‘Rio Grande do Norte é hoje um grande empório comercial’

Publicação: 2016-01-31 00:00:00
O ex-governador Cortez Pereira gostava de dizer que o Rio Grande do Norte é uma dádiva de Deus. Problema somos nós,teimando implantar modelos de desenvolvimento que ignoram as potencialidades de cada região. Quando governou o RN, no início da década de 1970, em meio à empolgação do milagre econômico do regime militar, Cortez tentou colocar na prática a teoria da modernização do desenvolvimento do Estado defendida por ele. 

A tese de Cortez reforçava a percepção do engenheiro agrônomo Garibaldi Dantas, que ao final de uma expedição ao RN, em 1920, apresentou o seguinte parecer:  "Do que vi na região, que visitei durante a época mais intensa da seca, tirei a conclusão de que o Rio Grande do Norte tem capacidade para se tornar um dos Estados mais prósperos da União, quando forem aproveitadas todas as suas fontes de riquezas."

Do parecer de Garibaldi Dantas, até hoje, já se passaram quase 100 anos. E o que mudou? Os principais projetos, vistos como uma saída moderna para fortalecimento da economia, fracassaram, entre eles o da barrilha, que fez parte de todos os planos federais  de governo editados entre 1940 e 1990.

Sem o polo têxtil, sem o polo químico, com a fruticultura irrigada capenga e com a indústria do petróleo em decadência, restou ao RN seguir a vocação de “empório comercial”, conforme explica,  nesta entrevista, o professor Geraldo Margela, que está lançando o livro “O Desenvolvimento do RN: a utopia do Polo Gás Sal”.
Geraldo Margela Fernandes é autor de livros e artigos sobre políticas de desenvolvimento regional
Por que projetos importantes para a economia potiguar, como o do Polo Gás Sal, não conseguiram se viabilizar?
Houve um período na história da industrialização do Brasil em que a matéria prima era muito importante. No debate sobre o polo gás sal, nos anos 1990, Bira Rocha [ex-secretário estadual de Planejamento e ex-presidente da Fiern] colocava muito isso: vantagem comparativa. Nós tínhamos determinadas matérias primas essenciais à industrialização. Foi assim com o algodão fibra longa que durante um certo período destacava o RN.  Outro elemento na área de industrialização que poderia ter sido interessante era o tungstênio. O Rio Grande do Norte era o principal produtor. Durante um tempo, tentamos montar o processo de industrialização em cima de certas matérias primas. Daí surgiu o Diferencial RN.

Por que fracassou?
Quando essas matérias eram importantes no mercado, nós não a industrializamos. A exceção foi fibra longa. Até chegamos a montar um parque têxtil. Aí chegou um certo momento em que a vantagem comparativa desapareceu. O transporte, por exemplo, ficou tão barato que o empresário poderia pegar a matéria prima aqui e levar pra produzir em São Paulo. Uma grande desvantagem nesse processo é que não tínhamos consumidores. Na área têxtil, só 7% eram consumidos aqui. Então, chegou um momento em que era mais vantagem para o empresário montar a fábrica em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Depois vem a fibra sintética e a nossa indústria têxtil desaparece. Quando o Brasil iniciou o processo de integração (na década de 1970), construído estradas, portos, rodovias, a disputa econômica deixou de ser regional e passou a ser nacional. Foi uma desvantagem para nós, que tínhamos uma população muito pobre e não temos poder político. A propósito, quem hoje fala em Sudene?

No caso do tungstênio, nós deixamos passar uma ótima oportunidade?
Naquela época tinha a guerra [2° Guerra Mundial] e a indústria automobilística em expansão precisava muito do tungstênio. Nesse período o preço dispara. Era o momento de fazer a industrialização do produto. Os empresários tinham capital, articulação nacional e internacional. Mas isso não foi feito. Eles estavam satisfeitos com a venda da matéria prima. Quando acaba a guerra, o preço da scheelita cai, o do tungstênio também. Os empresários entram em crise. Nos anos 1970/1980, quando começa o processo de globalização da economia, tentamos correr atrás do prejuízo, mas já era tarde. E, assim como a indústria têxtil, perdemos também a do tungstênio.

Nos anos 70, surge o polo da barrilha, que também naufragou. Por que não deu certo?
O governo Geisel criou 2° Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). Coube ao Rio Grande do Norte a fábrica de barrilha. Aqui nós tínhamos grandes figuras no debate - o governador Cortez Pereira e o deputado federal Antônio Florêncio. Eles dão início ao processo. Esse era um mercado dominado mundialmente pela Dow Chemical. Resolvemos entrar nele criando a Alcanorte, uma empresa estatal ligada à multinacional holandesa da indústria química,  AKZO. Naquela época, o investimento foi muito alto. Eu mostro isso no livro.

Era muito dinheiro? Quanto?
Eu digo que gastamos o triplo do previsto inicialmente e não montamos a fábrica. É bom relatar, para explicar o fracasso da fábrica de barrilha, que grupos internacionais, aliados a grupos políticos locais, trabalharam para barrar a fábrica no RN. Tarcísio Maia [que assumiu o governo do Estado quando Cortez foi cassado] era ligado ao general Golbery do Couto e Silva, que, por sua vez, tinha ligações com a Dow. Nos anos 1980, com o processo de hiperinflação, o estado do RN quebra. Collor entrega o projeto da barrilha para o grupo Fragoso Pires, que era um armador. O fracasso da indústria da barrilha quebra o BDRN (Banco de Desenvolvimento). Fragoso pega dinheiro emprestado do BDRN e do Banco do Nordeste, não constrói a fábrica e vai embora. Nunca pagou um tostão dos empréstimos. O professor Otomar Lopes Cardoso diz, certa vez, que a entrega da barrilha ao grupo Fragoso Pires foi a maior picaretagem que já houve no RN.

A produção mundial de barrilha nos anos 70/80 era de 12 milhões de toneladas. Nossa capacidade era de 400 mil. Não tínhamos importância nenhuma num mercado cartelizado.

Para onde foi o dinheiro?
Tarcísio Maia fez as vilas dos trabalhadores, mas não conseguiu montar a fábrica. Não havia interesse. Veja: a última estrada asfaltada no RN foi a de Macau. Asfaltaram até uma estrada para Luiz Gomes para escoar a produção de manga rosa. No livro eu conto essa história, que inclui também o estrangulamento dos pequenos produtores de sal. Quem podia exportar pelo Porto-Ilha? Quem produzisse mais de 200 mil  toneladas de sal. Menos do que isso, as barcaças não transportava o sal até o porto. Só três grupos estavam enquadrados nessa normal. O resto ficou fora.

Em meado dos anos 1990, Garibaldi Filho assume o comando do Estado e aquele quadrilátero de 70 km2, que era visto como o eldorado do RN, vira o foco do processo de modernização industrial, agora como polo Gás Sal. Por que não deu certo?
A indústria química e a eletrônica são as que dominam o mundo hoje. Tem um dado significativo: os empresários do RN começam a querer influenciar no processo. Fernando Bezerra vai para o Senado. Ele era da Confederação Nacional da Indústria e influente nacionalmente. Bezerra se inspira no exemplo de Tasso Jereissati, no Ceará. Nesse período, o empresário Bira Rocha entra na Fiern. Lembra daquelas famosas reuniões das manhãs das segundas-feiras sobre o projeto de modernização? Era um projeto interessante. Bira vai para a Secretaria de Planejamento. Ele engendra a questão do polo gás. Agora não era só o sal, mas a energia também. O projeto, muito bem pensado por Bira, incluía grupos internacionais, sem os quais o projeto era inviável. Esses grupos viriam se juntar à Petrobras. Com o passar do tempo, o grupo da barrilha cai fora, mas passa a se interessar pela energia. No entanto, a preferência nessa área era do controlador da Cosern. Diante disso, o grupo articulado por Bira vai embora. Então, morre o projeto da barrilha, morre o projeto do polo gás sal, a Iberdrola abandona o projeto da Termoaçu, que terminou sendo bancado pela Petrobras. Aliás, a Termoaçu foi o que restou do projeto polo gás sal.

Perdemos o trem da industrialização?

É muito difícil retomar, por exemplo, o projeto da indústria têxtil com um mercado consumidor que não está aqui, com a facilidade dos meios de comunicação e transportes. É muito difícil. A matéria prima, como já disse anteriormente, era uma vantagem local, que desapareceu. Agora é o mercado, são as tecnologias. Como retomar a indústria têxtil aqui diante dessa nova realidade? Dificilmente. Como retomar a indústria do tungstênio? Dificilmente. Do sal, da barrilha,  dificilmente vamos retomar.

Outro projeto redentor era o da fruticultura irrigada, que também não se consolidou. Onde erramos?
Em 1973, José Nilson de Sá criou a Maísa (Mossoró Agro Industrial S/A), um modelo de modernização pela irrigação no Brasil. Depois vieram a Frunorte, de Manoel Dantas, e a São João, de Tarcísio Maia. No governo Fernando Henrique, quando os juros dispararam, elas entraram em dificuldades. Lembro dos artigos de Marcos Aurélio de Sá, no Jornal de Hoje, pedindo pelo amor de Deus que o governo comprasse aquelas empresas, o que terminou acontecendo no governo Lula para a reforma agrária. O socorro do Estado sempre foi muito importante no processo de industrialização do Brasil.

E avançamos em quê?
Pergunte ao prefeito o que significou para o município a implantação de um instituto federal de educação tecnológica (os IFRNs)! Salário igual ao nosso, das universidades federais;  professores e servidores ganhando bem; e, mais importante, a juventude na Educação. A instalação representou um fomento grande para o município.No Rio Grande do Norte, a base salarial mais importante, é a do serviço público federal. Ao lado de profissionais liberais - médicos, advogados, dentistas – é quem sustenta a economia.

Aliás, tem muita gente hoje defendendo a política do “estado mínimo” como algo moderno, um porto seguro no meio da tempestade...
A presença do governo é fundamental no processo de desenvolvimento principalmente de nações atrasadas ou subdesenvolvidas. Eu fico admirado quando um político ou empresário vai à imprensa defender o "estado mínimo". Fico triste quando vejo uma liderança do comércio, na televisão, batendo no estado, ele está batendo nele mesmo, dando um tiro no pé. Na verdade, o RN hoje é um grande supermercado.

Como assim? Um grande supermercado?

Nos últimos tempos tivemos uma invasão de grandes shoppings nacionais, o crescimento muito forte do turismo e a expansão do mercado imobiliário. Comércio,  construção civil e turismo passaram a sustentar nossa economia. Batidos pelo processo de industrialização e fomos para o outro lado. E o Rio Grande do Norte terminou virando um grande empório comercial. Poderíamos ser um empório do turismo, ou educacional. As nossas potencialidades hoje estão, basicamente na área do turismo. A imagem de Natal é muito positiva lá fora. Nossa culinária é espetacular. Mas você vai a Ponta Negra e é aquela sujeira, parece mais a feira do Alecrim. O turista vai à praia passear. Ele pode até comprar alguma coisa, mas ele quer andar, conhecer a beleza do lugar. Aí a maré começa a baixar e o barraqueiro vai colocando as mesas na areia. Não há um poder fiscalizador, organizador, disciplinador. Vai a Pipa e a situação das estradas é difícil. Engraçado. Todo mundo que vem aqui quer conhecer Pipa. Não temos cuidado bem da estrutura do turismo.

Quem

Geraldo Margela Fernandes é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mestre em sociologia do desenvolvimento, autor de livros e artigos sobre políticas de desenvolvimento regional. Leciona as disciplinas  Desenvolvimento Regional e Sociologia na UFRN.