Deputado federal e presidente estadual do PSB
O deputado federal Rafael Motta destaca que o PSB está decidido a ter candidato próprio a prefeito de Natal. Ele afirma primeiro que está à disposição para concorrer nas eleições majoritárias deste ano para, em seguida, descartar compor em uma aliança na qual o Partido Socialista Brasileiro apoiaria outro candidato. “O PSB terá candidato”, avisa. Rafael Motta faz uma avaliação crítica da atual gestão municipal e também do governador, ao apontar que falta um pouco mais de atitude para enfrentar os graves problemas do Estado. Rafael Motta comenta também o episodio que o levou à Presidência estadual do PSB.
Recentemente, o senhor assumiu a presidência do PSB. O que mudou no partido?
Primeiro, houve a filiação. Nossa ideia foi somar no partido. A mudança perceptível que vamos ter será o diálogo. Passar a ter um diálogo maior com as lideranças municipais e estaduais. Trazer para dentro do partido a opinião das pessoas que estão nas bases eleitorais, os vereadores, os prefeitos, as lideranças sem mandato. E fazer do diálogo algo presente e permanente no partido.
Este diálogo estava faltando?
Escutamos dos filiados que, realmente, existia uma ausência de diálogo. Muitas vezes as decisões aconteciam entre os diretórios estadual e de Natal. Basicamente, era isso.
Com a sua entrada no partido e agora na presidência estadual, houve essa discussão sobre a substituição do comando, como se deu isso? A sua entrada presidência, com a saída da ex-governadora Wilma de Faria...
Eu tinha uma insatisfação com meu antigo partido, o PROS. Era presidente estadual e não tinha acesso ao fundo partidário. Muitas vezes esses recursos ficavam gerenciados exclusivamente pelo diretório nacional, que comprou avião, com o fundo partidário, e tinha intenção de adquirir uma mansão no Lago Sul, em Brasília, para ser a sede do partido. Comprou uma produtora de televisão, uma gráfica. Enfim, entre todos os deputados federais era uníssono que não concordávamos com isso. Existia, então, certa insatisfação. A cota d´água ocorreu quando o partido resolveu comprar um helicóptero com dinheiro do fundo partidário, que é proveniente de recursos públicos e devem ser gerenciados com transparência e lucidez. E o presidente do PROS comprou o helicóptero. Na ocasião fiz uma nota pública em repúdio. Não concordo que o fundo partidário seja gasto com esse tipo de bem. O partido acabou me expulsando.
Foi então que procurou outra legenda?
A partir deste momento tive conversas com mais de dez partidos, que viram nosso comportamento na Câmara como atrativo para essas siglas. Tinha uma interação muito forte com o PSB, conversas com o presidente nacional da legenda. Meu comportamento já era de afinidade com o que a liderança indicava nas recomendações de voto e no comportamento à frente das comissões. Estive também com Eduardo Campos em Santa Cruz. Foi uma experiência que me deu gana para acreditar na política e em figuras públicas que podem fazer algo pelo nosso país. Naquele momento estava sem partido e foi convidado para me filiar ao PSB. Havia uma reunião já marcada há meses com membros da executiva nacional e o presidente me convidou para a filiação perante aquelas pessoas, o vice-governador de São Paulo, Márcio França, o senador Renato Casagrande, outros deputados federais. A pedido do próprio presidente naquele momento me filiei. De forma muito humilde busquei as pessoas, eu estava me filiando, entrando nos quadros do PSB para somar.
Chegou a ter uma conversa com Wilma de Faria, com a deputada Márcia Maia, com a então direção local do PSB?
Não teve por falta de oportunidade. Mas busquei diversos contatos com a ex-governadora. Concomitantemente, aconteceu aquele problema de saúde dela, que foi uma infelicidade. Ela esteve em São Paulo. Também foi lá para a entrega do Prêmio Jabuti. Aproveitei para visitá-la. Mas não tive êxito para um contato com ela, nem com Márcia ou uma das outras filhas dela.
O PSB é um partido socialista, tem uma história no país, fundado por Miguel Arraes. Há afinidade ideológica com o partido, o senhor concorda com esses ideias?
Os ideais de esquerda levados à frente por Miguel Arraes são ideologias que não foram de esquerda [radical], amante do socialismo pleno, da captação de bens dos ricos. É mais uma ideia de bem estar social, de viver em uma comunidade com bem estar para todos. Então, a gente defende que as instituições sejam voltadas às pessoas que precisam, que a educação possa ser preservada e tenha oportunidades para todas as pessoas. Não é uma ideologia de extrema esquerda. Eu diria que é de centro-esquerda. Uma esquerda mais moderada.
Com isso o senhor estaria identificado?
Identifico-me. Hoje vivemos em um país no qual os extremos são valorizados. Existe um dicotomia entre ultradireita, conservadora, nos bons costumes, na intolerância social em determinados ramos, e uma ultraesquerda em que tudo que se faz é golpe e se preserva exclusivamente o partido, a cor, o número. Mas o PSB é um partido equilibrado, apesar de ser classificado como socialista. Participa das discussões, sejam elas conservadoras ou de abertura social. Tem discutido equilibradamente o nosso país.
O PSB do Rio Grande do Norte teve as contas rejeitadas no TRE. Como encontrou a legenda do ponto de vista administrativo e financeiro no Estado?
Tivemos uma herança que foi o fundo partidário suspenso. Foi transitado em julgado uma questão que trata da prestação de contas do partido. Por um erro, o diretório vai deixar de receber o fundo partidário por um ano, mas nosso jurídico está tomando conta. Foi a primeira atitude que tomamos, ao levar ao jurídico para tomar as providências. Como não éramos os ordenadores de despesa na época, não assinávamos os documentos, não foi uma falha nossa, foi da gestão passada. Estamos vendo o que se pode solucionar, porque o fundo partidário é importante para se dirigir um partido, para a manutenção e a ampliação da legenda no Estado.
Mas há dívidas?
O secretário anterior quer ter um encontro para passar as informações sobre contratos e pagamentos de dívidas em relação a alguns funcionários. Foi dito que alguns precisam receber, mas estamos vendo agora, não sabemos ainda.
Alguns deputados, vereadores e prefeitos não anunciaram se permanecem ou saem do PSB no RN. Há definições sobre quem fica e quem sai?
Foi dito que haveria uma debandada, mas não está acontecendo. Assim como subestimaram o partido com a morte de Eduardo Campos. Citaram que o partido iria definhar, que não iria crescer mais. Mas só no ano passado tivemos a integração de mais três deputados federais: Rafael Motta, Danilo França, do Ceará, e João Henrique Caldas, de Alagoas. São novas lideranças, jovens. Assim vai ser também no Rio Grande do Norte. Não sentimos uma debandada. A ex-governadora tomou uma atitude extemporânea de sair do partido, porque estava sendo construído um diálogo. É natural que lideranças ligadas a ela, sigam esse caminho, assim como foi sua filha e algumas que votam em ambas. Mas tanto na Assembleia como na Câmara Municipal não tenho sentido desta forma, tenho buscado o diálogo com todos. Com o deputado Tomba, já estamos com conversando e com diversos prefeitos e vereadores, com o presidente da Câmara Municipal o vereador Franklin Capistrano, um decano daquela Casa. Com a vereadora Júlia Arruda, também estamos buscando um diálogo permanente. E com Júlio Protásio, com quem já estamos com conversação.
A ex-governadora divulgou uma nota na ocasião do rompimento com um tom firme, crítico ao partido e a quem estava se filiando, no caso o senhor. Com viu aquelas críticas, apontando que essas adesões não tinham valor programático?
Não me senti atingido com a nota da ex-governadora e não comento esse tipo de situação.
Há possibilidade de diálogo com esse grupo?
Mas teve diálogo, tanto que o presidente nacional do partido, ao atender a um convite da própria ex-governadora esteve aqui para conversar. E conversou com a ex-governadora, com a deputada Márcia, com o grupo da ex-deputada Sandra Rosado, com lideranças do interior para estreitar esse diálogo. Mas a ex-governadora tomou uma atitude que foi precipitada.
Ao assumir a presidência do PSB, diria que recebeu uma “herança maldita”, por causa da suspensão do fundo partidário e das dívidas?
Não, diria que houve um descuido. Não foi uma herança maldita. Houve um descuido que desencadeou em uma penalidade séria e grave para o partido, mas isso está sendo sanado.
No aspecto político, vai ser difícil superar o rompimento de um grupo que tinha uma história no PSB?
O nosso perfil é de diálogo, de agregar, então, quem nos conhece sabe que as atitudes que fazemos é para um novo momento, de uma liderança jovem que tem perspectiva de fazer um partido grande. O PSB volta a crescer, o partido que já contou com dois deputados federais, governador, e agora conta com um deputado federal, com uma bandada na Câmara de Natal forte, com a possibilidade de passar para três deputados estaduais... Estamos trabalhando para isso.
O deputado Ricardo Motta é um nome certo no PSB?
Com certeza.