‘PSDB e PT têm desafios para construir um discurso em 2018’

Publicação: 2017-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Entrevista com Alberto Carlos Almeida, cientista político

O PSDB tomou a decisão de continuar apoiando o governo. Isso prejudica a ainda mais a imagem do partido? Vai criar entraves para que os tucanos sejam alternativa competitiva nas eleições do próximo ano?

Não faz sentido julgar moralmente a decisão de um partido. Tem que avaliar politicamente. É curioso este debate no PSDB. Certamente, há essa discussão, porque alguns deputados e senadores se sentem pressionados pelo eleitorado, em função do desgaste do governo. Mas se o PSDB foi chave para a saída de Dilma e, consequentemente, um partido central para o apoio do atual governo, inclusive cedendo quadros formuladores, como vai sair agora? Não faz o menor sentido. Política é feita por quem tem lado. O PSDB estava de um lado, contra o governo de Dilma. Vem outro governo que é oposto, com compromisso de fazer o que o PSDB concorda, e o partido apoia. Agora vai sair para quê? Se aliar ao PT em oposição ao Temer? Não faria sentido. O PSDB não tem para onde ir. A discussão tem mais relação com pressão da mídia, de determinados formadores de opinião próximos ao PSDB que fazem exclusivamente julgamentos morais. Mas avaliação tem que ser política. Claro, o partido vai ter que pagar o custo de apoiar um governo que tem avaliação muito negativa.

E o PT? Depois do impeachment de Dilma e um governo que terminou desgastado e com avaliações negativas, o partido tem possibilidade de encontrar um rumo?
Muitas vezes há um idealização da política, afirmando que falta um discurso para X, Y ou Z. Os políticos passam a visão de que eles controlam tudo e quem acompanha acha que tudo é controlável. Na verdade, é o inverso. Muitas vezes as coisas não são tão controláveis. O discurso que um partido tem ou passa a ter depende do que acontece no ambiente. Daqui para frente todos os partidos estão em situação difícil por conta da Lava Jato. O PT está muito atingido, até porque Lula é atingido. Por outro lado, o PT se beneficia de estar fora do governo. O desgaste maior da situação econômica, e até de certa forma da Lava Jato, é para quem está no governo. Se pegar as pesquisas do Datafolha, as intenções de voto de Lula mostram que enquanto o PT estava no governo, a figura principal do partido, tinha percentual mais baixo. Quando ele saiu do governo, cresceu. Isso possibilita que o PT encontre um discurso de oposição ao governo.

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Terá que convencer que não teve relação com as dificuldades da economia?
A situação atual, digamos, possibilita que o PT mais adiante encontre o discurso de oposição ao atual governo. Os partidos que estão na base aliada vão ter defender o governo e atacar o PT. O Partido dos Trabalhadores e seus candidatos vão ter de dizer: “Olhe, me tiraram e fizeram isso”. Então, cada um tem sua narrativa e, obviamente, há um espaço aberto e importante para uma terceira via, que vai dizer: “Os dois não servem, um por estar no governo, que vai muito mal; e outro que foi retirado, porque estava indo muito mal”.

O senhor considera viável que finalmente se viabilize uma terceira via até as eleições de 2018?
A dificuldade dessa terceira via é que precisa de uma estrutura. O Brasil não é um país como a França [onde Emmanuel Macron criou um partido e 14 meses depois se elegeu presidente). A França é do tamanho de Minas Gerais, Bahia ou São Paulo [o que facilitaria para uma candidatura alternativa aos partidos tradicionais]. O Brasil é um país continental, com uma população com nível de escolaridade baixa, portanto com uma informação política bem menor que uma França ou uma Itália. No Brasil,  até para a informação chegar, decantar, entrar na cabeça do eleitor, leva um tempo maior. Para que a terceira via se torne viável, precisa de alguma estrutura política em função dessas dimensões continentais para se alcançar os eleitores. E essas estruturas políticas hoje têm o PSDB, o PMDB e o PT. Então, o grande desafio para qualquer nome é encontrar estrutura que dê sustentação à candidatura, com tempo de televisão. Precisa também garantir alguma capilaridade com algum tipo de máquina política fazendo campanha no país. Quando Joaquim Barbosa [ex-ministro do Supremo Tribunal Federal] disse, na semana passada, que pensa em ser candidato a presidente, qual é a dificuldade que ele poderia ter para ser uma terceira via? Primeiro, precisaria melhorar diversos aspectos da retórica. Mas necessitaria sobretudo de uma estrutura partidária mínima.

Haveria esse partido disponível no qual quadro político do país?
O PSB tem uma base e uma capilaridade principalmente no Nordeste,  na Paraíba, em Pernambuco e outros estados. Poderia ser uma estrutura partidária com imagem, tempo de TV e alguma capilaridade. Não muito grande, mas tem alguma capilaridade para abrigar um nome como o de Joaquim Barbosa. Não vejo o PP, o PR o PSD [com essa possibilidade], porque são todos muitos ligados ao atual governo e ao anterior. O PSB seria uma estrutura com imagem e capilaridade melhor do que os outros partidos.

O senhor acha que pode voltar a polarização entre PSDB e PT, com Lula e outro nome tradicional do PSDB, como Geraldo Alckmin?
Existe essa possibilidade em função das características do país que mencionei. Tudo indica que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, será candidato a presidente e se o Lula não for preso ou for considerado inelegível, será o nome do PT [para concorrer na eleição presidencial]. O PT não vai apoiar o Ciro Gomes, porque dividiria o partido.

Nas pesquisas eleitorais deste ano, os nomes do PSDB estão  tendo um desempenho sofrível e o próprio Lula lidera, mas os índices de rejeição mostram que teria dificuldade em um segundo turno e problema para vencer. Há um quadro de indefinição muito acentuado?
Sim, mas é como o Aécio Neves na eleição passada. O candidato pode começar a campanha com índice baixo e crescer.

Mas Lula ainda pode superar os índices de rejeição, principalmente  no Sul e Sudeste, onde há mais resistência ao nome dele e os colégios eleitorais são maiores?
Acho difícil a situação dele, porque pode nem ser candidato até por razões  jurídicas.

E esses nomes alternativos do PSDB — como João Dória, prefeito de São Paulo — têm potencial de crescimento?
Não é que João Dória possa vir a ser ou não. Mas há uma fila. Ele teria de ultrapassar Geraldo Alckmin, quatro vezes governador de São Paulo.

Um candidato com discurso mais radical, como Bolsonaro, que até aparece em segundo lugar nas sondagens mais recentes, tem chances reais de disputa?
Ele precisa de uma estrutura, que não tem, e de uma preparação maior para enfrentar uma campanha eleitoral, que é algo mais complicado e tem relação ver com a imagem pessoal, com a construção e manutenção de uma boa imagem. Não acho que ele tenha esses requisitos agora. Pode vir a somar? Pode.

Ciro Gomes já foi testado em outras campanhas e volta a se apresentar  como uma opção, será que ele amadureceu?
Acho que o Ciro Gomes não é confiável para a elite política. Ele fala o que pensa. Mas em política é necessário ter um lado. Qual é o lado dele? Um dia estava defendendo o PT e Lula, outro criticando. Imagina em uma critica pública, Lula poderia questionar: “Mas esse cara está do meu lado ou não está?”. Uma coisa é se fazer uma crítica no privado, outra é ir para os jornais e apresentar uma análise pública. Ainda mais a pessoa sendo um político. Então, o problema de Ciro é que ele não é confiável para o mundo político.

E Marina Silva? Pode ser essa terceira via?
Acho que ele teve a “faca e o queijo na mão” na eleição passada para vencer ou pelo menos ir para o segundo turno e não aproveitou.  Então, a situação agora é a mais adversa para ela, que não tem estrutura partidária, não foi capaz de montar um partido no tempo hábil na eleição anterior, no momento em que o quadro era mais favorável. Mas ela não aproveitou e este momento não e tão favorável para ela, porque outras personagens aparecem com possibilidades, até por conta do desgaste da eleição passada. A eleição de presidente é um teste de liderança. Se alguém é um candidato com sucesso, mostra que passou no teste de liderança, articulou, distribuiu atribuições entre figuras importantes dentro de uma campanha. Marina não passou por esse teste. Ela fez a prova e não passou. Foi reprovada na eleição passada. Então, dificilmente terá sucesso.

O senhor acha que o país pode sair dessa crise política com o sistema representativo mais amadurecido e possibilidade de garantir governabilidade com um rumo mais definido e superar o marasmo econômico, com a retomada do desenvolvimento?
Existe algo que não gosto de apontar como inevitável, mas em geral acontece. Vem uma crise, bate no fundo do poço e depois só resta subir. A economia passa pelo período de crise e  independente da politica consegue sair, às vezes por apoios externos. Agora do ponto de vista político, o interessante seria que houvesse, no mínimo, uma minirreforma política. Há projetos tramitando no Senado e na Câmara. Existem propostas que proíbem coligações, criam cláusulas de barreiras e estabelecem a lista fechada [para eleição de deputados e vereadores], o que diminuiria drasticamente o custo dos candidatos. As campanhas ficariam mais baratas e, portanto, a corrupção diminuiria. O Brasil tem campanhas caras, porque há muitos candidatos. Imagine, na eleição passada, o candidato a prefeito em município médio ou grande, tinha de financiar as campanhas dos vereadores. Se fizer o voto no partido, na lista fechada, diminui o custo. Todos os sistemas têm vantagens e desvantagens, mas [a lista fechada] diminuiria a pressão por gastos.

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