“Prevenção é o melhor tratamento para a coluna”

Publicação: 2017-12-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

“Toda cirurgia deveria ser o menos invasiva possível” - foi com essas palavras que o médico cirurgião Marco Moscatelli recebeu a equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE. Radicado em Natal, o médico de origem paulistana é um dos 18 cirurgiões no mundo inteiro que integram o seleto grupo “Riwo Spine”, criado para difundir técnicas de videoendoscopia de coluna, um método de cirurgia minimamente invasivo que, apesar de ter sido criado em 1990 por cirurgiões da Alemanha e Estados Unidos, apenas em 2009 chegou ao Brasil.
Médico paulista, radicado em Natal, é um dos 18 cirurgiões no mundo inteiro que integram  grupo de difusão da técnicas de videoendoscopia de coluna
Médico paulista, radicado em Natal, é um dos 18 cirurgiões no mundo inteiro que integram  grupo de difusão da técnicas de videoendoscopia de coluna

O procedimento, que permite que cirurgias como hérnia de disco, que antes eram feitas com incisões de 10 centímetros sejam realizadas com incisões mínimas, de 7 milímetros, e monitoradas por vídeo, ainda não é popular no Brasil. No Rio Grande do Norte, cerca de 300 procedimentos já foram realizados pelo médico. O volume, no entanto, ainda é pequeno em função do elevado custo da técnica de cirurgia, que demanda equipamentos importados para ser realizada. “O objetivo é que, no futuro, todas as cirurgias sejam minimamente invasivas”, explica Marco Moscatelli.

Confira, na íntegra, entrevista com o cirurgião:

O senhor faz parte de um grupo muito seleto de cirurgiões de coluna que realizam métodos não invasivos. No que consiste essa técnica?

A técnica foi desenvolvida em 1990, em uma parceria entre Alemanha e Estados Unidos. Essa técnica minimamente invasiva, que seria a videoendoscopia de coluna, ou cirurgia endoscópica da coluna. Apesar de ter sido desenvolvida em 1990, ela só chegou ao Brasil em 2009, com o meu ex-chefe de residência, o Roth Vargas. Eu acompanhei essa técnica desde a sua chegada no Brasil, e esse ano fui convidado para participar desse grupo internacional, o Riwo Spine, que é composto por 18 cirurgiões no mundo que utilizam essa técnica. A função do grupo é basicamente ministrar cursos, palestras, publicar artigos... Difundir pelo mundo a técnica minimamente invasiva. Conhecimento na mão de um só é burrice. Precisamos difundir esse conhecimento para o maior número de pessoas possível.

Essa técnica pode ser aplicada apenas em adultos, ou também em crianças? Sua recuperação é mais rápida que o método tradicional?

Ela serve na verdade para vários tipos de problemas de coluna, mas geralmente é aplicada em adultos. Ela até pode ser feita em crianças, mas crianças geralmente não possuem tantos problemas na coluna. Quando tem, as cirurgias necessárias geralmente são para correção de alguma deformidade. Essa técnica serve para tratamento de hérnia de disco, cisto facetário, artrose, estenose de canal, biópsias... Várias outras patologias em si.

A recuperação, por sua vez, é muito mais rápida. Eu opero esse paciente e cerca de 3 ou 4 horas depois do procedimento ele já volta para casa andando. Dependendo do trabalho dele, com menos de uma semana ele já está retornando ao trabalho.

E os equipamentos para a realização dos procedimentos são encontrados com facilidade no Brasil? Como estamos em termos de cirurgias de coluna em relação ao resto do mundo?

Nós temos no Brasil um “gap”, um espaço entre a tecnologia desenvolvida no mundo e a tecnologia que chega ao Brasil. Como eu te falei, em 1990 essa técnica foi inventada, mas no Brasil ela só chegou 19 anos depois – mas chegou. Hoje nós temos todo material que todo mundo usa, e nós o utilizamos aqui no Rio Grande do Norte, não perdemos em nada mais para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte...

A cirurgia de coluna ainda é algo que causa muito medo nas pessoas. Muitos inclusive fogem dos exames, mesmo com dores, para evitar uma possível cirurgia. Como o senhor encara essa questão? A cirurgia minimamente invasiva muda um pouco isso?

Todo procedimento deveria ser minimamente invasivo, o menos invasivo possível. Isso não significa que não vai ter cortes, que os cortes vão ser pequenos. Mas a lesão que você causa no paciente tem que ser a menor possível. Antigamente, uma cirurgia de hérnia de disco era feita com 10 centímetros, hoje em dia eu consigo realizar esse mesmo procedimento com 7 milímetros, ou seja, nós diminuímos mais de 11, 10 vezes o tamanho da incisão. Nós não cortamos mais a musculatura para fazer esse tipo de procedimento.

O medo que o paciente tem reduz quando você explica o procedimento para ele. A perda sanguínea é muito menor – não há perda, praticamente. Além disso, não há infecções, já realizei cerca de 300 casos no Rio Grande do Norte e nenhum deles apresentou qualquer registro de infecção. Além disso, o risco de lesão é muito menor porque você está vendo diretamente pela câmera a cirurgia...

O valor desse método é muito diferente dos valores dos métodos convencionais?

Sim, esse é o grande problema que enfrentamos no Brasil. Como o procedimento chegou tarde, ele chega caro perante os impostos que são cobrados pelos equipamentos necessários. Tem problemas com importações, com taxas, impostos, cobranças de convênio, cobranças de tudo... Isso torna o procedimento mais caro do que deveria ser, ou seja, ele é sim muito mais caro que o método convencional. No método convencional para a hérnia de disco, por exemplo, nós não utilizamos material nenhum. Mas para a endoscopia nós utilizamos o endoscópio, o material para a coagulação, que é o eletrodo bipolar dirigível, nós temos vários outros equipamentos – bombas de infusão... Isso encarece a cirurgia.
Paralelamente, se você for comparar o valor gasto com o procedimento e o valor economizado socioeconomicamente no futuro, vale muito a pena. O paciente volta logo a trabalhar, começa a ganhar dinheiro novamente, não precisa de tanta medicação, não precisa ficar tanto tempo afastado pelo INSS gastando mais dinheiro... O custo benefício no final das contas mostra que é mais barato você operar por vídeo do que aberto.

Essa cirurgia já está disponível pelo SUS?

Ela não está disponível pela tabela do SUS, porém com esse grupo, o Riwo Spine, nós conseguimos doações de materiais para realizar o procedimento no SUS. Até o momento, nós já conseguimos realizar mais de 50 cirurgias através do SUS, mas foi por iniciativa nossa, que conseguimos as doações dos equipamentos para fazer com que esse procedimento fosse acessível à outras pessoas, principalmente porque a dor na coluna é algo que acomete a cerca de 80% das pessoas.

O senhor acredita que há fatores em nossa sociedade que estão facilitando ou aumentando essas dores na coluna sentidas por tanta gente?

A dor na coluna sempre existiu, desde a época dos nossos ancestrais. Mas, antigamente as pessoas faziam mais atividades físicas do que hoje. Nós andávamos mais, enquanto hoje em dia nós andamos mais de carro. Também nos exercitávamos mais, porque os trabalhos eram mais braçais, ao passo que atualmente temos mais trabalhos intelectuais, utilizando o computador, passando muito tempo sentados... O sedentarismo é um fator muito grande de dor na coluna lombar. Por outro lado, praticar atividade física sem o devido acompanhamento também pode ser uma causa de dores e lesões. O crossfit, que é a atividade física da moda, por exemplo, se praticada sem o acompanhamento profissional adequado pode ser muito lesivo. Tenho muitos pacientes que lesionaram a coluna por não terem tido o acompanhamento adequado no crossfit, mas isso se aplica também às outras atividades físicas, até o futebol do final de semana.

Além disso, temos as doenças congênitas que já vem com a gente e vão se desenvolvendo ao longo da vida. As coisas mais comuns que atendemos aqui são hérnia de disco, dor nas costas, estenose de canal lombar, que é o fechamento do canal, artrose, fraturas de coluna... Trabalho também com crânio, então vemos também tumores cerebrais, más formações...

E em relação a prevenção? Quais são os principais cuidados que as pessoas devem ter para evitar as dores e problemas na coluna?

A prevenção é o melhor tratamento para doenças na coluna. Se você se previne realizando atividades físicas com acompanhamento devido, evitando a obesidade e cuidando da postura, essas já são grandes ajudas para que o indivíduo possa justamente evitar passar por nossas técnicas. Trabalhar sempre sentado numa postura correta, tentar carregar pesos em uma postura correta... Essas são medidas importantes que podem ser tomadas, e isso vai desde a infância. Há estudos que mostram que crianças que praticam atividades físicas desde os 5 anos, se comparadas com crianças que praticam atividades físicas a partir dos 12 anos de idade, vão desenvolver menos dores na vida do que as que não praticaram atividades físicas. O fortalecimento e a constituição dessa criança são muito importantes para o seu desenvolvimento futuro. Evitar carregar peso demais na mochila da escola também conta bastante.

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