A paisagem que incendeia o coração

Publicação: 2018-05-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A cantora Terezinha de Jesus saiu cedo de Natal. Tinha por volta dos 21 anos quando partiu rumo ao Rio de Janeiro para morar com uma irmã mais velha. Foi na capital carioca que ela encontrou uma galera da pesada – Paulinho da Viola, Fagner, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Moraes Moreira – e por incentivo dessa turma entrou de cabeça na música. Entre os anos 1979 e 1983 lançou cinco LPs e explodiu nacionalmente com o sucesso “Pra incendiar seu coração”, de 1981, cujo álbum foi produzido por Sivuca.

Terezinha de Jesus, Cantora
Terezinha de Jesus, cantora. Aos 21 anos foi para o Rio de Janeiro morar com a irmã mais velha

Nesse período ela rodou o país de Norte a Sul fazendo shows. Como chegava a ficar um mês inteiro na estrada, às vezes batia a saudade da família e de Natal. E quando isso acontecia, ela lembrava na balaustrada da descida para a Praia dos Artistas. “Em Natal sempre morei perto do mar. Peguei o começo da Praia dos Artistas, aquela agitação toda. A vista da balaustrada além da paisagem, sempre me lembrou essa fase também”, diz Terezinha em entrevista a TRIBUNA DO NORTE.

A artista viveu cerca de 20 anos longe de Natal. Retornou a terrinha em 1994 e não saiu mais. Prestes a completar 67 anos, em julho, ela segue vivendo perto do mar, numa residência em Areia Preta. Nesta papo, Terezinha lembra com alegria dos primeiros shows em Natal, quando se apresentava ao lado da irmã Odaíres e do cantor e compositor Mirabô Dantas, antes de ir para o Rio de Janeiro. Lembra também da primeira apresentação em Natal já quando seu nome era conhecido nacionalmente. Outras histórias, como sua amizade com importantes compositores também colorem essa entrevista musical.

O interesse pela música
Cantar foi algo natural pra mim. Nunca procurei. As pessoas ouviam minha voz e diziam que era pra eu cantar. Mas eu venho de uma família musical. Quando criança, minhas irmãs tinham caderninhos com as letras das músicas para cantar em casa. Isso me influenciou muito. Eu participava do coral da escola também. Minha primeira apresentação foi no Teatro Alberto Maranhão, com minha irmã Odaíres e Mirabô. Eu devia ter uns 19 anos.

Natal nos anos 70
Em Natal eu morava com a família perto da praia, na Ponta do Morcego. Acompanhei toda aquela agitação, a praia ganhando a fama de Praia dos Artistas. Mirabô morava por ali também, costumava receber os artistas de fora, gente como Gonzaguinha. Lembro da Casa da Música Brasileira, ficava na rua por trás do Hotel Reis Magos. Vi muito show bom lá, como Clara Nunes.

Ida para o Rio de Janeiro
Eu fazia faculdade de Serviço Social em Natal, mas vi que não era a minha área. Eu tinha uma irmã morando no Rio, a Graice, então foi tentar a sorte lá. Fiz faculdade de Música. Andar com o pessoal da faculdade e com a turma que morava perto de casa foi me levando a cantar. No prédio da minha irmã morava o jogador Afonsinho. Na rua de trás tinha o Paulinho da Viola. Então tinha um pessoal que se reunia por ali.

Voz marcante
A princípio eu via muito defeito na minha voz. No estúdio eu gostava de gravar várias vezes. Era perfeccionista. Eu achava que não estava afinado. Parei com essa insegurança por causa do Paulinho da Viola. Ela dizia que eu não precisava me preocupar, que a minha voz era afinada, as gravações estavam boas. Se o Paulinho que era cantor, música, sabia muito, tava dizendo, eu não ia discordar, né.

Pra incendiar seu coração
Essa música é do meu terceiro disco. É uma composição do Morais Moreira. Nessa época ele estava no Novos Baianos, a gente ia visitar eles lá no sítio às vezes. Acho que Morais sentiu que a música não dava pros Novos Baianos e me deu pra cantar. Ele sabia que eu vinha de Natal e achou que dava certo um forrozinho na minha voz. Essa música é meu maior sucesso. Mas não foi a canção que a gravadora escolheu para divulgar. O sucesso veio com o público mesmo, que adorou a música e passou a pedir no rádio.

Música nordestina
Eu escutava muita música. Da turma do nordeste eu sempre gostei de Marinês, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro. Adorava o forró dessa época. Uma música que gostei muito de gravar foi “Fulô da Fuloresta”. Foi o Mirabô que encontrou e me sugeriu de gravar. É uma música de Geraldo Nunes e João Silva. Lembro da vez que conheci o João Silva. É um compositor paraibano. Tava velhinho.

Show lotado no TAM
Depois que me tornei conhecida eu vim fazer um show em Natal. Sempre coloquei a cidade na minha agenda. Mas na primeira vez que vim foi incrível. Encontrei amigos, a família. Bateu aquele nervosismo. Mas deu tudo certo. Foi um show lindo. Eu estava lançando meu primeiro disco. A apresentação foi no TAM. O teatro ficou lotado. Ficou gente do lado de fora.

Show na Praia dos Artistas
Eu vinha muito em Natal, fazia show fechado, show em praça, me apresentava no interior. Um vez eu fiz um show aqui na praia, com o palco montado na areia. Tem uma curiosidade com relação a esse show. Lembro que tinha umas frestas no palco e no meio da apresentação notei que tinha um cara lá em baixo me brechando. Antes de eu avisar a produção ele saiu correndo.

Diretas Já no Alecrim
Outro show bonito foi na praça do Relógio, no Alecrim. Foi um show coletivo a favor das Diretas Já. Quem também participou foi Chico Buarque, João do Vale, Fafá de Belém, além dos artistas daqui. Eu fiquei no meio da programação, para abrir os shows nacionais.

Músicas preferidas
Minhas músicas preferidas são “Vento Nordeste”, “Nova Ilusão”, “Cigano”, “Pra esquentar o coração”, claro. Também tem “Toada”, de Juca Filho, adoro essa. Fui a primeira pessoa a gravar. Entrou no meu primeiro disco. Meu repertório sempre foi muito equilibrado. Gostava de lançar gente nova e pegar algumas coisas antigas. Eu que escolhia as músicas.

Retorno a Natal
Sempre que eu tinha show no Norte, na volta eu parava aqui em Natal pra rever a família. Os músicos iam direto pro Rio. Meu retorno definitivo foi em 1994. Já estava difícil gravar, fazer shows. Ao mesmo tempo minha mãe ficou adoentada. Senti necessidade de estar mais perto dela. Vim pra cá e segui com minha carreira, arranjei outros trabalhos. Mas apesar das dificuldades, não deixei de cantar. Me descobrir cantora e vou ser sempre isso.


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