Quadrantes
“...Só os artistas sabem olhar...”
Publicado: 00:00:00 - 19/09/2021 Atualizado: 15:52:46 - 18/09/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor ]

Albert Camus já nos dizia, no seu clássico romance A Peste (La Peste, 1947): “Só os artistas sabem olhar.”  E eu vos digo que, vivenciando intensos sentimentos e sentidos, dói-me forte a compreensão de que a sociedade humana apresenta certa cegueira, algo como uma desatenção à própria condição, àquela que soergue e sem a qual pouco se caminha, pouco se acrescenta à construção de um mundo em que imperem a harmonia e a paz, àquela que seja um vetor real e não somente uma esperança.

A pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2) – espraiando pelo mundo inteiro a doença denominada Covid-19 – que foi anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, parece que trouxe a lume, mesmo que parcialmente, o quanto se faz necessário que cada vivente humano do planeta estenda a mão ao seu próximo, sem preconceitos e sem barreiras reprováveis e intransponíveis.

A contaminação possível pode até trazer paradoxos, sentimentos contraditórios, porém sempre didáticos (ou que oportunizem a elucidação) sobre a realidade íntima, pessoal, de cada um dos habitantes da Terra e dos laços de união, de inexorável união e colaboração entre todos e todas.

A maneira como a humanidade vem lidando com os bens naturais, com as riquezas a todos pertencentes (das quais poucos possuem o usufruto), com pistas sobre uma caminhada plena de riscos, tudo isso ocasiona uma pausa reflexiva e possivelmente melancólica para a resposta seguinte: a de que os rumos merecem correção urgente, sob pena de que tudo e todos sucumbam, não somente diante de situações como a da pandemia, mas de outras possibilidades trágicas, absurdamente trágicas que podem se dar.

Em algum momento, as atuais maneiras de refletir a realidade e um sentimento trágico do mundo (relembra-se Miguel de Unamuno), teriam que se deparar com a representação da realidade já ensaiada nas narrativas literárias e antevisões poéticas daqueles que dedicaram as suas sensibilidades à iluminação das mentes para o ingresso seguro e para a manutenção sóbria das condições mesmas de existir, de manter os pés em rumo edificante e direção solidária, para que a humanidade possa viver com dignidade e se nutrir de todo o bem. A humanidade não precisa sucumbir e deve cumprir os seus propósitos, não permitindo que esmoreçam os seus desejos e os seus sonhos e utopias, sejam quais forem, sempre em busca da luz e no rumo do bem comum.

Essa ideia de utopia, em meio a uma verdadeira distopia, merece ser resgatada no que concerne às antevisões e – por que não dizer? – profecias inauguradas por autores do quilate de um Albert Camus.

Prêmio Nobel de Literatura em 1957, colossal escritor, jornalista e filósofo franco-argelino (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960), Camus ofereceu ao mundo, além de toda a sua fabulosa obra, essa preciosidade literária citada, o que fez pondo diante de todos – através de uma alegoria muito bem engendrada acerca da ocupação “infecciosa” da França pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial – a responsabilidade solidária e de resistência mesmas que existem em cada um, no sentido de se impedir o avanço de ideias totalitárias e atitudes opressoras e de erros nutridos no próprio seio da humanidade, que muitas vezes se conduz, como já se disse aqui, em lances de dolorosa cegueira, em direção a uma ou várias espécies de abismos.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte