A Rodrigues Alves de sons e oitizeiros

Publicação: 2018-09-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um simples cheiro pode trazer à tona os sentimentos mais profundos guardados na mente. É o que provoca, por exemplo, o aroma doce dos oitis esmagados pelos carros que cruzam a avenida Rodrigues Alves. Esse perfume singelo, despercebido por grande parte dos passantes da região, transporta o músico Fernando Suassuna diretamente para sua infância vivida naquela rua. É quando a Rodrigues Alves de hoje, cheia de carros e rodeada de comércios, some dando lugar a Rodrigues Alves de ontem, de quando ele e sua turma jogavam futebol no asfalto, sob a sombra dos oitizeiros, a árvore mais predominante em Natal.

Fernando Suassuna – o Véio, como é conhecido pelos amigos – é redator, jingleman e baterista. Um instrumentista com rodagem na cidade. Começou a tocar aos 15 anos, sozinho, para entrar na banda Fluidos, grupo que tinha Carito nas performances vocais e que puxou a cena rock de Natal nos anos 80. Com o fim da Fluidos ele integra a Modus Vivendi, em outra parceria com Carito. Em seu currículo há outras bandas, parcerias e viagens ao exterior para tocar.
Uma das ruas mais arborizadas de Natal também já foi, no passado, um reduto musical
Uma das ruas mais arborizadas de Natal também já foi, no passado, um reduto musical

Atualmente a banda de Fernando é a Mad Dogs, onde toca com o irmão Carlinhos Suassuna, guitarrista. Por sinal, o Véio só tem irmão com aptidão musical. Além dele e de Carlinhos, os outros dois que completam o quarteto são: Tiago, o mais velho, foi o primeiro a tocar um instrumento, mas trocou a música pelo Direito; e Manoca Barreto, falecido em 2013, fundador do Fluidos, mestre da guitarra e tutor de uma geração de músicos.

Nesta entrevista para TRIBUNA DO NORTE, realizada no estúdio da Rodrigues Alves, onde a Fluidos, Modus Vivendi e muitas outras bandas passaram, Fernando Suassuna lembra do seu começo na música, os ensaios na casa dos pais, as traquinagens que fazia com os amigos nas adjacências da rua, as figuras pitorescas da vizinhança, os lugares que não existem mais e, claro, dos perfumes da avenida, a segunda mais arborizada de Natal, segundo o inventário florístico da Semsur de 2016.

Chaboque do dedo no asfalto

Cheguei na avenida Rodrigues Alves aos 5 anos e vivi aqui até os 19 anos. A casa da gente sempre foi o ponto de encontro da galera do bairro. A gente brincava de biloca, jogava mirim [futebol improvisado] na rua, arrancava o chaboque do dedo. Era um bairro residencial, muito arborizado, passava pouco carro na avenida. Hoje está cheio de comércio, bem descaracterizado. Ainda tenho relação com a rua e com a casa em que cresci porque meu estúdio fica aqui, na mesma casa.

Pular muro

Antigamente aqui nessa rua todo mundo se conhecia. Tinha muita molecagem. A gente pulava os muros das casas pra apanhar fruta. Por aqui tinha jambo, siriguela. E isso era tolerado. Hoje em dia, se alguém fizer isso é recebido com tiro.

Seu Nestor da Jundiaí

Aqui na Rodrigues Alves tinha uns doidos de rua. Lembro de um que a criançada ficava com medo. Era o Beija Homem. Se ele visse um cara de bobeira ele dava um beijo e saia correndo. Eram daquelas figuras que ficavam gravitando o local. Me recordo agora também de um senhorzinho que a gente perturbava muito. Seu Nestor. Ele passava a manhã varrendo a calçada da casa dele. Ficava na Jundiaí. Ele juntava as folhas que caiam das árvores e tocava fogo. Mas o vento espalhava, ai ele começava de novo. A molecava via esse trabalho dele e passava gritando: “Nestor, cadê o fósforo!”. Ele ficava irado, soltava todos os palavrões que conhecia.

Rua musical

Naquele tempo a Rodrigues Alves já era uma área musical. Wigder Valle morava aqui perto. Tocava violão na frente de casa. A gente ficava ouvindo. O interesse musical meu e dos meus irmão surgiu aqui, na adolescência. Quem começou a tocar foi meu irmão mais velho, o Tiago. Tocava violão. Depois veio o Manoca. Tiago largou e Manoca seguiu. Eu fui tocar só mais tarde. Aprendi a tocar bateria para entrar na banda dele e de Carito, que era o Fluidos. Consegui uma bateria e aprendi a tocar na marra, com 15 anos, sozinho. Depois tive aulas com Bauru, baterista do Impacto Cinco, que morava no Largo do Atheneu.

Várias bandas

Nosso lance no começo era mais rock. Na época, quem fazia rock na cidade era uma galera mais velha, o Alcateia Maldita, o Gato Lúdico. Da galera jovem tinha a gente com o Fluidos, depois a Modus Vivendi, outra banda com Carito, Miuda, Nelson Benevides, Erick Firmino e eu. Também teve a banda Blefe. Essa pouca gente conhece. Foi uma banda rápida que tivemos com Eduardo Taufic, Cacau Vasconcelos (os dois depois formaram o Cantocalismo), e Paulo Johnson, um saxofonista da Orquestra Sinfônica. Surgiu uma oportunidade de ir tocar na Itália e todo mundo foi. Depois Cacau e eu voltamos. Eduardo tá lá até hoje e Paulo voltou depois de 10 anos.

Ensaios em casa

A gente ensaiava aqui em casa. Mamãe, pra não ficar doida, construiu uma sala no terreno no lado de casa pra gente ensaiar. Onde hoje funciona o estúdio. Fica exatamente no mesmo lugar. Na época do Fluidos aqui em casa virou um novo ponto de encontro da galera que curtia música. Carito e Mario Ivo moravam aqui perto e vinham sempre. Lembro que dava uma turma pra ver a gente ensaiar. Muitas bandas vieram nesse rastro. Edu Gomez vinha aqui, Ilo Sergio Tonel. Tinha as bandas que Manoca participava. Amigos também ensaiaram por aqui, Alphorria, Trio Sam.

Abacateiro que gosta de música

Aqui onde fica o estúdio antes era só um terreno com estrutura em ruínas. A gente morava na casa ao lado. Quem morou aqui foi Heraldo Palmeira, músico, produtor e escritor. Ele morava lá atrás, num quartinho que a gente pegou pra ensaiar antes de mamãe mandar construir o estúdio. Em frente ao quartinho tinha um abacateiro que nunca tinha dado fruto. Parece história de realismo fantástico, mas na época que a gente ensaiava ali, o abacateiro passou a dar fruto. Depois, quando fomos para o estúdio, a árvore nunca mais voltou a florir.

Vinil na casa de Tonel

Naquele tempo das bandas a gente andava tudo por aqui, ia para à pé até o Centro catar disco nos sebos. Abimael tava começando nessa época. Era por volta de 1985. O vinil tinha aquela coisa romântica. Quando a gente descobria uma raridade se juntava pra ouvir. A gente se reunia muito aqui e na casa de Ilo Tonel . Ele tocava baixo, morava aqui do lado, o quarto dele era separado da casa então dava pra fazer uma bagunça.

As guarânias de Guaraci

Lembro que aqui na esquina da rua tinha uma galeteria, acho que se chamava Brazão, acontecia shows de lá, era meio chique. Por aqui também tinha a Mercearia de seu Canuto, o Carito perturbava muito lá. Dos lugares que ainda existem hoje, tem um quase aqui na esquina, na rua Assu, o Caldo de Cana Sarrafo, de Guaraci Picado. Ele também tocava, cantava muito bem. Gravava uma guarânias [estilo musical de origem paraguaia]. Hoje é o filho ou o neto que toma conta.

Cheiro de rua

Na Rodrigues Alves tem uma coisa que  me transporta no tempo. É o cheiro. Não sei qual é a árvore. Tem um cheiro de verde que me lembra férias. Ainda hoje eu sinto quando chega os meses de novembro e dezembro, que é quando as crianças ficam naquela ansiedade de fim de ano. Quando sinto esse cheiro me transporto imediatamente pra infância. Outra coisa são os oitizeiros. Tem muito aqui. Quando os oitis estão maduros eles caem e os carros esmagam. Então sobe aquele cheiro meio adocicado. É outro aroma da minha infância. Esses dois aspectos estão preservados na rua e na minha memória.

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