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A sacralidade da água
Publicado: 00:00:00 - 11/01/2022 Atualizado: 23:45:22 - 11/01/2022
João Medeiros Filho
Padre 

Recordo os meus tempos de jovem padre. Ao adentrar numa sacristia, havia em destaque um quadro sobre uma cômoda ou afixado na parede, contendo os nomes do papa, do bispo local e a indicação da “oratio imperata”. Esta era uma oração obrigatória, determinada pela autoridade diocesana a ser rezada nas missas, em alguns períodos. De dezembro a março, recitava-se “Ad petendam pluviam” (para pedir chuva). Nas comunidades romanas dos primeiros séculos do cristianismo, havia o costume de realizar o canto processional das ladainhas (rogações), suplicando a clemência divina para enviar chuvas. As tradições vão sendo esquecidas, mesmo no catolicismo.

A água é um elemento sagrado, essencial à vida, exaltado na Sagrada Escritura. No princípio, “o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No dilúvio, elas purificaram a terra (Gn 7,10-24). Moisés comandou a travessia dos hebreus no Mar Vermelho, libertando-os do opróbio dos egípcios (Ex 14, 21ss; 15,1-21). No deserto, fez brotar da rocha uma fonte para saciar a sede do povo peregrino em busca de Canaã (Nm 20, 10). Em seu batismo, Cristo foi banhado no Rio Jordão (Mt 3, 13). Na cena do juízo final, ouvir-se-ão palavras que fazem parte das Obras de Misericórdia: “Tive sede e me destes de beber” (Mt 25, 35). Fomos aspergidos ou molhados nas fontes batismais e inseridos na comunidade cristã. O corpo humano contém aproximadamente sessenta por cento de água, fundamental para o funcionamento dos órgãos. Sua importância é tanta que, em todos os atos de bênçãos, o sacerdote asperge as pessoas ou objetos.

O Rio Grande do Norte conheceu a luta de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros por água potável abundante. Seu engajamento foi marcante, a ponto de dar nome a uma importante adutora potiguar. O sacerdote costumava citar a Conferência das Nações Unidas, ocorrida no Rio de Janeiro (1992). Nela foi lançada a Declaração Universal dos Direitos Hídricos. Lê-se no seu Artigo 4º: “o equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.” O inolvidável pároco de São Paulo do Potengi compreendeu os gestos de Cristo ao demonstrar sua paixão pelo sagrado líquido. 

Nos evangelhos, Jesus mostra-se familiarizado com a água. Tornou-a matéria do sacramento do batismo, por considerá-la um princípio vital.

 Dessedentou-se no Poço de Jacó, onde tocou o coração da samaritana, trazendo-a de volta à graça divina. Navegou, muitas vezes, pelo Mar da Galileia (Mc 6,45). Fez dele e das barcas a sua cátedra (Mc 4,1-2; Lc 5,1-3). Nos momentos de medo dos apóstolos, ordenou às ondas do mar que se acalmassem (Mc 4,39) e, em outra ocasião, caminhou sobre elas (cf. Jo 6, 18). Certa feita, determinou que dois discípulos seguissem um homem carregando um cântaro contendo o precioso líquido (Mc 14,13). Durante a Última Ceia, tomando o jarro, bacia e toalha, lavou os pés de seus apóstolos (Jo 12,1-17), gesto repetido nas celebrações litúrgicas da Quinta-feira Santa. No Calvário, pendendo do patíbulo da cruz, de seu lado aberto por uma lança “jorraram sangue e água” (Jo 19,34), símbolo da Eucaristia. Prometeu que do íntimo de quem Nele acreditasse, jorrariam torrentes vivas (Jo 7, 37-39). Segundo vários teólogos, também por causa disto, Ele escolheu os doze seguidores, transformando-os em “pescadores de homens.” (Lc 5, 11).

Não se pode esquecer: foi diante de um rio, lago ou mar que Cristo começou a sua Igreja, convocando os primeiros discípulos. Certa feita, passando pelo Mar da Galileia, viu Pedro e André lançando ali as suas redes. Diante dessa cena, Jesus dissera-lhes: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mt 4, 19). De igual modo, chamou os irmãos João e Tiago, que lavavam e consertavam tarrafas (Mc 1,14-20; Mt 4, 18-22). Preciosas são as anotações de nosso amigo e confrade Woden Madruga, acompanhando cuidadosamente a precipitação pluviométrica. Neste início de ano, mesmo diante de um bom prenúncio – embora, ainda com escassez hídrica – convém rezar pedindo um bom inverno. Lembremo-nos da promessa de Deus a quem Lhe rogasse com perseverança e fé: “Derramarei água na terra sedenta e torrentes no solo ressecado.” (Is 44, 13).


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