"A seca trouxe prejuízos muito grandes à Caern"

Publicação: 2013-05-12 00:00:00
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Sara Vasconcelos - Repórter

»entrevista» Yuri Tasso - diretor presidente da Caern

A seca que se prolonga desde o ano passado trouxe prejuízos à Companhia de Água e Esgoto do Rio Grande do Norte. Em 14 cidades em que o abastecimento de água entrou em colapso, a Caern deixou de faturar em um ano R$ 9,8 milhões e precisou investir outros R$ 2,5 milhões para assegurar o fornecimento por carros-pipas. Com a necessidade de redefinir prioridades e deslocar recursos, algumas obras e serviços tiveram de ser tocados em ritmo mais lento. Contudo, a estiagem não se pôs como empecilho para o crescimento da capacidade de investimentos. Depois de uma auditoria e implantação de um novo sistema contábil, entre outras medidas, as contas foram saneadas e a projeção é de um crescimento superior a 7%, este ano. O aumento na arrecadação advém ainda de uma política de combate a fraudes, os chamados “gatos”, com instalação de hidrômetros e o recadastramento de clientes. “O roubo de água ocorre no atacado, quando se rouba de adutoras, grandes volumes de água para fins de agropecuária, e no varejo, com o chamado “gato”, e desviam água para o seu consumo”, observa o diretor presidente da Caern, Yuri Tasso. Confira a entrevista.
Yuri Tasso calcula quanto a Caern deixou de faturar por causa da seca prolongada e destaca o aumento dos investimentos
Qual a previsão de investimentos para esse ano?
A previsão é de quase R$ 1,5 bilhão. Estamos reativando contratos antigos que estavam parados, cerca e R$ 500 milhões. Para Natal e esgotamento, conseguimos mais R$ 504 milhões e há outros R$ 170 milhões dentro do PAC da Seca. É bem maior que no ano passado, quando tínhamos investimentos das obras antigas, conseguimos recursos da Funasa cerca de R$ 30 milhões e conseguimos no PAC segunda seleção, algo em torno de R$ 200 milhões.

Que projetos estão previstos?

São recursos para sanear 100% da área de Natal, que serão somados aos recursos anunciados pelo governo do Estado no projeto de saneamento. Com a reativação das obras da Bacia FK, Capim Macio e San Valle. Na Zona Norte, tirando duas áreas Igapó e Nossa Senhora da Apresentação, o restante da região não tem esgotamento sanitário. Há obras entre Redinha e Redinha Nova. Dos 504 milhões, cerca de 300 milhões serão para a ZN. A meta é passar dos atuais 32% para 100% de cobertura em saneamento básico.

Qual a previsão de início e de conclusão dessas obras?
O prazo para iniciar é até o final do ano com execução de 24 meses, mas devido a dimensão da obra e como esgotamento  demanda muitas intervenções em vias públicas, poderá se estender um pouco mais. Os investimentos são em parte com recursos da Caern e de financiamentos do governo estadual e federal.

Como está a saúde financeira da instituição?
Os investimentos não se concretizam em um ano, mas ao longo do tempo. Os recursos oriundos do convênios do ano passado estão em execução esse ano, com prazo superior a 12 meses. Os recursos desse ano ainda não começaram a ser usados. Isso afeta pouco o balanço da empresa, que está mais ligado ao desempenho da empresa e temos melhorado substancialmente. Para isso fizemos uma auditoria na contabilidade, que adotou um novo modelo e só trabalha com o que efetivamente vai ser confirmado; expurgamos ativos podres, mesmo assim, o balanço foi positivo de R$ 2,5 milhões.

Houve aumento da arrecadação, da capacidade de investimentos?
A Caern vem trabalhando em todas as áreas para melhorar a arrecadação, que vem crescendo paulatinamente. Fizemos novos investimentos em combate à fraudes, pra evitar a situação de poucos se beneficiarem em detrimento de prejuízos de muitos. O roubo de água ocorre no atacado, quando se rouba de adutoras, grandes volumes de água para fins de agropecuária, e no varejo,  com o chamado “gato”, e desviam água para o seu consumo humano ou ainda religa, por conta própria e sem saldar os débitos, a água que foi cortada por falta de pagamento.
Yuri Tasso Duarte Queiroz Pinto tem 54 anos e é diretor-presidente da Caern
A inadimplência hoje continua alta?
A Caern nesse aspecto é o que tem um dos melhores desempenhos dentro do segmento de saneamento. Está em torno de 5% do faturamento mensal que é de R$ 33 mil. Na área de perdas estamos trabalhando a recuperação do cliente inativo, daqueles que se desligaram. Nós investigamos o porque e tentamos trazê-lo de volta. O recadastramento da Caern está sendo refeito para ter um diagnóstico mais preciso. O cadastro anterior estava desorganizado e não era confiável. Hoje são 138 mil clientes inativos,  cadastrados como quem não usa o sistema, parte deixaram de existir e parte se utiliza da água de vizinhos.

Como está o desperdício de água e quais os prejuízos gerados?
Reduziu bastante com a política de instalação de hidrômetros. Ano passado nós instalamos 140 mil e esse ano a meta de 200 mil, um investimento de R$ 900 mil reais. Esperamos zerar o déficit de hidrômetros em 2014. Estamos trabalhando na primeira instalação e na substituição de hidrômetros avariados e com mais de dez anos. A vida útil  do equipamento é de dez anos, depois disso deixa de fazer a medição, e precisa ser trocado.

O desperdício é de quanto?
A média de perda das empresas de saneamento do Brasil, e a Caern está inclusa, gira em torno de 55%  entre vazamentos, roubo e diferença entre produção efetiva e produção estimada.

A estiagem comprometeu  a capacidade de investimentos da Caern?
A seca prolongada trouxe prejuízos muito grandes para a Companhia, já que os mananciais exauriram em algumas cidades. Em 14 delas, o sistema entrou em colapso. Com a paralisação desses sistemas deixamos de faturar R$ 9,8 milhões, de abril do ano passado a abril desse ano, e ainda tivemos que gastar com apoio às ações da defesa civil e das prefeituras. Foram R$ 2 milhões só em carro-pipa, no ano passado. Em Natal, precisamos fazer outros investimentos na captação, mudando para áreas mais profundas, além de investimento em novas bombas, porque a gente não desativa as captações antigas que voltará a normalidade com as chuvas, fazemos uma outra, substituindo provisoriamente. Isso  esta acontecendo nos principais sistemas, na lagoa do Bonfim, que abastece Monsenhor Expedito, no Jiqui, nos sistema de Santana do Matos, de Serra de Santana, da adutora Caicó (Manoel Torres),

Para atender as demandas da seca foi preciso deslocar recursos antes previstos para outros projetos?
É, afetou o nosso plano de investimentos, mas não houve paralisação de serviços. Só que alguns projetos poderiam ter avançado mais, mas tivemos que mudar a prioridade.

Quais os projetos?
Em Natal, precisamos substituir parte da tubulação de Natal de amianto, colocado da década de 1970 e 1980, que hoje começa a romper. Estava programado avançar com  a substituição desses tubos, mas em virtude da seca tivemos que retardar.

O setor produtivo reclama que os investimentos feitos nos sistemas de abastecimentos de adutoras não é suficiente para atender a demanda. Por que isso acontece?
O sistema de adutoras tem dado resultados acima do esperado. O que ocorre é uma tratativa diferente do que foi planejado. As adutoras foram pensadas para atender as cidades e depois se pensou na universalização e começaram a fazer ligações (que não são clandestinas) que não estavam projetadas inicialmente. Isso termina  comprometendo a capacidade. As adutoras são projetadas para atender à contento, por 20 anos. Mas se mudar o foco, sem critérios, começar a atender as comunidades rurais, parte das adutoras acabam trabalhando acima do  projeto. O setor produtivo também deve procurar soluções.

Quais soluções são essas? Inclusive, o setor de mineração também está prejudicado com a seca. Há relatos de empresas que fecharam ou reduziram atividade porque não há água suficiente para beneficiar produtos como ouro e scheelita. O que pode ser feito?
Alternativas de uso de água diversas como poços ou mananciais que não estejam sendo usados. Duas empresas em Currais Novos, das áreas de mineração e cimento, assinaram carta de intenção para passar a adotar o sistema de reuso de afluentes de esgotos, que após tratamento, para a produção. É um exemplo de como pode ser conseguido essa  água. O setor produtivo tem que entender que se estiver instalado em zona rural , ele sai do sistema de atendimento que estava previsto e é esse investidor/empresa, que deve buscar a solução dele. O sistema da Caern é para abastecimento humano.

Quais projetos estão previstos dentro do PAC da Seca, para esses R$ 170 milhões que o senhor mencionou?
O que temos trabalhado para minimizar os efeitos da seca, junto com outras instâncias do governo, são ações em canais, sistemas de adutoras, ampliação de novos reservatórios, como barragens e açudes. E tentado programas alternativos como barragens submersas, segunda água, perfuração de poços, instalação de salinizadoras.
Entre as obras estruturantes com vistas a Copa do Mundo de 2014, algum projeto da Caern está contemplado?
Nós fizemos alguns investimentos na área da Arena das Dunas para substituir tubulações mais resistentes para atender uma maior demanda. Mas não haverá impacto em relação ao abastecimento durante o período do evento, não precisará de maiores investimentos em Natal, uma vez que chega ao Estado ficará na rede hoteleira que já tem capacidade instalada suficiente para atender esse incremento de pessoas.

Qual a projeção de crescimento do faturamento?
Estabelecemos uma faixa de crescimento baseada na taxa de crescimento da população, que está em 7%, sem contar aí o reajuste da tarifa que só corrige o faturamento. Mas com muito trabalho, estamos conseguindo superar essas metas estabelecidas. O faturamento médio é de R$ 32 mil a R$ 33 mil por mês, mas conseguimos chegar a R$ 35 mil e esperamos permanecer nesse ritmo.

Havia rumores de que investidores teriam interesse em parte da concessão. Como está a situação hoje, há possibilidade de privatizar?
O setor de água passou a ser atrativo para investidores, devido o sistema de fornecimento por meio de concessão que pode ser dada tanto ao setor público, quanto privado. E como essas concessões tem vigência de 20 a 25 anos, algumas empresas vislumbraram a possibilidade de reverter essa concessão, com uma promessa de melhoria da prestação de serviços. Mas esqueceram de avisar que, para o consumidor impactaria diretamente sobre a tarifa. A forma de cálculo que influencia no preço é o investimento, que demandaria bem mais para melhorar os serviços. E a Caern tem investido em pessoal, com realização de concursos, aquisição de veículos, mas com recursos subsidiados, que não são repassados para a tarifa. E  quando privatizado, o retorno de todos os investimentos feitos é dado na tarifa em quatro anos. Mas o fantasma da privatização já foi afugentado aqui no Estado.

E há previsão de reajuste?

Como todo ano, deve ocorrer em junho, julho.


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