A seresta de Fagner

Publicação: 2021-01-15 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

No ano passado, o cantor e compositor Raimundo Fagner fez duas “lives” nas redes sociais, uma em abril e outra em julho, seguindo a tendência forçada pela pandemia que transformou em virtual a relação de todos os artistas com o público. Em dezembro, ele voltou solene, resgatando o passado do rádio num disco da gravadora Biscoito Fino, cantando clássicos dos tempos das serestas e também fazendo uma viagem de volta aos anos das suas puberdade e juventude.

Serenata (o título do disco) é uma maquininha do tempo, inclusive dividida em 12 faixas como na velha ortodoxia dos LPs de vinil de antigamente. Um fã de Fagner, que conheça um pouco da sua carreira, ao ouvir as canções inevitavelmente viaja na trajetória do astro cearense e também nos anos dourados do rádio, de quando o menino Fagner ia nas coxias dos programas de calouros ouvir cantores de serestas e tinha dentro de casa o seu cantor íntimo.

Seu irmão Fares Lopes compõe o grupo de figuras influentes que o levaram a mergulhar e brilhar no universo musical. Além do mano seresteiro, ainda tinha como vizinho Evaldo Gouveia, uma lenda do cancioneiro popular e romântico.

Foi ouvindo a dupla e os grandes nomes nacionais que visitavam Fortaleza que Fagner foi tomando gosto pela música. Aliás, o disco é uma homenagem a Fares e por tabela a Evaldo, que faleceu em maio de 2020, aos 91 anos, de Covid-19.

Nos primeiros anos da carreira, além de ter no irmão uma referência, Fagner dedicava uma reverência quase religiosa a Fares e ao pai. Por mais que ganhasse festivais, seu diapasão estava nos dois, a opinião deles pesava mais.

O disco Serenata é como uma volta pra casa, num percurso bem marcado e compassado, onde cada canção escolhida funciona como um GPS afetivo, apontando os caminhos trilhados há exatos 50 anos desde o primeiro compacto.

A viagem inicia num dueto unindo mundos paralelos, sua voz e a de Nelson Gonçalves, trazida de 1991 pela tecnologia, cantando Serenata, a dolente parceria de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. O primeiro frequentou a sua casa.

O velho Nelson retira-se ao infinito e passa a ouvir, na companhia de Evaldo Gouveia e seu José Fares (pai de Fagner) a seresta solo do cantor até a última faixa. Voz e violão em sincronia com todas as saudades que podem caber ali.

Em Lábios que Beijei, clássico de 1937 que consagrou no Brasil o reinado radiofônico de Orlando Silva, Fagner começa a mergulhar no tempo, e emenda com Malandrinha, obra-prima de Freire Junior dimensionada por Francisco Alves.

Depois repete a viagem já feita em 1978 no LP “Eu Canto” e despetala o coração da gente com As Rosas não Falam, um hino do mestre Cartola ao amor. Para este colunista impossível não sentir a presença materna com a canção Maringá.

Ah, seresteiro Seu Raimundo, quando minha mãe cantarolava Maringá diante de uma plateia de louças, nada eu sabia do autor Joubert de Carvalho. A canção seguinte, Noite Cheia de Estrelas, é uma marca registrada dos velhos seresteiros.

No meio da viagem e do disco, vem Serenata do Adeus, de Vinícius de Moraes, e se abre uma fenda atemporal com A Deusa da Minha Rua, um culto a Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Cauby e outros intérpretes da obra.

A faixa 9 é digna de comentários nas rodas de fãs em Orós, Campina Grande ou em São Miguel; todos a dizer “véio corajoso é Raimundo”. Não é fácil cantar Rosa, a canção sem fôlego de Pixinguinha, mas, o que dizer? O cara é Fagner!

E ele segue na valsa, ou melhor, na Valsinha de Chico Buarque, o poema que é uma ode ao amor das fábulas. Quando a gente já flutua em sétimo céu, ele nos joga no Chão de Estrelas, a apoteose da seresta, eterna obra de Sílvio e Orestes.

A faixa 12 é ele próprio pedindo o bis, o destino da viagem de volta, o passado lhe acenando a carreira por seguir. Mucuripe, a gênese dele e Belchior, que lhe ascendeu em Brasília, que Elis Regina lançou no país. E no fim, as vozes todas com ele em serenata.

Créditos: Divulgação

Empregos
Empresários e agentes de um dos maiores setores de geração de emprego e renda do País, o de eventos, aproveita a crise da Ford para comparar as consequências sociais. E indagam num banner: “Mas quem liga para isso?”

Prejuízos
É impossível discordar do alerta do pessoal de eventos, até porque – como escrevi ontem – a crise da Ford é coisa velha e que já sabíamos. Bastam as turnês de Gusttavo Lima, Safadão e Anitta para superarem em tudo a Ford.

Caminhoneiros
"A pandemia nunca foi problema. A categoria trabalhou pra cima e pra baixo na pandemia. Muitos caminhoneiros ficaram com fome na estrada, com os restaurantes fechados, mas nunca pararam". Roberto Stringasci, líder do setor.

Facultativo
Os governadores de Minas Gerais e Goiás, respectivamente Romeu Zema e Ronaldo Caiado, assinaram decreto contra a obrigatoriedade da vacinação de Covid-19. Afinal, os vacinados não serão contagiados pelos não-vacinados.

O tesoureiro
O ministro Lewandowski, que já salvou Dilma da inelegibilidade e concedeu a Lula o direito de acesso às mensagens de hackers na Lava Jato, não permitiu que o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari, tivesse o mesmo direito do chefão.

Força dos livros
Semelhança entre divergentes: “Qualquer homem substancialmente culto sabe que as leituras particulares ensinam muito mais que o currículo escolar, mesmo de alto nível” (Olavo de Carvalho). “Ler é melhor do que estudar” (Ziraldo).







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