A Pipa camaleoa de Ormuz

Publicação: 2019-01-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Todo janeiro é a mesma coisa: a família Barbalho/Simonetti estará na Pipa para veranear. Essa é uma tradição que já dura mais de 80 anos e nunca foi quebrada. Começou quando a Pipa era uma pequena vila de pescadores, com pouquíssimas casas de taipa, muita mata virgem ao redor, praticamente um lugar selvagem. E chegar à Pipa era uma aventura que durava um dia, saindo de Goianinha, subindo e descendo dunas – isso de carro de boi, carroça e lombo de jegue. Mas valia à pena a trabalheira. Chegando na Pipa era pra passar o mês de janeiro todinho, em família, com os primos, tendo a natureza todinha para explorar.

Ormuz Simonetti sabe bem o que significa isso. Desde antes de nascer ele já ‘frequentava’ a Pipa, ainda na barriga da mãe. Sua mãe, por sinal, frequentava desde os três anos. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN), autor do livro “A Praia da Pipa do tempo dos meus avós”, Ormuz guarda ótimas lembranças do lugar. Não só guarda como está sempre criando novas, porque ele segue a tradição de passar o janeiro no lugar.

Presidente do Instituto Histórico relembra os verões da família Simonetti, desde meados do século passado, quando Pipa era uma vila de pescadores e chegar lá era vivenciar uma aventura
Presidente do Instituto Histórico relembra os verões da família Simonetti, desde meados do século passado, quando Pipa era uma vila de pescadores e chegar lá era vivenciar uma aventura

Para essa entrevista ele deu uma saidinha rápida de sua morada à beira mar. Veio ver o jardim do instituto, um dos lugares que ele mais gosta, e resolver algumas questões burocráticas. Mas que não demoraria. No dia seguinte já queria amanhecer com a imagem do mar pela janela.

Nesta conversa Ormuz contou da Pipa dos seus avós, da Pipa da sua infância, da Pipa quando ela começou a ser descoberta turisticamente, da Pipa de hoje super badalada. Mas o historiador não se empolga com a badalação do lugar. É capaz de ficar janeiro inteiro se passar na rua principal. Pra ele, o melhor lugar da Pipa é a sua casa. É de onde ele vê tudo, fica perto da natureza e se inspira para escrever. Foi de lá que saíram as páginas do “A Praia da Pipa do tempo dos meus avós”, obra que surgiu da sua preocupação em preservar a memória da praia, desmistificando informações incorretas e narrando lembranças de família, numa sequência de texto ora biográficos, ora historiográficos.

Para Pipa emergir, Tibau precisou afundar

A Pipa nasceu de um desastre. Em 1924 a Lagoa de Guaraira teve uma cheia. Arrebentou a lagoa emendando com o mar. Tibau do Sul ficava às margens da lagoa. Tudo ficou debaixo d'água. As casas, alguns comércios, o cemitério. Meus avós veraneavam em Tibau. O pessoal dos engenhos de Goianinha tudo iam pra lá. Mas perderam as casas com a enchente. Com a destruição, meu avô foi veranear na casa dos compadres na Pipa.

Pipa para poucos

Meus avós foram para Pipa a primeira vez em 1926. Desde aquele tempo o lugar já se chamava Pipa. Porque é a visão de quem está no mar vê. Se vê um uma grande pedra em formato de barril. Então é Pipa no sentido de barril. O lugar era uma comunidade muito pequena, só de pescadores. As casas de taipa, sem sanitário. Minha família alugava dos pescadores. Se ia sempre no mês de janeiro para veranear. Era pouca gente de Goianinha que ia, meia dúzia de famílias. Ficava todo mundo na beira da praia. Não passava ninguém. Se ficava lá até o dia 19 de janeiro, dia de São Sebastião.

Em Pipa desde dentro da barriga da mãe

Janeiro é sagrado minha família ir pra Pipa. Toda a minha vida eu fui. Eu fui a primeira vez na barriga da minha mãe. E minha mãe foi à primeira vez quando tinha três anos, na primeira viagem dos meus avós. Meus filhos também foram a primeira vez na barriga da minha mulher. E meus netos na barriga da minha filha. Todos tomamos banho de mar antes de nascer. A vida inteira a gente tem essa relação com o lugar. Todo janeiro a gente vai pra pipa. Sempre.

Estrada da aventura

Ir pra Pipa era uma aventura no começo. Só tinha estrada para animal. Era de Goianinha até Pipa. No meio do caminho tinha o distrito de Piau. Ia com carro de boi, diligência. De Piau pra Pipa era só vereda, duna. Era um dia todo de viagem. Tinha uma parada no Rio do Gualhardo também. Saia de 4 da manhã de Goianinha. As crianças iam de burro de caçuá. As árvores faziam sombra na estrada. Era uma aventura. Por isso, quando a gente chegava na Pipa não ia embora tão cedo.

Se embrenhar no meio da mata

Veraneava na casa do meu avô materno. Ficava num quarto de janela lateral. Acordava cedo, tirava a trave da janela e ficava vendo o porto dos botes. Era minha primeira visão todo dia. Adorava ficar vendo isso. Menino, passava o dia andando. A gente vivia pra brincar. Vinha os primos de Recife. Praticamente todo mundo da família. Eu visitava todas aquelas matas. Caçava cotia, coelho, rolinha.

Morro dos amores

Antigamente não tinha isso de Praia do Amor. Existia Morro dos Amores. Era um lugar muito bonito e bem restrito, era onde se ia pra namorar. Pode ser que eu tenha sido gerado lá. Eu e muita gente. Botaram o nome de Praia do Amor puxando do Morro dos Amores. Mas tem uma outra explicação também que quando a maré seca forma um coração. Alguém fotografou com essa intenção pra justificar. Essa história acabou pegando.

Praia dos Negros

Mais velho, com 15 anos, a gente fazia uma viagem pela beira da praia até Sibaúma. Naquele tempo Sibaúma só tinha negro. Todas as pessoas. Era uma comunidade quilombola de escravos fugidos dos engenhos. As casas eram de taipa. Eles produziam milho, verduras, mandioca. Vendiam na feira de Canguaretama. Era quase um dia inteiro de caminhada. Ia andando pela beira da praia. Tinha que levar cantil de água senão passava sede.

Inscrições rupestres
Pipa tem 14 praias. Lá na frente tem a Praia das Minas, no limite com Sibaúma. Segundo Hélio Galvão, lá existia inscrições fenícias nas pedras. Com relação a isso tem uma história. Pipa tinha uma igreja de palha. Depois foi feita de alvenaria. Em noite de lua, se ia até as pedras para quebrar de marreta e usar as rochas para fazer o alicerce da Igreja. Não se sabia que eram inscrições rupestres. Já a Praia do Madeiro tem a ver com o tempo do Brasil Colônia. Os franceses descarregavam pau-brasil naquela baia, porque ficavam boiando, ai as naus vinham e carregavam as madeiras.

A chegada dos surfistas e dos gringos

A partir da década de 80 chegaram os surfistas. A maioria da Paraíba. Era os turistas de sacola. A chegada dos gringos é recente. Foi pela gastronomia. Se encantavam pelo lugar e começaram a comprar casa nas ruas de cima. Uma curiosidade é que a Praia da Pipa, a principal, não é frequentada pelo pessoal dos hotéis e resorts. Os turistas ficam na piscina do hotel, aproveitam mais a estrutura. A praia é mais frequentada pelo turista que vai passar só o dia.

Preocupação com os golfinhos

Gostaria que as lanchas não se aproximassem tanto dos golfinhos. Aquilo é um perigo. Uma hélice pegar, como já se viu bicho cortado, com o bico torado. Acho que deveria passar ao largo, dar uma distância. Como o turista quer ver os bichos de perto, o barco vai entrando. Outra coisa é que ele desprende óleo. Todo barco à motor solta óleo.

Lugar para quem quer aprender línguas

Uma vez eu cheguei pra almoçar no Tranquilo. Quem me atendeu eu vi que não era da região. Sou do Rio de Janeiro, disse o garçom. “Me disseram que em Pipa era muito bom para aprender línguas porque tem gente de todo o mundo. Então passo o dia aqui e à noite vou para um restaurante de um chileno, em Sibaúma, onde exercito meu castelhano”. Pra você vê como Pipa é curiosa. Tem essas histórias.

Pipa camaleoa

A Pipa é muito camaleoa. Mas pela natureza, não da parte de cima, da rua. A natureza se modifica a todo instante. Sempre que chego, vejo uma beleza diferente. Como já fui tanto, deveria já estar acostumado ao lugar. Mas sempre muda. Todo dia eu acordo com uma boniteza diferente. O mar quando enche vai até minha casa, bate no gabião que eu fiz.

Pipa perto do mar e longe da rua

Raramente eu subo para andar na rua principal. É muita gente. Não gosto. Me sinto sufocado. Prefiro ficar na minha casa, lá embaixo. Uma vez por outra eu subo pra tomar sorvete na italiana (Preciosa). Nunca fui num show na Pipa. Não vivo a vida noturna. Minha filha vai, curte, gosta do Fest Bossa&Jazz. Eu gosto da parte perto da natureza mesmo. Gosto de aproveitar o dia. Começo a brincar de manhã, tomar cerveja até às sete da noite.


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