A poesia que Emmanuel Bezerra nos escreveu

Publicação: 2010-04-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Nelson Patriota - Escritor

A Rede Direitos Humanos e Cultura (www.dhnet.org.br) já não cabe no espaço virtual, apenas. Agora também integra o mundo real e, para, isso acaba de inaugurar sua “Coleção Memória das Lutas Populares” com o livro Às gerações futuras – poesias inéditas de Emmanuel Bezerra dos Santos. O “Prefácio” de François Silvestre traz informações de primeira hora sobre o militante político, enquanto Roberto Monte e Aluízio Matias assinam a “Apresentação”, em que fazem breve exposição de motivos sobre os objetivos da coleção. 

Mostrar a dimensão poética de um militante esquerdista que pereceu nas mãos da ditadura em 1973 é também um bom contraponto entre política e arte, na medida em que amplia o perfil do militante, flexibiliza-o e o devolve a nós, seus pósteros, sob uma nova óptica. Mais rica, porque mais complexa.

De fato, somos os pósteros de Emmanuel Bezerra por uma dialética muito particular: porque entendemos que foi a nós, à nossa geração, que ele dedicou o poema que dá nome a seu livro, também póstumo. Todavia, é de supor que outras gerações se sintam chamadas ao espaço convivial do poema, dada a amplitude do seu endereçamento.

Em tonalidade épica, o poema “Às gerações futuras” desvela uma escrita poética embebida de imagens contrastantes, antípodas de um real que o poeta crê transitória, e para isso se “apressa” em neutralizá-lo, contra um amanhã ideal, que ele, poeta, tenta antecipar com sua luta pessoal. Ao transpor o umbral da história, o poema se converte em exemplo e, por fim, se justifica, redimindo seu criador.

O poema abre com um verso emblemático, na medida em que, ao se fazer anunciar na voz presente, o “presentifica”: “Eu vos contemplo / Da face oculta das coisas. / Meus desejos são inconclusos, / Minhas noites sem remorsos”.

O segundo verso é mais contundente: “Eu vos contemplo, / Pelas grades insensíveis”. / Meu sonho, / É uma grande rosa. / Minha poesia, / Luta”. A consciência aguda que o mantém atento ao futuro percorre todo o poema com versos firmes, no melhor estilo “olho no olho”: “Minha força é imbatível / Porque estais / À espera”; “ou: “Meus soldados / Não se rendem. / O outro dia, / Chegará”. E conclui com convicção inabalável: “As grades esmaecem / Ante o meu contemplar”.

Melhor poema de um livro irregular, “Às gerações futuras” se justifica ainda pelo caráter de homenagem, recolhendo poesias de diversas épocas que não puderam esperar por versões mais depuradas e que, normalmente, seu autor faria, se pensasse em lhes dar forma de livro. Se há, por isso, poemas ingênuos e pueris em meio a reflexões e inflexões de boa poesia, é de lamentar que a revisão tenha deixado passar falhas de ortografia e concordância em número excessivo, comparativamente ao exíguo do livro.

Não menos notável é a falta de legenda na única foto que ilustra o livro, e na qual se veem em primeiro planos três adolescentes confraternizando com taças e sorrisos, sendo de supor que Emmanuel Bezerra seja um deles. E os demais, quem seriam? Quando e onde sucedeu o encontro? Finalmente, a versão para o espanhol do poema “Às gerações futuras” está assinada apenas por “Eugênio...”. A falta do sobrenome torna impossível identificar seu verdadeiro autor, prejudicando-o.

Deslizes dessa natureza comprometem uma publicação, independentemente da qualidade do seu conteúdo. E o que é mais importante: podem perfeitamente ser evitados, através de um trabalho de editoração cuidadoso, sobretudo considerando a importância do teor da obra, que não se exaure no presente. É o que esperamos que aconteça com os próximos títulos a serem editados dentro da rubrica “Coleção Memória das Lutas Populares”, assunto que oferece um rico repertório de temas viscerais da nossa história ainda pouco explorados.

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