A solenidade de Corpus Christi

Publicação: 2019-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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João Medeiros Filho
Padre

Na próxima quinta-feira, celebra-se a festividade do Corpo de Cristo, o alimento espiritual que nos une e fortalece. “Eu sou o Pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), dissera o Mestre. A solenidade foi instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de Setembro de 1264, com o objetivo de proclamar a grandeza do mistério da Eucaristia. Esta é o sustento de nossa fé e caminhada. Esse sacramento é um modo de Jesus permanecer junto de seus irmãos. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). A presença de amigos é fundamental em nossa existência. Ninguém gosta de caminhar sozinho. É monótono e triste. Na trajetória, o diálogo é de suma importância. Por isso, Cristo legou-nos esse memorial, sinal de sua companhia. “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Não queria que padecêssemos de solidão. Por isso, fez-se Pão e permanência. Na Eucaristia comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, de forma mística sua humanidade e divindade. A vida que Deus idealizou para cada um de nós é fortalecida com o Pão Celeste, preparado pelo Pai para os seus filhos. A Eucaristia é antecipação da Eternidade, celebração do imenso banquete e encontro da família de Deus. Este deseja que possamos antegozar o definitivo de nossa história, ou seja, o abraço incessante do Criador com as criaturas. No mistério eucarístico temos Deus em Jesus atenuando as saudades de nossas origens e nossa pátria definitiva.

Mas, segundo a doutrina católica, na comunhão não tomamos apenas o Corpo e o Sangue de Cristo. Entramos também em união com toda a sua doutrina, seu pensar e mandamentos. Não existe um Cristo dividido ou separado. Comunga realmente quem está disposto a alimentar-se do Evangelho do Senhor, a aceitar plenamente sua divindade, a necessidade de compreensão, verdade, perdão, amor, justiça e liberdade. O Brasil, que se diz cristão, está bem distante – especialmente nos dias atuais – dessa realidade.  Recebendo Cristo, não podemos aceitar aquilo que Ele condenou: a discriminação, a fome, a miséria, o abandono dos inocentes, idosos e doentes, a indiferença, a mentira, o egoísmo, o radicalismo e ódio. Junto com o sacrifício da cruz, a comunhão é o gesto supremo de amor de nosso Salvador. Assim sendo, ela convida-nos a partilhar nossa vida e nosso amor. Eis um dos simbolismos do partir o Pão (“fractio panis”) na missa, em que o Filho de Deus dá provas de sua doação para conosco.

A Eucaristia é o sacramento da unidade. Cristo reuniu em seu corpo, gerado no seio de Maria, a humanidade inteira. Desta forma, comungar é também se unir a todos aqueles que aceitam e vivem o pensamento e a doutrina do Senhor. A Eucaristia é o Pão da unidade, da verdadeira igualdade e fraternidade. Cristo revela-se como irmão de todos: santos e pecadores, pequenos e grandes, fortes e fracos. No sacramento eucarístico Cristo dá-nos a certeza de que “Deus não faz distinção de pessoas”. (Rm 2, 21). Ali manifesta o plano de seu Pai, alimentando e unindo a todos com o seu amor, na caminhada da esperança e da fé. A Eucaristia é a presença permanente da solidariedade de um Deus, da ternura de um Pai, que nos envia um Irmão, pois Este dialoga com maior proximidade com os outros filhos. O mistério eucarístico é Deus nos dizendo: eu amo todos, quero alimentá-los, “pois quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). Na Eucaristia Deus espera por nós. É o abraço divino a nós reservado e antecipado, o beijo carinhoso de um Pai discreto e bondoso, que vem silenciosamente para dizer que nos ama e perdoa. A Eucaristia é o sacramento da realidade celestial. Num paradoxo é a perenidade no tempo da encarnação do Filho de Deus, que quis estar unido à humanidade, mostrando que ela tem valor eterno. Não importam nossos pecados e limitações, pois Deus nos perfilhou por ato de misericórdia e clemência, fruto de sua incomensurável gratuidade. A Eucaristia é a resposta para o Brasil de hoje, desnorteado e dividido, abandonando – quem sabe – suas origens e vocação!




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