade... sem ter nenhuma herança nem parente. E o povo já pergunta: Onde está a honestidade?” A música mereceu uma análise de Sérgio Cabral – não o político – mas o jornalista, que se não fora o Mal de Alzheimer, talvez fizesse a mesma pergunta ao filho, ex-governante carioca.

O que pensar de uma mentalidade cujos valores fundamentais consistem em ficar rico, poderoso, famoso? Se for assim, a partir daí, tudo é permitido para que eles sejam atingidos. A injustiça, a mentira e a desonestidade passarão a dominar todo um sistema e a sociedade. A Bíblia, entretanto, é pródiga de ensinamentos sobre ser honesto. Pode-se ressaltar o que ensina o apóstolo Paulo em uma de suas epístolas: “Rejeitemos todo procedimento desonesto, feito de astúcias e artimanhas” (2Cor 4, 2). Deve-se destacar o Livro dos Provérbios, especialmente quando alerta: “Os ganhos obtidos desonestamente não podem dar felicidade; mas o viver com justiça e retidão livrará o homem do remorso e da angústia” (Pr 10, 2).


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