“Segurança não é feita apenas pela força policial”

Publicação: 2016-07-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Repórter


Dois meses após assumir a titularidade da Sesed e se deparar com os maiores números de homicídios da história do Rio Grande do Norte, o secretário Ronaldo Lundgren avalia que não cabe somente às Forças Policiais do Estado a culpa pelos números negativos. A desatenção, o descaso e a falta de um  Plano de Segurança Pública no Rio Grande do Norte são por ele listados como catalizadores dos dados da violência no estado. Anunciando mudanças no Ronda Cidadã e no corpo de técnicos que o auxiliam na Sesed, ele afirmou que novos policiais militares e civis deverão ser contratados e, a partir de 2017, um novo momento será vivido pela população potiguar. Pela primeira após o anúncio da saída de Ivênio Hermes da Coine, ele comentou o caso e creditou ao então auxiliar a culpa pela mudança. Sobre a transparência dos dados relativos às Condutas Violentas Letais Intencionais (CVLIs), Lundgren garantiu que será mantida. Leia abaixo a reportagem exclusiva com o titular da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social.
Alex RégisRonaldo Lundgren analisa que o tráfico e o aumento das fugas no sistema prisional são fatores decisivos na escalada da violência no RNRonaldo Lundgren analisa que o tráfico e o aumento das fugas no sistema prisional são fatores decisivos na escalada da violência no RN

Quais são as medidas que a Sesed irá adotar para estancar a matança que é vista cotidianamente no estado?
Realmente os números estão grandes. Os números são de grande preocupação minha e nós precisamos entender de que as ações policiais, elas não são as únicas que podem reduzir essa situação aqui no estado, particularmente na região da Grande Natal e na região de Mossoró, porque muito do que vem acontecendo se deve a tráfico de droga. De uma maneira ou de outra, são pessoas que tem envolvimento com o tráfico de drogas, por serem consumidores que em determinado momento perderam a capacidade de pagar a dívida, pessoas que participam do comércio de drogas em pequenas quantidades, mas participam. Vale destacar que, no estado, esse ano já foram apreendidas cerca de duas toneladas de drogas nesses seis meses. Isso mostra que o estado, além de consumidor, faz parte de uma rota de tráfico de drogas. Se nós aliarmos a isso as fugas que tem acontecido no Sistema Penitenciário, esses presos procuram retornar para suas áreas de atuação e quando elas chegam nessas áreas uma outra liderança já se colocou e há uma disputa novamente por controle. Isso tem levado a esse número de homicídios.

E as ações?
As ações que estão planejadas pela Secretaria passam pelo conceito da “Polícia de Proximidade” que é a base do Programa Ronda Cidadã. A Polícia de Proximidade é uma mudança de atitude das forças policiais. As nossas forças policiais  necessitam de uma reciclagem, de uma capacitação para que possam atuar dentro desse conceito da polícia de proximidade que é o Ronda Cidadã. Nesse sentido, determinei que a Polícia Militar faça um curso de capacitação do seu policial, que vai ressaltar os principais pontos de como o policial deve agir nesse conceito de Ronda Cidadã, do conceito de Polícia de Proximidade. O conceito de atuação da Polícia hoje está num conceito que precisa mudar. Por isso a necessidade desse curso de formação, que deverá iniciar ainda nesse mês de julho para que o mais rápido possível se tenha o policial atuando de uma forma diferente.

Quem vai administrar esse curso, de que forma e qual será o cronograma?
A própria Polícia Militar. O Governo do Estado autorizou, no final de abril desse ano, um documento que é a diretriz para a implementação, para a condução do policial na Polícia de Proximidade. Esse documento está sendo distribuído para todo o efetivo e, com base nesse documento, terá sua própria capacitação. Comandantes e delegados são chamados para atuarem de forma integrada também.

Do seu ponto de vista, o Ronda Cidadã é um projeto que tem efetividade ou precisa ser modificado?
O Programa Ronda Cidadã foi confundido com um programa onde vários meios são colocados à disposição da Polícia e a partir desses meios, as coisas passam a acontecer, passam a dar certo. Além da parte policial, o programa necessita que outros atores contribuam com a solução da violência naquela área. É um programa que necessita da capacitação do policial para atuar dentro de uma polícia de proximidade e essa capacitação tem que acontecer em todos os níveis. Nós estamos avançando e vamos a identificação, em três bairros, das necessidades e melhorar as condições de segurança daqueles bairros. Começaremos pelos bairros de Mãe Luiza, Felipe Camarão e Ponta Negra.

Qual é a ideia?
Um coordenador nosso de integração institucional junto com a comunidade desses bairros, identificar todas as necessidades não como a gente vê, mas como a comunidade percebe que precisa melhorar a segurança na sua área. A partir dessa lista, algumas são de responsabilidade da Secretaria de Segurança, outras do Município. Outras são de atribuição da parte da Saúde, da Educação. Iremos identificar os atores responsáveis e o que cada um deve firmar. É um trabalho grandioso, não é fácil de acontecer.

É possível apontar culpados para essa escalada na violência?
A sociedade sente os números de  homicídios, assim como eu sinto. Eu me sinto com a responsabilidade por isso ter acontecido e eu trago a responsabilidade para mim próprio que poderia, de alguma maneira, ter sido evitado. Mas essa mesma sociedade, precisa ter a consciência de que a segurança da população não é feita apenas pela força policial. É um ator importantíssimo, que tem a capacidade técnica de dizer o que pode ser feito, de mobilizar pessoas, de mobilizar atores, ela pode fazer muito, mas não pode fazer tudo.

 O senhor reconhece que a Sesed errou ao implementar o Ronda Cidade da forma como fora feito?
Não, não assumo isso. Eu não sei como foi feito. Eu vi o que estava acontecendo e vi que esses atores que começaram anteriormente, hoje não estão presentes. A Polícia Militar está presente, a Polícia Civil está presente. A gente não faz nada sozinho e precisa de outras pessoas fazendo a sua parte. Nós não conseguimos fazer tudo simultaneamente. Não pode ficar todo peso em cima das forças policiais. Porque enquanto estiver assim, fica fácil apontar o dedo de quem está errando. Eu vejo aqui que está muito fácil se apontar o dedo. Aponta o dedo para esse ou aquele, dizendo que errou isso, que prometeu aquilo. E o outros que não estão fazendo a sua parte? E essa parte tem atrapalhado a segurança do povo. Eu percebi um descaso na Segurança Pública, uma desatenção na Segurança Pública. Depois de 10 anos, está aqui a Sesed fazendo um  Plano de Segurança Pública. Por causa da falta de um plano desse, a gente vê aqui interferência de vários outros setores achando que conhecem, que podem e tem o direito de interferir. Não é assim. Não pode ser assim. Existem técnicos que me assessoram e precisamos de um tempo para elaborar o Plano. O Plano vai dar resultado e corrigir essa desatenção de vários anos. Agora não pode e me recuso a apontar o dedo e colocar a culpa na Polícia Militar, na Civil, no Corpo de Bombeiros e Itep. Tem falhas? Tem. Mas estamos identificando e corrigindo.

O senhor falou que dispõe de técnicos que o auxiliam. Um deles foi dispensado recentemente. O que levou à saída de Ivênio Hermes da Coine?
Eu procuro preservar as pessoas. Eu pedi ao Ivênio, que eu conheci nesses dois meses e admirei o trabalho dele, eu falei: Eu preciso do seu cargo e estou aqui de coração apertado porque você é um bom profissional. Mas eu não posso admitir que um servidor da Segurança Pública venha a escrever um texto criticando uma ação que foi feita em Mossoró para prender policiais que estão suspeitos de participação em um grupo de extermínio. Esse foi o fato. Não foi o fato dos números dele, não. Os relatórios que ele me apresentava, as explicações que ele me fazia me fizeram admirar o trabalho dele. Eu considerei o texto que ele escreveu uma coisa que não pode acontecer com um servidor da Sesed, ainda mais do status dele e da importância que ele tem. Eu prezo a pessoa dele, mas infelizmente ele cometeu uma falta.

Quem irá assumir a Coine?
Ainda não está definido quem vai ficar.

O senhor é a favor da divulgação dos números, vai manter a publicação que a Coine vinha fazendo com a publicação dos relatórios?
O Rio Grande do Norte atingiu um nível de reconhecimento nacional pela transparência nos seus números. Isso não vai perder. É uma conquista. Existe uma Câmara Técnica que cuida desse assunto com diversos profissionais que eu nem sei quem são – tem professor universitário, juiz, promotor. Esses dados coletados são da Segurança Pública do estado, não são dados pessoais. Vai continuar da mesma maneira que vinha sendo feito. Não vai mudar nada. Eu não vou agir considerando esses dados sigilosos. Embora, a transparência desse assunto contribui para um sentimento de insegurança.

Como o senhor vislumbra o Rio Grande do Norte a partir das mudanças que serão implementadas na Segurança Pública?
Eu vislumbro um Rio Grande do Norte com algumas ações que vem em andamento, como a contratação de novos policiais, sejam militares ou civis, e até mesmo técnicos do Itep. Esse trabalho levará quase todo o ano de 2017 para que esses novos policiais estejam à disposição. Eu vejo a atuação das forças policiais iniciando a atuar nessa nova filosofia. 

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