“Reforma política é imprescindível para as demais mudanças”

Publicação: 2014-10-07 00:00:00
Entrevista - Fátima Bezerra
Senadora eleita

Anna Ruth Dantas

Repórter

Eleita senadora pelo Rio Grande do Norte com mais de 800 mil votos, a deputada federal Fátima Bezerra destaca como prioridade para o seu mandato a reforma política e uma atuação em projetos da segurança e saúde voltados para o Estado potiguar. “O que fiz com a educação, quero fazer agora com a saúde e segurança, sendo essa ponte do meu Estado com o Governo Federal”, disse a senadora eleita. Na manhã de hoje ela embarca para Brasília, onde terá uma reunião com a presidente Dilma Rousseff. A candidata à reeleição pelo PT se encontrará com todos os senadores eleitos da bancada de situação.
Fátima Bezerra - Senadora eleita
Fátima Bezerra avalia que decisivo para a sua eleição foi a própria trajetória de vida e política. “Sou a primeira senadora eleita com origem popular”, disse. Confira a entrevista que Fátima Bezerra concedeu a TRIBUNA DO NORTE:

A que a senhora credita esta vitória para o Senado Federal?
Acho que foi a trajetória política nossa, seja como professora, como militante política, como deputada estadual, como deputada federal, em uma vida pública sempre com ética, seriedade, honestidade e trabalho. Exerço a política com sentimento de honradez, dignidade e seriedade. Associado a isso houve o reconhecimento do nosso trabalho em todo o Estado, é um mandato republicano, militante, parceiro das lutas sociais, do desenvolvimento dos municípios. Meu partido só tem cinco prefeitos, mas tive apoio de dezenas de outros prefeitos nessas eleições. Eles foram firmes no apoio à minha candidatura em reconhecimento ao trabalho que estamos fazendo pelo desenvolvimento dos seus município e das suas regiões. Há um peso muito forte aí da nossa luta em defesa da educação.

A senhora foi, nesta campanha, para o tudo ou nada, já que tinha um mandato de reeleição, aparentemente tranquilo?
Acho que o sentimento da ousadia foi preponderante. Não foi simples para mim e nem para o meu partido. O PT, naquele momento, ficou em um processo de isolamento. Tínhamos um mandato em condição de ser renovado. Mas me lancei nessa disputa para o Senado. Enfrentei uma adversária que tinha ao seu redor uma estrutura política gigantesca. Mas desde o início fiz uma leitura de que uma candidatura como a minha, com o perfil e origem social como tenho, prosperaria se agregasse sentimento popular muito forte. Tínhamos uma avaliação de que havia um desejo de mudança no Rio Grande do Norte. A minha candidatura dialogou com o sentimento de renovação, associado também ao perfil nosso. Exerço a política com honradez, dignidade, honestidade e trabalho. Esse quadro terminou nos levando à vitória, que tem um componente político, porque o Rio Grande do Norte não elegeu apenas uma mulher senadora. Há um protagonismo político nestas eleições, que é o fato de, pela primeira vez, o Estado, no Senado, não será ocupada por um ex-senador ou um representante das oligarquias ou pelos representantes daqueles que têm a força do poder econômico. O Senado será ocupado por uma professora, de origem humilde. E tudo isso me deixa feliz com esse protagonismo político. Fizemos uma campanha militante, propositiva. Na campanha, eu falei da minha história, da história de menina de origem humilde.

A senhora teve 800 mil votos, seu candidato ao Governo (Robinson Faria) teve pouco mais de 640 mil votos. A senhora não conseguiu “casar” o voto?
Eu acho que o voto com ele foi bem casado. Nosso candidato a governador ter tido esse resultado eleitoral é muito expressivo, considerando que enfrentava uma candidatura, que tinha uma super coligação, que se apresentava como imbatível, favorita para ganhar no primeiro turno. O resultado eleitoral alcançado neste primeiro turno foi extremamente atrativo. Acho que o resultado expressivo que ele teve no primeiro turno tem a ver com o casamento que houve do voto com a gente.

Seu partido não conseguiu eleger um deputado federal e só fez um deputado estadual. O que aconteceu nessas duas eleições proporcionais, foi um enfraquecimento?
Não. O PT ganhou exatamente  o cargo mais importante, que é o de senadora, numa disputa histórica para o Rio Grande do Norte. Eu escutei um analista político dizer, há algumas semanas, que o fato novo da política no Rio Grande do Norte nos últimos 40 ou 50 anos seria a minha eleição para o Senado dado a origem social que tenho. É a primeira vez que o PT do Rio Grande do Norte ganha uma eleição de caráter majoritário. E, nesse caso, foi uma vitória muito bonita. Tivemos uma votação expressiva de Fernando Mineiro, estivemos perto de fazer um segundo deputado do PT. Estamos, inclusive, com o primeiro suplente de deputado federal. O PT do Rio Grande do Norte sai muito vitorioso nesta eleição.

Qual a prioridade da senhora no momento primeiro como senadora da República?
Primeiro ajudar a presidenta, os governadores, os prefeitos a realizarem as metas do novo Plano Nacional de Educação, que não é pouca coisa. Temos a meta da universalização do atendimento escolar nos próximos dez anos. E já apresentei projeto para trazer oito novas escolas técnicas para o Rio Grande do Norte, mais educação em tempo integral e mais expansão do ensino superior.  E a meta 17 que é de valorização e profissional do magistério. Haverá aumento significativo no piso salarial do dos professores nos próximos cinco anos e para tanto é necessário financiamento, por isso defendo a federalização do piso salarial do magistério.

Agora, associado a isso, da mesma forma que consegui dar contribuição para democratizar o acesso da educação no nosso Estado e fazer isso vitorioso, quero também me dedicar à questão da saúde e da segurança. Quero ajudar muito ao meu Estado, enquanto senadora, e fazer a ponte com o Governo Federal para que a gente possa ter mais verba, mais ação, mais programas no campo da saúde e segurança. Estou totalmente empenhada para construir o hospital de Mossoró. E quero participar do grande debate que é a reforma política. Ela é imprescindível.

Por que a reforma política? Ela prescinde das outras reformas?
Essa disputa política que acabo de participar revela o quanto é necessário que a gente tenha o financiamento público de campanha. Uma reforma política que venha na direção de reduzir a desigualdade da disputa e venha na direção de oxigenar o processo eleitoral e avançar nos instrumentos de combate à corrupção. Eu não acredito que as outras reformas, igualmente importantes, como a tributária, que simplifica imposto, que reduza a carga tributária, e o pacto federativo, que é extremamente necessário, prosperarão se não fizermos uma reforma política no Congresso Nacional. A reforma precisa tratar da qualidade da representação no Congresso.