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Brasil
"A solução é um novo plano de erradicação"
Publicado: 00:00:00 - 21/02/2016 Atualizado: 12:54:57 - 20/02/2016
Entrevista - Jaime Calado
Médico sanitarista

Marcelo Filho

Repórter

O Brasil está em alerta. E não se trata de uma guerra, de terrorismo ou de desastres naturais. O responsável é um inimigo pequeno e quase imperceptível, que já saiu de cena por duas ocasiões no país: em 1958 e em 1973. O Aedes aegypti, nos últimos quarenta anos, é um inseparável, e indesejável, elemento das grandes urbes. Como se não bastasse transmitir a dengue, trouxe também a chikungunya, a febre amarela, quatro tipos de dengue e a zika. Esta última com relação comprovada em casos de microcefalia em recém-nascidos. E ainda há a desconfiança de que ele é capaz de muito mais.
Coordenador do plano de combate ao mosquito em 1995 considera errada estratégia de controle do Aedes e diz que situação tende a piorar
As três esferas de governo passaram a concentrar esforços para conter a proliferação e a epidemia das doenças transmitidas pelo mosquito. Entretanto, o discurso e ações voltadas à eliminação do Aedes é proporcional ao número de casos de pessoas infectadas, que superlotam os hospitais e angustia as pessoas. Sem falar na falta de consciência individual, em que os focos de criação do mosquito podem ser localizados com facilidade.

Para falar sobre o assunto, a  TRIBUNA DO NORTE entrevistou o  médico sanitarista Jaime Calado, que durante a gestão do ministro da Saúde, Adib Jatene, elaborou, em 1995, um plano para erradicação do mosquito. “Com essa estratégia  de controle não vai resolver nunca. O único país em que o controle funciona são os Estados Unidos. E não é porque as autoridades americanas sejam melhores do que as nossas, mas pelo clima, que ajuda.”

O senhor concorda com a atual política de enfrentamento do mosquito?
Está errada. Todos os profissionais sabem que não vai solucionar. A erradicação tem que ser uma iniciativa federal, pois o mosquito está em todos os estados. O plano está lá em Brasília. O que eu aconselho desde aquele tempo é que o governo, Ministério da Saúde, atualize o plano, porque o Brasil mudou muito nesses anos. Os cientistas brasileiros estão aí, são da melhor qualidade, eles podem, perfeitamente, adequar aos dias de hoje. O plano envolve nove ministérios, não é um plano só da saúde porque há muitos fatores para esse combate. Mas envolve, principalmente, o cidadão. 90% dos focos são dentro de casa, da entrada até o quintal.

As medidas de enfrentamento ao mosquito Aedes aegypti são eficazes?
O que eu dizia e repito, com essa estratégia que tem aí de controle não vai resolver nunca. Nunca resolveu. O único país em que o controle funciona é nos Estados Unidos. E não é porque as autoridades americanas sejam melhores do que as nossas. É porque o clima ajuda. Em 12 estados norte-americanos tem clima tropical. Quando chega o verão que o mosquito aumenta a população, chega na fase adulta, começa a transmitir, o inverno  rigoroso, quando chega, mata toda a população do mosquito. O que é o controle? É você manter uma vigilância sobre a proliferação do mosquito de forma que, em cada 100 casas, não tenha mais de duas que tenha foco do mosquito. Estatisticamente está provado que não há transmissão. Acontece que o mosquito, no nosso clima, leva 15 dias para passar de ovo para a fase adulta. Outra coisa, a fêmea, que transmite as doenças e deposita os ovos, voa até 300 metros do foco em média. Vai até mais, dependendo da direção do vento. Então, por exemplo, você tem um município separado do outro, como temos no caso da Região Metropolitana de Natal, por uma rua, se um município cuidar muito bem e o vizinho não, ele não tem como se livrar. Além do que, gente que mora em um município e trabalha em outro, o mosquito pode picar a pessoa durante o trabalho e voltar para casa infectada.

Porque as medidas não são eficazes, na sua avaliação?
Não são por vários motivos. Por exemplo, o agente passa na mesma casa a cada dois meses e o mosquito leva 15 dias para se reproduzir. A não ser os Estados Unidos, nenhum país do mundo conseguiu controlar. Se ninguém controlou, então a gente está esperando o que para provar que é ineficiente? O problema não é só esse. É que naquela época, lá no mapa do plano, o mosquito estava presente em 17 estados e só havia o vírus 1 e 2 da dengue no Brasil. Hoje temos os quatro vírus e o mosquito circulando em todos os estados. Como eu dizia em 1996, 1992 e digo agora. A tendência é piorar, porque a cada dia ele vai mostrar que é capaz de transmitir outros vírus e uma coisa que não falta nesse nosso país tropical e continental é a variedade de vírus. Além do mais, com essa globalização, as fronteiras são cada vez mais abertas, tanto para pessoas quanto para doenças. A solução é um novo plano de erradicação. Como? Pega aquele que está lá no ministério e atualiza. Está escrito no plano: a informação é mais importante do que o inseticida. Porque o inseticida tem prazo de validade e a informação vai fazer com que o cidadão evite o criadouro do mosquito. Temos que acabar com os criadouros, é simples. Enquanto a população não botar na cabeça que aquele mosquito pode lhe matar, matar o vizinho, matar seu filho, matar seu neto, então não vai resolver. É um conjunto de medidas, um só não vai resolver. Temos que envolver todos os estados, todos os municípios, a mídia, a educação, as Forças Armadas.

Quais adequações poderiam ser feitas no plano elaborado quando o senhor integrava a equipe do então ministro da saúde Adib Jatene?
São muitas. O plano possui vários módulos, módulo educação, módulo mídia, módulo operações, módulo inseticida... Cada módulo daquele você adequa a hoje e isso não leva muito tempo. Os estudos que eles fizeram são muito bem feitos, é só atualizar. Eu estava vendo um dia desses, uma pessoa que foi representar o Brasil nas discussões sobre a zika chamada Jarbas Barbosa, que participou desse plano. Esse cara poderia tomar de conta com toda a competência. Retomando isso ele ganharia um tempo danado. Agora, isso precisa de investimento, porque saúde é cara, e vontade política. Há um erro, e a mídia está consertando isso, que é mostrar a responsabilidade de todos os cidadãos. Eu diria que 90% da responsabilidade é do cidadão porque a maioria dos focos está dentro de casas, e 100% das vítimas estão também  dentro de casa. Sem a participação do poder público não há como erradicar, mas também sem o cidadão não dá nem pra pensar em erradicar. A responsabilidade é de todos nós. Tudo que a gente fizer tem que ser no sentido de acabar água parada, tampar as caixas. Tudo para impedir a reprodução do mosquito. Só há três elementos na transmissão: o hospedeiro, que é o homem, o transmissor, que é o mosquito, e o vírus. Qual o elo mais fraco? É o mosquito. E já sabemos de tudo dele, quantos dias ele sobrevive, os hábitos... É só tomar as medidas para acabar com os criadouros.

Na atual situação, cabe priorizar a informação ou as ações práticas imediatas?
Todas as ações são válidas. Nós estamos em uma epidemia. Epidemia é uma emergência. A epidemia é um fracasso das medidas preventivas, porque elas não funcionaram. Agora, vale tudo. Tem que ter a informação, tem que ter a operação, o inseticida, não pode faltar nada. Agora, isso vai resolver? Não vai. Isso pode acabar com a epidemia mas não com o mosquito. Para resolver de vez, tem que ter um plano nacional de erradicação do Aedes. O Brasil foi o primeiro país do mundo a erradicar o mosquito.

Há diferença nos mecanismos de combate ao mosquito em cidades de pequena, média e grande porte?
Há sim. Cada cidade tem suas peculiaridades, mas tudo se resume em eliminar os criadouros.

O senhor tem conhecimento de pesquisas a respeito de novas formas de transmissão ou de resistência do Aedes aegypti?
Eu não sou pesquisador, mas conversei com alguns, como a Dra. Amélia Paes de Andrade, de Belém do Pará, que já descobriu vários vírus. Ela me disse que o Aedes pode transmitir 15 vírus. Atualmente, já temos sete conhecidos - quatro tipos de dengue, febre amarela, chikungunya e zika. Acredito que o mosquito esteja transmitindo outros. Agora, a ciência é muito materialista. Para se afirmar alguma coisa tem que provar em laboratório. “Eu acho” é em outras áreas. Na área científica, para afirmar algo, tem que ter casuística. 

Em 2002, o senhor participou, junto de outros médicos sanitaristas, do 1º Fórum Nacional sobre a Dengue, no Rio de Janeiro, onde foi redigida a “Carta do Rio”, que continha planos de ações para erradicar o Aedes aegypti. Seria a hora de reeditar uma nova “Carta do Rio” ou a antiga ainda continua valendo?
Continua valendo tanto a carta quanto o plano. Eu não sou o dono da verdade, pode até ter outra forma que eu não conheça. Mas tem uma forma que todo estudioso da área conhece. A única forma é um plano de erradicação do Aedes aegypti no Brasil. Em seguida, como também defendemos, um plano de erradicação continental, ou seja, todo o continente americano. Nós estamos falando de uma coisa que já funcionou. Não estou vislumbrando uma coisa que pode ser, mas sim uma medida exequível, que o Brasil realizou em situação mais difícil. Temos conhecimento científico, nossos cientistas são os melhores do mundo. Quem diz isso não sou eu, é o mundo inteiro que reconhece essa expertise. Então, temos todas as condições de implantar um plano de erradicação no Brasil e dá certo.

Quem
Jaime Calado dos Santos, médico sanitarista, graduado pela UFRN, com pós-graduação em saúde pública e em administração hospitalar pela Fundação São Camilo, em São Paulo. Passou pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e atualmente é prefeito de São Gonçalo do Amarante.


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