“Ser ou não ser, eis a questão”

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
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João Maria de Lima
Professor

Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. 1Jo 5,7

A frase que dá título a este texto vem da peça A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, e é frequentemente usada como fundo filosófico. Sem dúvida alguma, é uma das mais famosas frases da literatura mundial. Contudo, preferi usá-la em uma referência ao emprego ou não do verbo “ser”, principalmente com o objetivo de comentar as pequenas nuances desse que é, para mim, o mais rico dos verbos do ponto de vista gramatical.

Alguém disse, há mais de um século, que a gramática é um sistema de ciladas. Luis Fernando Verissimo (assim mesmo sem acentos) escreveu que “a gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”. Como se vê, não é de hoje que as normas gramaticais aparecem no caminho de quem escreve. É claro que ser bom escritor não está relacionado, apenas, a dominar as regras de gramática. Se assim fosse, filólogos e gramáticos seriam os melhores do mundo.

Há uma regra no português que diz: o verbo concorda com o sujeito em pessoa e número. Mas, na gramática como na vida, nem todos são iguais perante a lei. É o caso do verbo “ser”, que nos confunde a cabeça, desclassifica candidatos em concurso e zomba de muita gente. Antes que ele nos surpreenda mais, vejamos algumas curiosidades a seu respeito.

Talvez um dos maiores deslizes gramaticais ocorra com as expressões é bom, é necessário, é proibido, é preciso, é suficiente. Elas têm características bem específicas. Todo o cuidado é pouco. Que o diga determinada autoridade local, a qual, em entrevista, avaliando a ocupação dos leitos dos hospitais, concluiu: “Os 100% é insuficiente para atender...”. 

Diz a regra que, se o sujeito dá a ideia de preço, peso, medida, valor ou quantidade, o verbo fica no singular, concordando com o predicativo (Quinhentos gramas de azeitona é muito; Vinte e duas horas seria o tempo necessário). Então, a autoridade acertou? Não. Caiu na armadilha. A frase tem outra característica: o numeral está acompanhado de modificador (os 100%). Quando isso ocorre, o verbo se torna igual aos demais e concorda com o sujeito. 

Assim, haveria duas formas de dizer: “100% é insuficiente” ou “Os 100% são insuficientes”. Fica o lembrete: sempre que for usar “é (in)suficiente”, pense: o sujeito está determinado (acompanhado de artigo ou qualquer determinativo plural)? Verbo no plural. Não está? Verbo no singular.

Isso vale, também, para as amiguinhas “é bom” “é necessário”, “é proibido”: “A caminhada de manhã é boa”, mas “Caminhada de manhã é bom”. “Seria necessária a revisão no texto, mas “Seria necessário revisão no texto”; “É proibida a entrada”, mas “É proibido entrada”.

O verbo “ser” parece não ter se esquecido desta advertência de Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui”. Então vamos a mais algumas peculiaridades: quando se usam pronomes pessoais do caso reto (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) como sujeito, o verbo sempre concorda com eles: “Ele é os pilares da casa”. “O advogado és tu”. Se, na frase, houver dois pronomes pessoais do caso reto, a concordância será feita com o primeiro: “Eles não são nós, e nós não somos eles”. 

Outra mais: se o sujeito se referir a coisas ou objetos, o verbo “ser” concorda, de preferência, com o predicativo. É por isso que está harmoniosa a concordância em Provérbios 17,6: “A coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais.

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