A relação entre tecnologia e cultura

Publicação: 2019-12-31 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter

A década chega ao fim em meio a um cenário global conturbado. Estamos assistindo grandes mudanças demográficas, a possibilidade de um colapso ambiental, o acirramento de questões geopolíticas, e por aí vai. Diante disso, o que nos reserva a próxima década em se tratando da cultura? Como os artistas responderão a um cenário de crise mundial? O avanço tecnológico mudará ainda mais a maneira como consumimos cultura?

Créditos: ROGÉRIO VITALA relação do público com a música mudou, e novas transformações devem acontecer na nova década, acredita o produtor do Festival MADAA relação do público com a música mudou, e novas transformações devem acontecer na nova década, acredita o produtor do Festival MADA
A relação do público com a música mudou, e novas transformações devem acontecer na nova década, acredita o produtor do Festival MADA

Antes das projeções, vale rever algumas das transformações que influíram significativamente no setor cultural. Por exemplo, as plataformas de financiamento coletivo: Catarse, Kickante, Vakinha, todos sites em que os artistas do Rio Grande do Norte fizeram uso para viabilizar seus projetos, seja a gravação de um disco, a produção de um curta-metragem, a publicação de um livro. Nos momentos em que o mercado e o setor público mais retraíram os investimentos, foi diretamente aos fãs que os artistas recorreram.

Quem fez uso recente desse mecanismo foi a escritora Clotilde Tavares, por ocasião da publicação do romance “De repente a vida acaba”. Ela avalia a experiência como positiva. “A ajuda que tive no Catarse foi muito significativa. Atingi 65% da meta, mas recebi também apoios por fora da plataforma”, disse a escritora. “O interessante é que dá segurança pra quem apoia e credibilidade para quem pede apoio. E em lugar de você estar pedindo ajuda para publicar um livro, você oferece pela plataforma a oportunidade da pessoa apoiar um projeto com o qual se identifica e se interessa em apoiar. Isso é o que eu acho mais interessante”.

Créditos: CedidaA escritora Clotilde Tavares experimentou o financiamento coletivo. Para os próximos anos, aposta em comércio eletrônico para vender livrosA escritora Clotilde Tavares experimentou o financiamento coletivo. Para os próximos anos, aposta em comércio eletrônico para vender livros
A escritora Clotilde Tavares experimentou o financiamento coletivo. Para os próximos anos, aposta em comércio eletrônico para vender livros

Desafiada a fazer uma projeção sobre o mercado editorial – setor que amarga sucessivas quedas –, ela acredita que as dificuldades devem continuar. “Acho que o mercado editorial ainda terá sua crise aprofundada. Os encaminhamento das forças retrógradas que ocupam o poder privilegiam o dinheiro em detrimento da arte. Então deve piorar”, opina Clotilde. Ela também conta que o modelo vigente do mercado livreiro não é vantajoso para pequenas editoras e autores independentes, já que de modo geral as livrarias pedem 50% do valor de capa das obras, ficando para os editores e escritores a divisão da fatia restante, sendo que ainda precisando arcar com os custos de publicação. Em oposição a essas grandes redes de livraria, Clotilde aposta numa empresa muito maior, global, a Amazon, referência do comércio eletrônico mundial – plataforma onde pode o livro da escritora está à venda. “Eles cobram uma porcentagem não absurda”.

Entre ver ao vivo ou de casa
No setor de promoção de eventos, uma tecnologia foi fundamental nesta década. A venda de ingresso virtuais, ferramente que facilitou demais a vida de produtores culturais e do público, que ganhou em conforto, segurança e agilidade na hora de adquirir sua entrada em cinemas, shows, espetáculos de teatro e até palestras. São alguns exemplos as plataformas Sympla, Ingresso Rápido e a potiguar Outgo.

Diretor da Casa da Ribeira e integrante do grupo Carmin, o ator Henrique Fontes reconhece os benefícios das plataformas de ingresso digital. “A tecnologia, nesse caso, foi muito importante para o teatro. Hoje a maior parte das vendas são online”, afirma.

O curioso quanto a essas plataformas de ingresso digital é que elas viabilizam o acesso a apresentações ao vivo, presente, e isso num mundo em que o streaming – o consumo de arte em casa – cresce. Henrique também reflete sobre esse aspecto, e projeta o teatro como espaço do real.

Créditos: Alex RegisDiretor da Casa da Ribeira e integrante do grupo Carmin, Henrique Fontes diz que plataforma digital ajudou ao teatro: “a maior parte das vendas é online”Diretor da Casa da Ribeira e integrante do grupo Carmin, Henrique Fontes diz que plataforma digital ajudou ao teatro: “a maior parte das vendas é online”
Diretor da Casa da Ribeira e integrante do grupo Carmin, Henrique Fontes diz que plataforma digital ajudou ao teatro: “a maior parte das vendas é online”

“O consumo da arte está passando por transformações. As pessoas estão se habituando mais ao streamig. O Teatro Vila Velha em Salvador, por exemplo, já começa a fazer transmissão das peças em tempo real pra pessoas que querem assistir de casa. Mas isso não vai substituir o lugar, o cheiro, a temperatura, a circulação das pessoas. A experiência da arte se dá muito na presença. A experiência da arte é vivida diante da obra, ao vivo”, conta o ator.

Quanto aos impactos da tecnologia na estrutura narrativa, Henrique vê um movimento contrário no teatro. “Apesar de vermos novas tecnologias sendo usadas no teatro, a grande revolução é a volta à dramaturgia compromissada, de qualidade e de narrativa clara. Aqui o futuro se assemelha com o passado”, comenta. “As pessoas vivem hoje com mais acesso a informação e muito menos informadas. É fácil se confundir ou receber informações falsas. Acho que o teatro será esse lugar de trazer as pessoas para fatos mais concretos. O ator ao vivo falando um texto, de alguma forma aumenta o sentimento de verdade”. 

A década do streaming
O jeito que se consome música e filmes mudou de forma radical nesta década. Tudo por causa da popularização de plataformas de streaming, como Netflix (filmes e séries) e Spotify (música). Falando especificamente da indústria fonográfica, o streaming parece que ajudou a esse setor a entrar nos eixos.

Créditos: FREE PIKFoi a década do streaming que mudou a forma de consumir música e cinemaFoi a década do streaming que mudou a forma de consumir música e cinema
Foi a década do streaming que mudou a forma de consumir música e cinema

São mudanças significativas, mas para o produtor Jomardo Jomas, fundador do Festival MADA, novas transformações devem acontecer na nova década. “Acredito na junção cada vez mais frequente do online e off-line, na relação do público com a música”, diz o produtor. “A tecnologia tem ajudado muito esse crescimento, as plataformas para consumo de música hoje são multiplataformas que  envolvem o online e o off-line. Os festivais em sintonia com esse movimento tem ampliado bastante o seu alcance e público”.

Novas temáticas
É comum a ideia de que em tempos de crise a criação artística evolui, a arte passa a responder melhor às questões do mundo, oferece compreensões a partir do sensível. Será que esta década que se inicia será marcada por este movimento? O que se sabe é que temáticas sociais típicas destes tempos ganham cada vez mais espaço nas artes e tudo indica que nos próximos anos o movimento deve ser o mesmo. Questões de gêneros, de raça, imigrações, crise econômica, crises ambientais, o minimalismo na arte e no comportamento, o uso excessivo das tecnologias, tudo está na ordem do dia.

Para Henrique Fontes, não  é o momento dos artistas se absterem das principais discussões da humanidade. “Há paradigmas que não temos como fugir porque nos afetam diretamente, como a questão ambiental, o próprio fato da ascensão das direitas, a recuperação de estados ditatoriais. Tudo isso vai se manter em pauta. Espero que as políticas afirmativas fomentem esse tipo de arte, dar visibilidade para negros, pessoas trans, mulheres. Acho que o futuro caminha por esse cenário”, projeta o ator e dramaturgo.

Intolerância
Esta década se encerra com um episódio repugnante: um atentado – com fortes indícios de intolerância religiosa – à sede do grupo de comédia Porta dos Fundos. O ataque foi em resposta a um filme do grupo, o especial de Natal em que Jesus é interpretado como gay. Será que os próximos anos serão de avanço da intolerância?

O produtor Jomardo Jomas teme pelo pior, mas acredita na força de setores não reacionários. “Sem dúvida estamos vivendo um momento difícil onde a intolerância à cultura está chegando a níveis nunca vistos. Mas vejo também que por outro lado existe uma resistência. Há uma percepção de uma grande parte do público de que são eles que vão mudar esse quadro. E tem acontecido principalmente nos festivais onde a presença grande das pessoas é um claro sinal de que os espaços onde se tem respeito à diversidade estão cada vez mais valorizados pelo público. Isso pode e vai ajudar a mudarmos esse quadro de conflitos e ataques a cultura”.