“Produzimos pesquisa científica competitiva”

Publicação: 2014-08-30 00:00:00
Entrevista - Sidarta Ribeiro
Professor da UFRN e atual diretor do Instituto do Cérebro

Nadjara Martins
repórter

“Existe hoje uma massa crítica de neurocientistas no Instituto do Cérebro capaz de produzir pesquisa científica competitiva internacionalmente.” A garantia é de Sidarta Ribeiro, neurocientista, professor e atual diretor do ICe, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Inaugurado oficialmente há três anos, o instituto já possui 104 artigos publicados e um corpo discente formado por 140 membros – entre os quais está o neurobiologista Torsten Wiesel, prêmio Nobel e professor da Universidade de Rockfeller (EUA). Entretanto, os avanços não estão apenas no âmbito científico: em outubro, o ICe pretende abrir as discussões com o setor econômico do estado.
Sidarta Ribeiro, professor da UFRN e atual diretor do Instituto do Cérebro
De acordo com Ribeiro, o instituto receberá, no próximo mês, Luiz Antônio Barreto de Castro, cientista pioneiro em biotecnologia no Brasil, que norteará as interações com as entidades do setor. “Apesar da interação com o setor  produtivo ser ainda bastante incipiente na neurociência, o corpo docente do ICe entende que essa interação é crucial tanto para a UFRN como para o setor produtivo do estado. Estamos abertos a uma maior interação”, apontou Sidarta Ribeiro.

O ICe será um dos expositores da 21ª edição do seminário Motores do Desenvolvimento, que acontece dia 8 de setembro, na sede da Federação da Indústria do RN (Fiern). O tema do evento é “Internacionalização e interiorização: Desafios e Oportunidades”.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o diretor do instituto apresenta um balanço sobre as atividades do ICe; fala sobre o “racha” na neurociência potiguar, em 2011, e apresenta as metas de crescimento. Confira a entrevista:

O ICe começou a ser idealizado em 1995. Quais os principais marcos da história do Instituto?
Em 1998 a primeira versão do projeto foi apresentada a Torsten Wiesel, neurocientista prêmio Nobel que hoje preside o conselho científico do ICe. Em 2001, o projeto concorreu ao edital Institutos do Milênio do CNPq e teve excelente avaliação científica, mas não recebeu recursos.  A partir de 2006, os pesquisadores associados ao projeto começaram a se inserir nos cursos da UFRN. Em 2008, ocorreram os primeiros concursos com divulgação internacional para preenchimento de vagas. Em 2010 foi criado o Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFRN. Em 2011 foi inaugurado o Instituto do Cérebro (ICe) como unidade acadêmica especializada da UFRN.

Atualmente, qual é a estrutura do Instituto?
O Instituto do Cérebro-UFRN abriga 16 laboratórios. Foram recrutados até o momento 17 professores para o Instituto do Cérebro da UFRN, todos com formação e experiência em importantes centros dos EUA, Europa e Austrália. Existem, ainda, sete vagas a serem preenchidas, havendo a previsão de um total de 25 docentes efetivados até 2016. Dispomos de 31 servidores técnico-administrativos, estando prevista a contratação de mais 31 servidores até 2016. O corpo discente do Instituto do Cérebro consiste hoje de 36 alunos de Iniciação Científica, 32 de mestrado e 35 de doutorado e 10 pós-doutorandos. O Instituto do Cérebro conta atualmente com 140 membros, com previsão de 250 membros efetivos em 2015.

De quanto é a produção dos pesquisadores?
O sucesso do projeto se evidencia na produtividade científica alcançada. Desde 2011 publicamos 104 artigos científicos. Existe hoje uma massa crítica de neurocientistas no ICe capaz de produzir pesquisa científica competitiva internacionalmente. Além disso, foram implementados diversos projetos de extensão para crianças e jovens carentes, bem como atividades de formação de professores do ensino público, atingindo 17 projetos aprovados e um público da ordem de 3,5 mil pessoas/ano.

Como o Instituto do Cérebro contribuiu para o processo de internacionalização da UFRN?
O ICe é um ambiente bastante internacional e frequentemente a língua falada é o inglês. Temos recebido e enviado pesquisadores e alunos para universidades nos Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Inglaterra, Argentina e outros países, num fluxo intenso de intercâmbios. Quatro de nossos docentes são estrangeiros e pretendemos no futuro atrair mais estrangeiros.

O Instituto possui vínculos com pesquisadores ou universidades do exterior?
Nossos docentes realizam colaborações internacionais, através de agências de fomento nacionais ou de outros países. Enviamos e recebemos pesquisadores através destas colaborações, oxigenando a pós-graduação e atraindo talentos para Natal. As parcerias mais bem estabelecidas se dão com o Instituto Max Planck (Alemanha), Universidade de Uppsala (Suécia), Universidade Rockefeller (EUA), Universidade de Munique (Alemanha), Universidade de Lyon (França), Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha) e Universidade de Buenos Aires (Argentina).

Em 2011, aconteceu uma separação entre o grupo de pesquisadores da neurociência, criando duas unidades: o Instituto de Neurociências de Natal e o ICe. Hoje, somente o ICe é vinculado à UFRN?
O ICe é vinculado exclusivamente à UFRN, sendo desde 2011 uma unidade acadêmica especializada.
Houve algum prejuízo para a pesquisa científica em neurociência devido à divisão?
Para nosso grupo houve certamente muitas dificuldades, mas também uma inflexão muito importante.

Qual?
Foi uma inflexão de rumo muito difícil, mas necessária e afinal positiva para nosso grupo. As dificuldades foram amplamente divulgadas pela imprensa na época. Hoje temos plena liberdade acadêmica e científica, nosso grupo de professores quase dobrou de tamanho, a pós-graduação vem se desenvolvendo com qualidade e o impacto das publicações é crescente.

Quais são as metas de crescimento do ICe para os próximos anos?
O principal objetivo do ICe é a construção de sua sede definitiva dentro do Campus da UFRN, que reúne as condições adequadas para desenvolver um centro de pesquisa e ensino com a qualidade e os horizontes do ICe. Planejamos continuar nossa trajetória ascendente de publicações de alta qualidade, com impacto científico crescente. Continuaremos a contribuir para a formação de recursos humanos em neurociências do mais alto nível possível, orientando e nutrindo jovens pesquisadores cada vez mais aptos a liderar pesquisas e realizar descobertas relevantes. Também avançaremos mais na realização de conexões com o público em geral, através de atividades de extensão relacionadas à saúde, às inovações relacionadas ao ensino formal e não formal, à divulgação científica e à democratização do saber. E queremos aumentar a aproximação com o setor produtivo, buscando novas interfaces entre a pesquisa básica, a pesquisa aplicada e a indústria.

Como será o projeto do novo prédio do ICe?
Os recursos foram garantidos pelo MEC e se encontram na UFRN. O projeto está em fase de conclusão pela Superintendência de Infra-Estrutura, o edital da licitação está previsto para setembro e o prédio deve estar concluído em 2016. A localização do prédio dentro do campus central é crucial para o projeto, que precisa da proximidade com as engenharias e exatas, hospital, centro de ciências biológicas, instituto internacional de física, metrópole digital e outras unidades.

Como você avalia o vínculo entre a universidade e os setores produtivos aqui no Estado?
Apesar da interação com o setor  produtivo ser ainda bastante incipiente na neurociência, o corpo docente do ICe entende que essa interação é crucial tanto para a UFRN como para o setor produtivo do estado. Estamos abertos a uma maior interação. Nesse sentido, receberemos em outubro o dr. Luiz Antonio Barreto de Castro, um dos pioneiros da biotecnologia no Brasil, para uma visita ao ICe e uma série de discussões com alguns setores da economia do estado.

Quais os benefícios que teríamos com a aproximação entre a neurociência e a indústria, como você citou?
Para a indústria, o principal benefício é o desenvolvimento de produtos e processos de alto valor agregado, criando oportunidades de empreendedorismo em diversas escalas, desde a empresa junior até empresas de grande porte. Para a neurociência, o principal benefício é a alavancagem de projetos de pesquisa básica e/ou aplicada, bem como um fortalecimento do investimento no capital humano, através de bolsas de pesquisa, por exemplo.

Qual a contribuição que a indústria pode trazer para o ensino superior?
Entendo que o maior gargalo para o desenvolvimento do Brasil é o baixo nível educacional em geral. Apenas com uma forte valorização dos professores de ensino fundamental e médio poderemos almejar uma melhoria profunda no ensino superior. Acredito que é preciso federalizar a educação, equiparar os salários do magistério aos salários do ensino superior e promover qualificação e avaliação de alto nível para os professores e alunos. A indústria pode vir a desempenhar um papel valioso nesse processo de revolução educacional no Brasil, através de bolsas, prêmios e parcerias estratégicas com o ambiente acadêmico e o poder público.

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