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A(r)mar(?)
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 11:57:00 - 22/01/2022
Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

Hoje as diferenças não somam. Apontam para embates radicalizados. É preciso saídas. Breves escritos se recontextualizam e faz pensar. Na diversidade de políticas afirmativas, ideologias... Na vida. 

Sob o signo das palavras de ordem "amar" ou "armar" Marcos Silva, polemiza e propõe pluralidades interrogativas num antológico mini-poema. Amar? Armar? Ou amar e ou armar-se? Perguntas. E as respostas? Silva, autor de Rimbaud etc. - História e Poesia (Hucitec) e organizador do Dicionário Crítico Câmara Cascudo (Perspectiva) criou o A(R)MAR(?) anagramático, em 1968, envolto no balãozinho típico das histórias em quadrinhos. O construiu com dois vocábulos numa configuração linguístico-visual. Realiza-se, mas não é consumido na mesma velocidade. Alimenta atitudes, ações, posicionamentos, decomposições. É busca de soluções políticas-comportamentais. 

O balão como recurso gráfico antecede e tem sequência. Vejamos: Quatro quadrinhos criados por Décio Pignatari, compôs a capa do Teoria da Poesia Concreta, 1965, livro de textos críticos e manifestos. Num deles pinta o balão com a fala direta: "A Poesia é concreta e participante"! Aponta o sentido ideológico e o desempenho engajado. O país estava em estado de exceção. E Moacy Cirne, o aplica na capa do ensaio autoral Vanguarda: um projeto semiológico, 1975. Parte do design gráfico é formado por três quadros de fundo branco. Em um deles, o segundo, tem um balão vermelho extravasado de letras pretas aleatórias em variadas fontes. Discurso subjetivo sugerindo happening fonético. Marcos Silva, executou o poema A(R)MAR(?) em 1968. Condensação poético-ideogrâmica evocando a tradição criativa do poema-minuto “Amor / Humor”, publicado no Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, 1927. Localmente nos remete ao poema-síntese de José Bezerra Gomes, década de 1930: “Limite / Marido e Mulher”. Cid Campos e Lenora de Barros dele fizeram versão poética-experimental.

Pignatari tentou responder questões de conteúdos formais. Apostava na máxima maiakovskiana: “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Era o salto participante. E Cirne se estribava no estruturalismo do formalismo russo. Viktor Chklovsky e o conceito de "Arte como Procedimento": soma de dispositivos artísticos e literários que o artista manipula para criar”... 

Duas palavras sintetiza o ‘poema processo’ de Marcos, formadas por três letras alfabéticas. O “a”, repetido duas vezes. O eme aparece uma vez. O erre duas.  O verbo ARMAR parindo o AMAR. Extremaa concentração vocabular. Leitura em sequência ou simultânea. Dois sinais de pontuação: o parêntese e a interrogação.  O poema projeta relações - pois é ideográfico - e se poupa da lógica discursiva linear nos anagramas: ar, mar, rama. A atualidade síncrono-diacrônica de A(R)MAR(?) e sua polifonia semântica se sobrecarrega em apelos expressando neste veraneio necessária reflexão para o cenário atual. A saída? “Busco a saída de emergência” poetiza Antonio Cícero em parceria com Waly Salomão. Busquemos todos. Que venha como mantra do verão.

* Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor

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