A palavra sonora de Napoleão

Publicação: 2018-09-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Enquanto conversava, Napoleão de Paiva Sousa recitou uns sete poemas – e ele nem gosta de declamar. O poeta, médico e compositor, ilustrou com a narração dos próprios versos algumas das linhas temáticas (amor, sexo, ausência, memória afetiva) do seu mais novo livro, “E por acaso deliro”. Segundo o autor, trata-se de obra polifônica onde se sobressai a multiplicidade de sons, de vários tempos e lugares. O livro, uma coedição dos selos Letras Natalenses e Livros de Papel, será lançado nesta sexta-feira (14), a partir das 18h, no Solar Bela Vista (Cidade Alta), com direto a pocket show de Jubileu Filho e Dudu Galvão.

Poeta, médico e compositor, Napoleão de Paiva Souza  criou em E por acaso deliro uma obra polifônica cujos sons diversos são capturados em vários tempos e lugares
Poeta, médico e compositor, Napoleão de Paiva Souza criou em "E por acaso deliro" uma obra polifônica cujos sons diversos são capturados em vários tempos e lugares

“E por acaso deliro” é o terceiro livro de Napoleão, sucede “Depois contigo” (2006) e  “Apenas chegaram” (1999), e sai com patrocínio da Fundação Capitania das Artes. A obra, que reúne 90 poemas, mostra a versatilidade não só temática do poeta, mas estilística e semântica. Como diz um de seus versos, “busco na palavra a palavra”.

Alguns dos poemas fazem referências a episódios vividos ou presenciados pelo autor, é o caso de “O beijo do poeta”. “É um poema em prosa. Foi inspirado numa amiga que beijou na boca Carlos Drummond de Andrade, a estátua que fica na praia de Copacabana, não o poeta”, conta Napoleão.

Outro episódio que também rendeu poema diz respeito ao escritor chileno Roberto Bolaño, o qual Napoleão é leitor voraz. “Eu estava passando um tempo em Barcelona quando Bolaño foi internado. Ele precisava de um transplante de fígado urgente. E andando pelas ruas de Barcelona vi pessoas picharem muros com 'Un hígado a Bolaño'. Foi uma lembrança que ficou na minha cabeça por um tempo até que rendeu um poema”, conta o potiguar.

Além de Drummond e Bolaño, Napoleão presta homenagens a muitos outros artistas, como Nina Sinome, Keith Richards, Jimi Hendrix (dedicado a Volonté), Darci Ribeiro, Sebastião Salgado, Cláudia Ohana (com menção ao cajueiro de Pirangi) e Dorian Gray Caldas.

Nascido em Alexandria, interior do RN, Napoleão foi bastante ativo na cena cultural natalense de 1968, tendo participado como compositor de festivais de música pelo Nordeste, inclusive faturando prêmios. “Nessa época eu estava na faculdade de Medicina. Tinha um colega de curso, o Ivanildo Cortez de Souza, que era músico. Comecei a compor com ele. Participamos de festivais aqui, em Recife, em Salvador”, lembra.

Uma das canções que rendeu prêmio para a dupla foi Homo Sapiens. “Foi uma música bem experimental, com influências do tropicalismo, especialmente do maestro Rogério Duprat. O Ivanildo sabia muito de música, soube passar direitinho como seria o som. A banda base era Impacto Cinco. A apresentação foi no Palácio dos Esportes. Metade da plateia aplaudiu. A outra metade ficou sem entender”, recorda o potiguar. “Naquela época havia um encontro de várias coisas. Se vivia um período de perseguição, tenso, e o povo encontrava na música e na poesia uma válvula de escape”.

Para o poeta, fazer poesia e música são coisas completamente diferentes. “Foi a música que me levou à poesia. Mas nos meus poemas tiro muito a musicalidade”, diz. No entanto, pelo menos no poema “Maracatu”, do livro atual, ele mostra um pouco do seu lado musical. Já em “Tambor”, por exemplo, o ritmo é apenas uma palavra que se lê num dos versos.

Entre as referências poéticas de Napoleão estão Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto. E é com alusão a eles que o poeta potiguar explica um pouco de como funciona sua criação poética. “Penso como Graciliano Ramos, quando diz que se deve escrever da mesma forma que as lavadeiras de Alagoas. Elas lavam a roupa suja, molham, voltam a lavar, torcem e e ai sim estendem no varal. Só assim se tem a palavra. E como diz João Cabral, não precisa perfumar a flor, nem poetizar o poema”, explica. “A poesia, no âmago dela, já tem uma forte carga de verdade”.

Serviço
Lançamento do livro “E por acaso deliro”, de Napoleão de Paiva Sousa

Dia 14 de setembro, às 18h

Solar Bela Vista (Rua São Tomé 388, Cidade Alta). Preço do livro: R$ 40



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