A peste

Publicação: 2020-03-22 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Não diria Senhor Redator, talvez por pudor, que a peste não deixa grandes lições na história humana e nesta terra que nasceu como um paraíso, desde o Éden ao dilúvio, e até na bela ficção nordestina do País do São Saruê, para ser simples e sem demoras. Mas, ainda há de ferver, de vez em quando, a herança das grandes pestes que se abateram sobre a frágil e pobre humanidade, deste a Peste Negra que devorou cinquenta milhões de vidas na Europa.

De lá, dos anos terríveis de um século velho, até hoje, o mundo tem enfrentado as pestes como avisos do fim do mundo, mesmo que as velhíssimas profecias nunca tenham o condão de convencer o homem na modernidade de cada século novo que veio depois. Se os ratos fizeram a Peste Negra, não foi menor a Peste da Cólera, nas primeiras décadas do século dezoito, depois a Peste da Varíola e da Gripe Espanhola, todas devorando milhares de vida.

Lembro meu sogro, Dr. Omar Lopes Cardoso, farmacêutico nascido em 1902 que, ainda menino, teve a Espanhola e sobreviveu. E mesmo tendo vivido quase noventa anos, nunca deixou de reclamar das sequelas que ficaram para sempre. Herdou o hábito de lavar as mãos várias vezes por dia e de manter uma camada espessa de sal de prata nas paredes internas do filtro para exterminar os micro-organismos antes até de filtrar a própria água.

Depois vieram as pestes menos vorazes, embora a tuberculose, a feroz Peste Branca, tenha dizimado milhares de vidas até que nascesse, sob o olhar de Alexander Fleming, um gênio venerado pelos toureiros que, até antes da descoberta, feridos pelos chifres dos touros, morriam de infecção sem que entendessem a razão. Vieram outras. O tifo, a febre amarela, o sarampo, a malária que mata até hoje, e a Aids, para não omitir esse monstro contra a vida. 

Agora, quando todos já pensavam que o Deus do Mercado é maior que o Deus do Universo, vem a Peste do Coronavírus. A peste chinesa, um vírus coroado, daí o seu nome, com uma singularidade mórbida de parecer uma gripe. Avança no primeiro mundo, esnoba o grande mundo rico, na Europa e nos Estados Unidos, e, sem fronteiras sociais e econômicas, vai matando como se feito de uma diabólica e misteriosa invenção a derramar seu horror.

Eloy de Souza, nas suas memórias, conta que vacinou, quando da Varíola, em Natal, com suas próprias mãos, cerca de oitocentas pessoas. Viu o padre João Maria confessando moribundos e dando a extrema unção. Em um dos encontros, encontrou João Maria acocorado mexendo uma panela, como se estivesse fazendo mingau para os doentes. Aquele que, hoje, com o olhar de bronze, é o santo que reza por nós. Que nos proteja e perdoe nossa soberba.

NEURA - É grande o temor dos que fazem parte do grupo de risco. Já tem clínica particular de vacinação fazendo pré-venda da vacina antigripal e cobrando até R$ 100 reais pela dose.

MAIS - Assim como nos últimos dias tem crescido o interesse dos maiores de setenta anos pela vacina contra pneumonia. Quem pode pagar tem o privilégio: a esperança de sobreviver. 

AVISO - A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras adiou os eventos para evitar qualquer ajuntamento, mas manterá na data a eleição do nome que sucederá o advogado Eider Furtado.

PRELO - Até final do mês fica pronta a nova edição da revista da Academia mesmo sem data para lançamento, em razão do recesso. A edição homenageia 100 anos de Oswaldo Lamartine.
EFEITO - Nos próximos dias, até que dure a restrição de livre circulação, a livraria da UFRN, no Campus Universitário, funcionará até 16h. Solução inócua, mesmo com álcool-gel. 

VÍRUS - De um produtor cultural diante da pandemia do Corona: “Antes ainda tínhamos um festival literário que foi capado. Restou o vírus do festejo transmitido pelo suor do furdunço”.

GESTO - A reserva do hotel da Costeira pra ser transformado emergencialmente em hospital de campanha é o único gesto concreto, até agora, numa hipótese de explosão de infectados.

MEDO - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, lembrado de Ovídio e desafiado: “Hoje já tenho dois casamentos fracassados, desejos frustrados e um grande medo de amar”.

EMBATE - Na cabeça de alguns analistas da esquerda o combate político deste ano será, outra vez, entre a tradição e a chamada nova política. De um lado, os herdeiros dos velhos troncos familiares - Alves, Maia, Marino e Ferreira de Souza. Do outro, os sem fidalguia.

COMO - No PSDB, sob o comando do deputado Ezequiel Ferreira de Souza, presidente da Assembleia, o nome de prefeito Álvaro Dias, de raízes ligadas à tradição seridoense; do outro, alguns nomes saídos das esquerdas e o mais votado disputando o segundo turno em Natal.

PRÉVIA - A campanha de Natal, na visão de alguns observadores da esquerda, pode ser uma prévia do que poderá acontecer em 2022. Quem for o tucano candidato ao governo - Álvaro ou Ezequiel - terá a missão de resgatar o governo das mãos do PT. Numa campanha dura.







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