A resistência em atos públicos

Publicação: 2014-03-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Adital

“Nós passamos a ter com mais frequência, os chamados discursos relâmpagos, que eram uma ação bem característica do PCBR, a gente fazia assim: determinado local que tinha aglomeração, que havia um esquema armado, um esquema de segurança, uma pessoa que tivesse mais facilidade de oratória, chegava e tinha de 30 a 45 segundos para falar para aquela aglomeração. E dizia o que estava acontecendo no país, que o país estava numa ditadura civil militar, inclusive uma ditadura que também teve a colaboração do governo americano, do Imperialismo americano. A gente tinha que falar isso tudo sinteticamente e dar uma conclusão no máximo em 45 segundos, porque a repressão não brincava...”

O relato, colhido pela Adital, é do professor Walter Pinheiro, outro ex-preso político, que, assim como tantos outros, lutou contra a ditadura militar no Brasil. Na entrevista, Pinheiro relata, além das torturas, algumas ações que os resistentes praticavam para combater o regime ditatorial brasileiro.

Diferente do que ocorreu na ação do golpe militar, o regime em si, teve ampla resistência por parte de diversos grupos em todo o país. Partidos políticos como o PCdoB, PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), PCB (Partido Comunista Brasileiro) e outros grupos formados por estudantes, como a própria UNE (União Nacional dos Estudantes) e a JEC (Juventude Estudantil Católica), fizeram a resistência ideológica e armada contra a ditadura.

De fato, é possível afirmar, segundo o historiador Guilherme Diógenes, da UFC (Universidade Federal do Ceará), que os estudantes tiveram grande parcela de responsabilidade no confronto ideológico contra o regime, muitos deles entravam nos movimentos bastante cedo e por simples curiosidade. “Na época eu era adolescente, estava fazendo o que se chamava de ginasial no Liceu do Ceará. Acredito que era a sétima série. Em 1964 eu não tinha  uma vivência política. Estudava e me envolvi em algumas atividades, porque na época o Liceu era assim um colégio que puxava manifestações. Então eu ia pra essas manifestações, mais pela movimentação, pela curiosidade (...) minha participação mais ativa, já com uma compreensão do que realmente significava aquele golpe e de partir para o combate de militância foi quando entrei na faculdade”, revela o professor Pinheiro.

Além da resistência ideológica, realizada em grande parte pelos movimentos estudantis, outros grupos também protagonizavam a resistência contra os militares, dentre eles destacam-se o MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), os movimentos sindicais, as ligas camponesas etc.

“Os rapazes entravam armados no nosso colégio. Naquela época homens e mulheres estudavam em colégios separados, então eles entravam, faziam os discursos deles e na saída nós íamos escoltando eles, como escudos humanos mesmo”, lembra a ativista Maria do Carmo Serra Azul, a Cacau.

O movimento estudantil realmente foi o maior contraponto ideológico na época da ditadura. Mesmo após ser proibida, no dia 27 de outubro de 1964, a UNE, atuando na clandestinidade, promovia manifestações, ações de panfletagem e comícios em todas as grandes cidades do país.

O auge dos protestos se deu após a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, assassinado pela Polícia Militar, no dia 28 de março de 1968, durante um confronto no Centro do Rio de Janeiro. Edson Luís entrou para a história de forma trágica, foi o primeiro estudante morto oficialmente pela ditadura militar. A morte do rapaz marcou o início de um ano turbulento e de fortes mobilizações contra o regime ditatorial. Centenas de cartazes foram colados na Cinelândia, com frases como “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”

Arte TNMétodos de torturaMétodos de tortura


Vozes da resistência

Apesar de Você - Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

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