“Precisamos racionalizar as decisões de consumo”

Publicação: 2016-10-30 00:00:00
Sara Vasconcelos
Repórter

A queda no ganho real e o crescimento das dívidas das famílias se agravam com a retração da economia. Dados da Fecomércio SP mostra que em Natal, 86% das famílias estão endividadas, o que representa  o maior percentual entre as capitais do Nordeste. Se o problema cresce e alimenta a crise financeira, a origem entretanto é anterior. A  professora e coordenadora de MBAs na FGV e consultora de finanças pessoais, Myrian Lund, detecta essa origem na ausência total de educação financeira e no recente período de consumo excessivo estimulado pelo Governo.
Myrian Lund é professora e coordenadora de MBAs na FGV e consultora de finanças pessoais
O processo de “empobrecimento das famílias”, segundo a especialista em finanças pessoais e planejamento, foi impulsionado pelo crédito consignado e estímulo ao consumo, nos últimos anos. “Não é só a recessão. Acontece que o Brasil vem de um período de alto estímulo ao consumo pelo Governo com   o crédito consignado”, frisa. Myrian Lund estará em Natal nesta segunda-feira (31) para o evento de 15 anos da CredSuper, onde dará uma  palestra sobre “Cooperativismo de Crédito: Por que é o menos afetado pelas crises?”. O público será de cooperados, empresários e quem estiver interessado no tema. O local é  o auditório do Instituto Internacional de Física da UFRN. Em entrevista à TN, Myrian Lund fala sobre superendividamento, necessidade de institucionalizar a educação financeira, a tendência com abertura do cooperativismo de crédito e explica como poupar e até investir para equilibrar o orçamento familiar. Eis a entrevista.

O brasileiro tem o hábito de planejar-se financeiramente? Isso  se agrava neste período de retração da economia, há um descontrole maior?
O Brasil nunca teve a educação financeira tratada nas escolas, uma formação para lidar com o dinheiro e houve fatores que agravaram essa situação da falta de planejamento financeiro. Uma delas é a longevidade das pessoas, com os custos elevados de plano de saúde, acompanhamentos de médicos, pessoas e remédios. O custo da velhice é alto, se paga caro no Brasil. O segundo fator é a   incapacidade do INSS, da aposentadoria do Governo estar em mudança e não arcar com as despesas que se tem. E tende a mudar e dificultar ainda mais para fechar as contas. O terceiro ponto é o fato de o país ser globalizado, aberto e com facilidades de fazer compras, presenciais ou pela internet, de viajar, de parcelar. Todas essas mudanças que ocorreram e pela falta de educação financeira, ninguém estava preparado. Houve uma preocupação em dar orientação financeira no âmbito das empresas, com uma educação continuada, mas não das finanças pessoais. Apesar que houve, na vida das pessoas, essa mudança na forma de lidar com o dinheiro, de lidar com a gestão dos recursos. Agora que se percebe um movimento efetivo de educação financeira da população, que chega um tanto tarde.

Esse é um movimento espontâneo? As pessoas estão tomando a iniciativa de buscarem orientação ou é algo governamental?
É um movimento nacional. A Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) reune órgãos oficiais, Banco Central, SVN, Susepe e Previc. Estão todos mobilizados para educar a população do país. Além, de um site - o vidaedinheiro.com - com essa estratégia e diretrizes de como se organizar e lidar com a gestão financeira. Esse é um problema mundial, cada vez se conclui que é preciso que seja de forma continuada, para as pessoas terem esse conhecimento, exercitá-lo e sairem da zona de conforto em busca de seus sonhos.

E chega tarde por que, o endividamento é maior agora?
Na verdade, as pessoas não estão só endividadas! Estão superendividadas, que é a situação em que se compromete o pagamento de despesas essenciais. É esse movimento que nós estamos vivendo agora, as pessoas superendividadas sem conseguir pagar suas despesas pessoais.

Natal, segundo pesquisa da Fecomércio-SP, divulgada na semana passada, é a capital com a maior proporção de famílias endividadas. Quais fatores levam a essa situação? É só por conta da recessão?
Não é só a recessão. Acontece que o Brasil vem de um período de alto estímulo ao consumo pelo Governo com   o crédito consignado, aquilo de contrair dívida e pagar em 96 meses. Essa forçação de barra para que as pessoas consumissem, num contexto em que as pessoas não  têm educação financeira e o Governo estimula o consumo sem ter em paralelo mecanismos de controle, de orientação, tem maior impacto. Isso fez com que as pessoas  se endividassem. Não é culpa só das pessoas. Houve um processo em que houve incentivo para se gastar mais, contrair empréstimos, comprar casas, carros, fizessem financiamentos de longo prazo... E quando começa a recessão, as pessoas começam a perder empregos, o salário não aumenta, as pessoas começam a “pedalar”. Quando você faz um empréstimo, obrigatoriamente você precisa fazer uma planilha para organizar as prestações e saber o que está comprometido da sua renda. E o que você vai reduzir de consumo para pagar essa prestação. Em vez de fazer isso, as pessoas pegam mais empréstimos para pagar aquela prestação e gera uma nova e isso vai só aumentando. Uma rolagem de empréstimos, uma pedalada de pessoas físicas que gerou o caos.

Mas essa disparada do endividamento se deve a esse descompasso das finanças, não sofre influencia de fatores externos como o desemprego, perda do ganho real de salários? O consignado tem um peso maior?
Claro, com a recessão isso agrava pelo desemprego, reajustes ruins de salários, isso tudo afeta ainda mais a população. O empréstimo consignado foi um tiro no pé. Não veio para ajudar as pessoas. Quando foi autorizado, houve um movimento dos bancos atrás das pessoas, porque é garantido para o banco,  comprometendo em 30% do salário já descontado, que você fica preso, não tem como negociar e por um prazo de 96 meses. Isso reduz o padrão de vida pelos anos em que  pegou o consignado. Se a renda é de R$ 10 mil, por exemplo, vai ter que se adaptar a viver com R$ 7 mil. As famílias reduziram o padrão de vida, mas não mudaram os seus hábitos. E muitas pessoas pegaram só pelo estímulo dos juros baixos, não estavam precisando, de fato. E entre os servidores públicos o número de pessoas endividadas desta forma é ainda maior. Sem educação financeira, as decisões são tomadas pela emoção. Precisamos racionalizar as decisões de consumo.

De que forma?
Estimulando a fazer uma planilha financeira e ter ciência de que sua receita tem sempre que ser maior do que a sua despesa. Ensinar as pessoas a gastar baseados nos seus objetivos de vida. Quer comprar uma casa? Então vamos cortar o que não é essencial, o que não contribui para o seu futuro, para você realizar esse objetivo. Saber fazer escolhas.

Que tipos de gastos devem ser priorizados na hora de equilibrar as contas e se adequar a realidade?
Há um erro absurdo. As pessoas costumam atrasar as contas onde os juros são baixos. Aí começa a atrasar condomínio, conta de luz, coisas essenciais. E não tem como, porque você corre o risco de perder o apartamento, dele ir a leilão, de cortar água, a luz. Na hora de selecionar, a regra não deve ser o tamanho dos juros, mas o que é essencial e não vai afetar diretamente sua vida.

Quais as consequências diretas do maior endividamento? O crescimento da inadimplência?
Claro, as pessoas não mudaram os hábitos, mesmo com parte da renda já comprometida e não tem como pagar todos os gastos. E começa a pegar mais empréstimos. Isso eleva a inadimplência também, mas o mais grave é que essa situação toda leva ao empobrecimento das famílias. Sobretudo da população mais pobre, que tinha emergido, e agora já estão com problemas de novo. Porque as pessoas estão tendo que usar suas economias, se desfazer de bens, buscar recursos externos para liquidar dívidas.

Esse cenário de empobrecimento deve permanecer ou a perspectivas de melhoras?
Para essas famílias se restabelecerem e voltar, ainda vão levar um tempo. No caso brasileiro, as pessoas tem a coisa do jeitinho brasileiro, do fazer diferente, de buscar alternativas, de fazer um bico, um extra para complementar a renda. Ser criativo nesses momentos pode ajudar a sair desse cenário.  Mas leva tempo, porque os empréstimos são longos, oito anos, isso prende o consumo.

Além dos “bicos”, há outras formas de organizar as finanças?
Há como buscar recursos de outras formas que não comprometam tanto. Planilha financeira estudar o que se pode fazer, quanto se recebe e quanto se paga, reduzir as despesas para que caiba no orçamento.

E é possível poupar?
É ainda mais importante. À medida em que você reduz as contas é importante você gerar reserva para os casos de emergência. Começar com um mês de salário e ir aumentando. Se não tiver, você corre o risco de ficar pagando juros e cair na ciranda financeira.

Poupança é  ainda o mais indicado?
Não. A poupança tem a vantagem de render a inflação. E tem a desvantagem de se precisar sacar, só terá com o rendimento se for na data de aniversário. O mais indicado é o Tesouro Direto, numa LFT(letra financeira do tesouro) indexada a taxa Selic. Compra esse título a partir de R$ 85 mensal e começa a guardar esse dinheiro.

E em relação a investimentos. Aplicar o dinheiro pode ser uma solução também para gerar essa reserva de emergência? Ou não é momento indicado?
É preciso pensar em investir, juntar dinheiro, aos poucos, fazendo progressivamente as aplicações. Não é incompatível. Para pessoas de rendas mais caixas é o tesouro direto, além de LCI e LCA, que rendem mais que a poupança.

A sua palestra, amanhã (31), a senhora aborda o Cooperativismo de Crédito. Por que este modelo é menos afetado pelas crises?
As cooperativas vêm crescendo mais que os bancos em termos de depósitos, empréstimos, contas correntes. Recorde em todos os índices  e que oferecer os mesmos serviços, fiscalizado pelo Canco Central, com o diferencial do cooperado ser dono e cliente. Tem uma conta capital que vai rendendo, te pagando juros ao capital. E você pode resgatar essa conta. Se tiver sobra no final do ano, ela é rateado com todos. Os custos são bem menores. As taxas de juros são mais baixas para financiamento, porque olha o cooperado. As cooperativas estão imunes as crises porque não estão alavancadas em bancos, só empresta dinheiro próprio. E as cooperativas agora estão sendo estimuladas pelo banco central para se profissionalizar e ser  aberta a qualquer público.

FICHA TÉCNICA
Nome: Myrian Lund
Idade: 58 anos
Formação: Administração com especialização em finanças pela FGV
Por onde passou: É professora e coordenadora de MBAs na Fundação Getúlio Vargas, planejadora financeira pessoal e familiar dando consultorias e palestras em educação financeira, antes atuou 20 anos no mercado financeiro.