Economia
"É preciso investir no humano", diz Antônio Leite Jales
Publicado: 00:00:00 - 09/01/2022 Atualizado: 16:33:04 - 08/01/2022
Cláudio Oliveira
Repórter
Apesar da crise que a pandemia da Covid-19 provocou em diversos setores da economia, a indústria de alimentos permanece aquecida e, no Rio Grande do Norte, um dos cases é a indústria de sorvetes potiguar Ster Bom que, desde que começou a operar em 1991 tem registrado ano a ano crescimento a passos largos. Mas, por trás das cinco unidades do grupo em Assu, Macaíba e Parnamirim e das 26 lojas próprias no varejo, fornecendo diversos produtos — como sorvetes, picolés, água e gelo mineral, polpa de fruta, cobertura, casquinho para sorvete e canudos wafers — para sorveterias também de outros estados, existe um empreendedor de visão que continua apostando no potencial do Rio Grande do Norte. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o empresário e fundador da empresa, Antônio Leite (Toinho da Ster Bom), detalha como  enfrenta a crise durante a pandemia valorizando o que acredita ser essencial para o sucesso da empresa: os funcionários. Além disso, mostra a dificuldade da falta de profissional capacitado no setor alimentício, mas explica o porquê considera que o Rio Grande do Norte tem um ambiente de negócios favorável para a atração de novas indústrias, a partir de experiências que ele próprio tem desenvolvido para otimizar os negócios do grupo.

Cedida


Como a Ster Bom conseguiu operar durante a pandemia?
O segmento que trabalhamos praticamente fechou. As máquinas da casquinha que fabricamos e vendemos para o país todo parou por cerca de quatro meses. Em compensação, houve aumento do sorvete de embalagem de dois litros, já que as famílias ficaram em casa e houve maior consumo. Não deu para cobrir a queda do varejo, da venda nas lojas, mas houve um crescimento, assim como a polpa de frutas e o garrafão de água mineral. Continuamos sem saber como será esse ano com essas variantes da Covid-19 e surtos de gripe aparecendo. Tem dias que fica difícil funcionar com tanta gente gripando. É um cenário complicado, mas a população não para de se alimentar e essa produção não para. Tivemos problemas com falta de material de embalagens, sem falar que teve insumos que dobraram de preço e não temos como repassar ao consumidor porque os salários não aumentaram nessa proporção.

A empresa tem investido em polpas de frutas. Vai aumenta a produção desse produto?
Produção de polpa de frutas não parou na pandemia. É um segmento que vai crescer muito com a transposição do rio São Francisco que vai fazer voltar o Nordestino que ajudou outros estados a crescer. Água é riqueza e temos terra fértil e gente para trabalhar. Meu sonho é fazer a fruta em pó. Sei que tem tecnologia para isso e vou procurar a universidade também. Hoje nós temos investimentos que começaram em 2021 e que vamos concluir em 2022 de R$ 12 milhões.

Então,  a expectativa é de otimismo e crescimento?
Eu acredito que esse momento de turbulência vai passar e queremos fazer o melhor para o consumidor. Temos agora uma câmara fria de 30 metros por 50 metros e 12 metros de altura e vou fazer outra. São dois tubos de congelamento e a câmara fria de estoque. Isso é só para atender o Rio Grande do Norte. Temos o pequeno agricultor para fornecer e que não têm onde vender porque nós não tínhamos onde armazenar. Além disso, podemos mandar frutas daqui para outros estados. Por isso, eu acredito que o mercado de frutas vai alavancar. Compramos um sistema de pasteurização de 5 mil litros hora, uma extrusora para o sorvete no palito. Nesse último aposto muito. Será como se tivesse comendo a fruta no palito, com sabor bem concentrado. É uma maneira da gente diversificar o consumo da fruta.

Qual o aprendizado que a pandemia trouxe para os negócios?
A industria de alimentos não sofreu tanto quanto os outros segmentos, mas a incerteza sobre a pandemia traz insegurança. Ninguém acreditava no que está acontecendo. O aprendizado é que apesar de tudo, capacitar profissionais é uma necessidade, valorizar os colaboradores e dar condições de trabalharem. O pessoal é nosso maior patrimônio. Se perder isso não recupera. A tecnologia chegou. O desemprego é grande, mas a falta de profissional capacitado é ainda maior. Por exemplo, o funcionário que trabalha longe, o tempo gasto para ir pra casa poderia estar estudando, se capacitando. Há onze anos estive na China e vi condomínios de industrias e em volta cheio de prédios onde moravam funcionários, que não precisavam nem pegar metrô para ir para casa. Então, as coisas boas que funcionam a gente precisa copiar. Meu sonho é fazer algo assim por aqui. Tecnologia e máquinas estão aí, mas de que adianta se não tem quem operar? É preciso investir no humano também.

Mas está faltando profissional capacitado para a indústria?
Sofremos com isso. Temos máquinas modernas, treinamos e damos aos funcionários todas as condições porque se perdermos não é fácil recuperar. Foram poucas demissões. Assim que recomeçou contratamos 120 pessoas de imediato. Os técnicos, capacitados não pudemos retirar. Temos máquinas com tecnologia da Áustria, de pasteurização da Dinamarca e não é todo mundo que tem condições de operar. Nosso estado tem poucas indústrias e fica mais difícil ter pessoal capacitado. Nossa parceria com o CTGás tem nos ajudado muito nisso.

A inflação com aumento dos insumos, combustível e energia têm afetado diretamente a empresa? 
Temos um grande custo de energia, mas aqui há oito anos instalamos um parque solar com 0,5 MW (megawatt) e agora estamos com 1,5 MW  instalado e isso tem nos ajudado. Queremos ficar autossuficientes em 2022 em energia. A economia com isso está nos ajudando a passar por essa turbulência ou seria pior. Nossa conta chegaria a R$ 700 mil por mês em todo o grupo. Mas estamos com uma economia de mais de R$ 300 mil. Isso serve para equilibrar as contas.

Além disso, o que mais tem feito para reduzir custos?
Estou procurando trazer fornecedores da empresa para o estado. Já compramos embalagens de Mossoró, rótulos serão feitos em empresa de Natal, a embalagem plástica também. Então, nosso esforço é para que tudo o que a Ster Bom consumir, ser comprado aqui no estado. Assim, o dinheiro circula no estado, não vamos exportar empregos e nem impostos.

Como o senhor tem conseguido atrair esses fornecedores para produzir aqui?
O Governo do Estado tem um excelente programa, o Proedi (Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Econômico do RN). Além disso, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado tem feito excelente trabalho disponibilizando terrenos que estavam desocupados aqui perto e convidando indústrias a se instalarem. O Rio Grande do Norte está muito aberto a isso e vejo que, por essas condições, não há estado melhor para se investir no Nordeste. Se você tem o projeto, o Governo do Estado dá incentivo fiscal, doa o terreno, tem crédito do Banco do Nordeste e tem o mercado. Se tem indústria aqui comprando tudo de fora, pode trazer pra cá quem produz o que a industria compra.

Então o ambiente de negócios no Rio Grande do Norte está favorável para empreender no setor?
O ambiente de negócios é favorável. A prova é que aqui mesmo eu vendo casquinho para o Brasil todo, para multinacionais. Isso porque eu comprava o casquinho fora e senti dificuldade porque quebrava muito e eu tinha prejuízo. Resolvi produzir e hoje vendo para o Brasil todo.

Então porque a gente não vê mais indústrias se instalando no estado?
Temos outros estados vizinhos competitivos. Mas aqui também tem facilidades e é por isso que prefiro ficar aqui. Talvez a gente foque muito em Natal, no turismo, e não atente que turista e a população também se alimenta. Tenho certeza que nos próximos dois, três anos, muitas industrias vão se instalar aqui. Muitas industrias daqui compram de fora e pode comprar daqui se vierem empresas produzirem esses insumos aqui.

O que o senhor espera de um ano onde o desafio de enfrentar a crise econômica também coincide com novas eleições presidenciais?
Os políticos, judiciário, precisam entender que estamos todos em um barco só e tem por obrigação preparar o futuro para nossos filhos e netos. Então o que eu espero é que lutem juntos por um futuro melhor.

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