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A percepção e a vida
Publicado: 00:00:00 - 15/05/2022 Atualizado: 16:43:48 - 14/05/2022
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Tudo está dentro de nós. A percepção da beleza e dos encantamentos da vida promove germinação sem fim dos mais puros, incontidos, indestrutíveis e transcendentes sentimentos. Há na condição humana junção, amálgama e simbiose entre o ver e o querer, o desejar e o fazer, o sonhar e o buscar, o nascer e o renascer. Numa das mais belas e comoventes passagens da vida de Jesus (descrita, além dos Evangelhos, entre outros, por Daniel-Rops, Renan, Shollem Asch, François Mauriac, Perez de Urbel, Emil Ludwig, Jean Guitton, Marjorie Holmes e Plínio Salgado), a conversa do Mestre com Nicodemus revela a dimensão e o significado do renascer da humanidade a cada instante, em cada passo do viver. Suscita e enseja permanente e interminável ascensão espiritual, moral, ética e cultural. A dimensão, a singeleza e o fascínio da vida estão em manifestações que nos cercam. Envolvem-nos no cotidiano, sem que delas captemos, sequer, seu sentido, peso e contribuição para o nosso estado de espírito. Chateaubriand entendeu tudo isso ao dizer que os homens deveriam interiorizar as belezas naturais, como a exuberância da vegetação, a multiplicidade do colorido nas flores e nas rosas, a placidez dos rios, a sensação de infinito nos céus, mares e oceanos. Também o cantar dos pássaros, a monumentalidade das planícies, das pradarias e das estepes, o uivar dos ventos, a majestade das montanhas, os enigmas e as veredas das florestas, a tonitruância das chuvas, mas, acima de tudo, o irradiar do sorriso e da ternura de uma criança. E – Por que não? - do afago e do olhar de uma mãe acalentando o filho e da pureza dos que distribuem verdadeiramente amor e fraternidade. Enfim, tudo quanto sedimenta vínculos da vivência dos homens com Deus. Os tempos atuais não são obstáculos, apesar de tudo, a essa inserção dos homens na real substância da vida. Os homens abdicam, renunciam, esquecem e renegam, por ações ou falsas prioridades, o que lhes facultaria compreender a vida. Mas a Luz sempre prevalece.

Não se pode ignorar o inesgotável e imprevisível atributo do homem para tudo captar e entender. Mario Vargas Llosa (Nobel da literatura), em “A verdade das mentiras”, uma série de ensaios sobre fantásticas e geniais ficções no século XX, disse que os romancistas são capazes de capturar as verdades que se ocultam por detrás do funcionamento da sociedade e do recôndito dos corações dos homens. Entre os trinta e cinco ensaios, surpreendeu-me a incursão em “A casa das belas adormecidas”, do japonês Yasunari Kawabata, um livro que evoca sonhos e fantasias tão enleantes quanto “As mil e uma noites”. Com uma diferença: não há ruptura ou antagonismo entre a ficção e a realidade, o pensar e o agir dos personagens ante circunstâncias hoje reais.

Mas há um momento, em qualquer parte do mundo, no Brasil, na China, no Canadá, na Rússia, nos fiordes da Escandinávia, no norte da África, nos picos do Tibet, na placidez de águas represadas em pequenos riachos, cercados de cerejeiras no Japão, nos pampas, na cordilheira dos Andes, na Islândia e nos paradisíacos Mares do Sul, em que o tempo parece parar. Inclusive no Saara. Na Ásia somente no verão. É aquele instante que precede ao entardecer propriamente dito, ou seja, a dissipação da luz do dia e o domínio do manto escuro da noite.  Há uma espécie de sensação de paz, de êxtase, de desprendimento das pessoas em relação aos problemas do mundo. Seria essa ocasião propícia à reflexão e ao despojamento interior? Circunstâncias em que se exorcizam vaidades, ódios, ressentimentos e egoísmos? Tom Wolfe, no realístico e impactante “A fogueira das vaidades”, descreveu o contraponto entre os conflitos dos seus personagens, vaidosos, egoístas, ambiciosos, hipócritas, desumanos, e o entardecer em Manhattam, com sua mensagem, tão nítida e perceptível, de serenidade e paz.

José Lins do Rego e Graciliano Ramos captaram circunstâncias de eternidade no entardecer da caatinga e do agreste nordestinos. A ficção de Jorge Amado ainda está viva em nossa realidade social. Especialmente nas contradições supostamente irremovíveis do Maranhão ao norte de Minas Geais, reveladas intensa, vigorosa e exuberantemente desde Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Josué Montello, Ariano Suassuna, Ana Miranda e outros. Luiz Gonzaga decifrou como ninguém a linguagem regional, universal em harmonia e beleza, que concita a humanidade a entender e a partilhar da Criação. Revela-se ali um desafio: cada pessoa ser Homem, e não decair para a simples condição de indivíduo. Consagrar o universal.  Todos perceberem que a violência aniquila a consciência do bem. Eis por que Thomas Merton disse que nada substitui o silêncio para o homem dialogar com Deus. Sentir o elo de amor entre Ele e a humanidade. Não permitamos a erosão do amor, que é a identidade do homem com Deus. Não esqueçamos que amar é também uma questão de fé e opção de vida. É a perpetuação do sentido da existência humana. A humanidade possui uma razão de ser: desfrutar pelo amor da Criação de Deus. Ascender ao infinito juntamente com o Cristo Jesus, Luz da Luz eternamente.

Não aceitemos o desfecho, como no fim da belíssima canção de Pablo Sorozábal (“Não pode ser”): “Eu gritei a quatro ventos, não soubestes responder, calastes teus sentimentos, tanto tempo te esperei, que já não sei o que sinto”. O homem não pode resignar-se ante a irrupção de violências, guerras e injustiças que se acumulam no mundo. De modo algum. Pois a condição humana só  sente e só percebe para existir. 

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