A poesia nova:10 mulheres viscerais para o 14 de março

Publicação: 2018-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Lívio Oliveira
Advogado público e escritor

O tempo novo é mesmo das mulheres. São muitos os sinais e exemplos de resistência e de demonstração das alternativas à sociedade atual, plena de equívocos masculinos. Cada passo dado no caminho do empoderamento desse gênero (não mais frágil como antigamente intitulado) representa também a emancipação dos homens, dos machos, pois também se faz perceber melhorias nas fórmulas (até aqui gastas) de harmonização social e de equilíbrio pacífico. Na política é assim, apesar dos golpes. Na poesia, também há de ser. Na poesia, é. Apesar dos golpes.

Quando me deparei com a antologia “Sumidouro” – organizada por Natália Mönt e recentemente lançada em Natal, pelo Sebo Vermelho –, em que dez mulheres “que possuem no punho a vingança do mártir”  unem-se para exibir, mais uma vez, a inegável potência feminina e feminista, percebi imediatamente que ali havia, além de toda a força do discurso, – absolutamente necessário e urgente nos dias atuais – elevada qualidade poética, arte que vale o nome, palavras que ficarão, posto que feitas e refeitas na mente altiva e no corpo que ousa: lábios, hímens, clitóris, seios, ancas, coxas, vísceras, vísceras, vísceras...

Não há nada na obra “Sumidouro” que seja supérfluo. É tudo essência. É tudo perplexidade orgástica e luta. A reunião de Maluz Maheros, Beatriz Larissa, Nayara Xavier, Gessyca Santos, Isabela Helena, Lorrana Torres, Maíra Dal’Maz, Luma Virgínia, Síria Maria e Natália Mönt é um pequeno milagre da verdade poética dessas novas notáveis mulheres, que agora chegam com um vigor artístico merecedor de muita atenção, em face das potenciais realizações coletivas e individuais de que já temos felizes alvíssaras.

Como estamos no entorno dos dias 08 e 14 de março, em que se deve homenagear a mulher e a poesia e os poetas, nada melhor do que um livro desses nas mãos e diante dos olhos deslumbrados, para que possamos reconhecer que a poesia não perdeu a sua nobre rota e o seu digno caminho por estas terras ensolaradas.

É um novo fluxo, quente, muito quente e que jorra forte e rubro. Alguns fragmentos o dizem bem melhor: “a cada velha deusa hospedada em minhas pálpebras/retiro novos significados/refaço meu idioma” (Maluz Maheros); “sou atraso/atalho/e teimosia” (Beatriz Larissa); “Chego em casa/A nódoa entre as pernas denuncia:/renasci em outros sexos” (Nayara Xavier); “nascer mulher é carregar/o nome medo/tatuado no peito” (Gessyca Santos); “Nascer como um homem/Nasce de uma mala” (Isabel Helena); “Faço da distância entre nós apenas fronteira/Quilômetros viram linhas/Norte/Sul/Leste/Mete.” (Lorrana Torres); “desvela-se em maciez,/vê a terra e o monte de Vênus/e contém o fogo dentro:/cratera inflama nua” (Maíra Dal’Maz); “a altura – que tens,/é a que caio no/salto.” (Luma Virgínia); “aproveite a estadia,/coração de poeta pode ser casa/não precisa ser único dia” (Síria Maria); “e por isso danço de cabeça caída/por isso me expulso do meu próprio reino/por isso esses dedos vinho e esses olhos enxofre/talvez você entenda essa minha pressa de revolução.” (Natália Mönt).

De fato e de direito, essas mulheres têm “pressa de revolução”. A poesia também requer urgência nesta nossa época, neste nosso mundo tão estranho. E essas mulheres têm muito o que nos dizer. Muito o que fazer. Certamente, ninguém as calará. Que sorte para todos nós! Sorte por ganharmos agora esse “Sumidouro”, essência de uma realidade em que vale a pena investir: vísceras e alvíssaras!


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