‘Professores e alunos precisam de treinamento para educação a distância’

Publicação: 2017-08-27 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

O aumento da demanda pela educação superior é uma realidade mundial: da década de 70 até 2007, o número de pessoas no sistema de educação superior no mundo quintuplicou, de acordo com a UNESCO. No Brasil, entre 2003 e 2012, houve o crescimento de 81% no total de matrículas no nível superior no país, atingindo a marca das 7 milhões de pessoas inscritas em instituições de ensino. Estudar, no entanto, é um processo que ainda demanda tempo e dinheiro e, em um país desigual como o Brasil, esses recursos ainda são limitados para grande parte da população, não apenas na graduação, mas para manter-se atualizado e em formação constante, mesmo após terminado o curso.
Créditos: Magnus NascimentoAnne BoylerAnne Boyler

Para tentar suprir essa carência de um ensino superior acessível a uma parte da população que se encontra afastada dos centros universitários, o Ensino à Distância tem-se mostrado uma alternativa, ainda em processo de aperfeiçoamento por parte de educadores e profissionais da área. De 2003 a 2013 o setor já vem mostrado um crescimento significativo, passando de pouco mais de 49 mil matrículas para 1.573.573, apenas na graduação. A educação à distância, possibilitada pela tecnologia, não se restringe, no entanto, à graduação: cursos de especialização e cursos online abertos massivos (MOOC, sigla referente ao termo original em inglês) para aperfeiçoar de forma constante os profissionais também estão cada vez mais presentes no país.
Créditos: Magnus NascimentoGard TitlestadGard Titlestad

Para debater sobre os desafios da educação digital à distância e os avanços mundiais no setor, a francesa Anne Boyler e o norueguês Gard Titlestad estiveram presentes na 1ª Conferência Internacional de Inovação em Tecnologia em Saúde, promovida pelo Laboratório de Inovação e Tecnologia em Saúde (LAIS), da UFRN, referência em desenvolvimento de modelos de educação à distância para especialização em saúde no país. A TRIBUNA DO NORTE conversou com os especialistas sobre o tema, confira a entrevista:

Como vocês enxergam a relação entre o aumento da demanda por educação superior no mundo e o crescimento dos cursos à distância?

GARD: Há grandes lacunas no mundo inteiro que precisam ser sanadas. Muitas pessoas enxergam a educação à distância como uma forma de lucrar em cima de um ensino de baixa qualidade, mas o fato é que não é sob essa perspectiva que estamos aqui para discutir. Ainda há aspectos no planeta muito presentes como a pobreza, a desigualdade, que impedem que muitas pessoas tenham acesso ao ensino superior “convencional”, vamos dizer assim, e o ensino digital se apresenta como uma possibilidade para essas pessoas alcançarem essa educação. Acreditamos que o ensino a distância ainda está longe de ser perfeito, ele possui diversas coisas que precisam ser discutidas e avaliadas, mas todas elas podem ser sanadas através da inovação, da criação e da participação efetiva dos governos, que tem a obrigação de fiscalizar a qualidade do ensino que as instituições de educação superior, sejam públicas ou privadas, estejam oferecendo.

Vocês consideram que a educação à distância, via meios digitais, pode ser efetiva tal qual a educação convencional, em sala de aula? Onde fica a interação humana em meio a esse processo?

ANNE: Acredito que a educação digital possa não apenas ser tão afetiva quanto a educação tradicional, mas até mesmo mais efetiva do que alguns modelos que temos em vigor atualmente em sala de aula. Em relação a “experiência da universidade”, por exemplo, que muitos falam ser fundamental para esse processo de formação, há fatores que precisam ser considerados. Por exemplo, se você mora muito longe da sua universidade, vai ser difícil para você fazer parte da comunidade universitária. Se você tem um trabalho em tempo integral, também vai ser difícil. Então a experiência dessas pessoas ficaria extremamente limitada, inclusive a educacional. Para muitas dessas pessoas, o aprendizado em casa é mais efetivo do que seria em ter que pegar longos trajetos em transportes públicos para assistir a uma aula, chegar exausto em casa e não poder estudar nada, por exemplo.

GARD: Além desses fatores, temos também estudos realizados pelos governos dos Estados Unidos e Canadá, que são os países com o maior número de pessoas inseridas na educação superior, tanto à distância quanto convencional, e esses estudos, que analisam aprovações, notas e desempenho dos alunos, mostram que os alunos da educação à distância vão tão bem, e as vezes até melhor, do que os alunos das instituições convencionais de ensino, no que diz respeito às qualificações. Mas antes é preciso entender que a educação à distância não se resume aos MOOC, que possuem menos interatividade. Envolve sim interação entre alunos e professor, entre os próprios alunos, debates em fóruns, discussões sobre os assuntos abordados, então há sim interação. Não se trata apenas de materiais depositados online para que a pessoa leia por conta própria, há acompanhamento, há feedback, e a inovação está aqui para tentamos desenvolver ainda mais esse processo.

Como funciona o treinamento dos professores e outros profissionais da educação para que eles sejam capazes de dar o suporte necessário a esses alunos?

ANNE: Posso responder isso enquanto professora, com base em minha experiência na França. Inicialmente, quando eu comecei a ensinar, eu também não fui treinada, isso no ensino tradicional. Eu não sabia muito bem o que fazer quando estava face a face com meus alunos e esse processo não foi tão fácil, mas você dá um jeito de lidar com isso. Quando começaram a introduzir a tecnologia nas aulas, enfrentei a mesma situação. Mas com o passar do tempo, foram-se criando serviços nas próprias universidades para oferecer esse apoio a esses professores, sobre o encontro da pedagogia com o meio digital. Então é possível ter uma engenharia pedagógica, para criar suporte, aconselhar e auxiliar neste processo. É preciso ressaltar, no entanto, que não apenas os professores precisam ser treinados, mas também os alunos precisam de treinamento para ter cursos online. Porque nós estamos familiarizados com o uso da tecnologia em nosso dia a dia para fazer coisas como checar nossas mensagens, assistir filmes e séries, e entretenimento de uma forma geral. É preciso educar os alunos para que eles tenham essas aulas e possam de fato tirar proveito disso, assim como os professores. Há uma transformação global ocorrendo sobre como nós educamos e somos educados.

GARD: Várias coisas foram feitas para lidar com essa questão ao redor do mundo, e o que observamos é que ainda existe também alguma resistência por parte de profissionais da educação em relação aos modelos digitais, porque acham que não vão ser levados tão a sério, ou acham que terão sua profissão desvalorizada. Muitas instituições que não tentaram ainda se inserir na educação digital acreditam que o resultado vai ser pior do que eles obteriam em sala de aula, por exemplo. Há muito ceticismo. Mas acredito que os mecanismos para oferecer esse auxílio são desenvolvidos à medida em que vamos explorando mais e mais esse campo. A experiência do LAIS, aqui no Brasil, é fantástica, eles criaram um sistema extremamente interessante de formação permanente para profissionais de saúde, e é muito bem avaliado pelos próprios usuários, o que é muito interessante.

Outro ponto bastante discutido a respeito disso é o próprio controle de qualidade e a avaliação dos serviços de educação à distância, se eles não estariam servindo apenas como fontes de lucro para instituições privadas, sem se preocupar tanto com a qualidade. Como vocês enxergam esse tipo de visão? De quem é a responsabilidade pela qualidade desses cursos?

GARD: Essa é uma pergunta muito importante. É por isso que trabalhamos com qualidade. Essas questões que você levantou estão sendo debatidas mundialmente pelas cúpulas da ONU e da UNESCO. É preciso estabelecer um entendimento comum do que nós gostamos de chamar de “agenda de qualidade”. Nesse caso que você mencionou: universidade pública, universidade privada, quem é responsável pela qualidade da educação que está sendo ofertada, afinal? Nossa resposta é que o governo é responsável. Não sou eu nem você, mas o governo. Ele tem a obrigação de compreender que ou sua educação superior, seja ela pública, privada ou híbrida, tem qualidade, ou você poderá enfrentar questões sérias em seu país. E o que acontece se o governo não assume seu papel? Bom, vamos observar que companhias internacionais estão se saindo bem na atual conjuntura econômica mundial: Facebook, Amazon, Microsoft, Apple, Google... Estudos mostram que a primeira onda de digitalização que criou essas grandes companhias que coletam lucro e tomam controle dos conteúdos através de softwares, elas vão liderar a próxima onda, que é a da inteligência artificial. Então, se o governo não tomar frente nesse processo, o setor privado vai fazer isso, o que é um tópico muito sensível, porque estamos falando de compra e venda de dados pessoais dispostos online, sem qualquer tipo de fiscalização ou controle.