A Páscoa: instauração do tempo da misericórdia

Publicação: 2019-04-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo de Natal

Queridos irmãos e irmãs! “Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai” (PAPA FRANCISCO. Bula de convocação para o Ano Santo da Misericórdia Misericordiaevultus, n. 3).

Essas palavras do Papa Francisco, quando convocou o Jubilei da Misericórdia, continuam atuais. E mais ainda, porque vivenciamos, desde domingo passado, o Domingo da Ressurreição, este tempo litúrgico novo, o Tempo Pascal. Se o Tempo da Quaresma significou o tempo de penitencia, de sacrifício, de implorar a misericórdia, o Tempo Pascal tem esse significado: “a Misericórdia se instara para sempre em nossa vida, em nossa história, em nossas comunidades, na nossa casa comum”.

É preciso reconhecer que a misericórdia caminha em todos os momentos da nossa vida. Ela não é um sentimento, mas o modo de Deus agir.A misericórdia (em hebraico “rahamim’): “da raiz rehem, o seio materno; denota o amor da mãe. Do vinculo mais profundo e originário que liga a mãe ao filho, brota uma particular relação para com ele, um amor particular. Esse amor, totalmente gratuito, constitui uma necessidade interior – é uma exigência do coração” (Ney Brasil Pereira. Misericórdia, Amor, Bondade. A Misericórdia que Deus quer. Cadernos Teologia Pública. Ano XII, número 105, volume 12. Instituto HumanitasUnisinos. São Leopoldo, RS: 2015).

Somos chamados a perceber que esse modo de Deus agir é a manifestação por excelência de sua Revelação. O que é a Revelação divina? O Concílio Vaticano II afirma, na Constituição dogmática sobre a Revelação divina, Dei Verbum: “Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef 2,18; 2Pd. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cfr. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele” (n. 2). Isso é a Misericórdia: Deus que nos fala, convive conosco e nos envolve em sua comunhão. E ainda mais: tudo isso acontece de modo livre e gratuito da parte de Deus. O homem não “constrange” Deus a fazê-lo. Deus é Transcendência absoluta, isto é, sua existência não é devida a nada e a ninguém. O homem é pura imanência, existe por causa de Deus, a sua vida é devida ao sopro de Deus em suas narinas (cf. Gn 2,7). Mas, Deus vem ao encontro do homem, e é essa iniciativa divina a que estabelece a relação Deus-homem. O propósito de Deus é que essa relação com o homem seja de harmonia, de comunhão feliz e de realização plena do ser do homem. O pecado torna a realidade do homem complicada e, em muitos casos, desastrosa, mas Deus não se curva diante do pecado, mesmo que ele tenha sido cometido na liberdade da qual o homem gozava desde a sua criação. Assim, Misericórdia é também, cancelamento dessa desarmonia causada pelo pecado, porque Deus quer sempre que o homem esteja em comunhão com Ele.

Nós celebramos a restauração dessa comunhão na Páscoa. Por isso, é bem propício que celebremos no 2º domingo da Páscoa, a Festa da Misericórdia. Mas, não se trata de uma Festa que seja celebrada somente nesse dia. Todo o Tempo Pascal é isso: o tempo da misericórdia se instaurou, pois o Filho de Deus, ressuscitado e vencedor da morte, uniu para sempre a si, a natureza do homem, a sua história e o seu futuro.





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