A travessia literária de Luís Romano

Publicação: 2018-02-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter do Viver

Natal foi morada de um escritor de renome internacional, o romancista, poeta e folclorista Luís Romano de Madeira Melo, um dos autores mais importantes da literatura cabo-verdiana. Foi na capital potiguar, em 1962, que ele encontrou semelhanças agradáveis com Cabo Verde, de onde fugiu perseguido por encampar o movimento pela independência do país. Em Natal publicou a maior parte de sua obra, até falecer em 2010, deixando um acervo de mais de 1700 livros, além de manuscritos e textos inéditos.

Luís Romano encontrou no no RN semelhanças com sua terra Cabo Verde, de onde fugiu em 1962, por razões políticas: perseguido por participar de movimento pela independência
Luís Romano encontrou no no RN semelhanças com sua terra Cabo Verde, de onde fugiu em 1962, por razões políticas: perseguido por participar de movimento pela independência

Depois de 7 anos parado, sem qualquer interesse local pelo material, o acervo de Luís Romano ganhou um destino: será transferido para Cabo Verde, onde integrará à Biblioteca Nacional do país. O material foi despachado ontem (5), com registro do fotógrafo e documentarista Marcelo Buainain, que está produzindo um documentário sobre o escritor, cujo um pequeno apanhado será disponibilizado na internet em breve.

O acervo estava armazenado no Instituto Macaíba, sob os cuidados da professora Simone Caputo, que ensina Literatura Cabo-verdiana na USP. Ela foi nomeada como curadora do material pela filha do escritor, Teresa Melo. Depois de visitar o acervo, limpar e catalogar as obras, Simone sugeriu a doação do material para o país de origem do escritor, onde poderia ser usufruído pela população local.

“O acervo de Luís Romano é rico em obras de autores de cabo-verdianos, portugueses e brasileiros. Seria maravilhoso para os meus alunos ter acesso a esse material. Mas também seria egoísta da nossa parte querer ficar com algo tão precioso para Cabo Verde. Conversei com a filha do escritor e ela aprovou a ideia de doar para a Biblioteca Nacional de lá”, diz por telefone a professora.

Com Câmara Cascudo, seu amigo e autor do primeiro prefácio
Com Câmara Cascudo, seu amigo e autor do primeiro prefácio

Simone informa, no entanto, que os manuscritos e textos datilografados ainda não foram enviados porque estão sendo analisados em São Paulo. “Estamos trabalhando em cima desse material. Luís Romano deixou muitas coisas inéditas e há diversas editoras africanas interessadas em publicar”, conta a professora. Dos materiais inéditos, ela diz que Luís Romano deixou escritos de poesia e ficção, além de estudos sobre o Brasil. Sobre o Rio Grande do Norte, Estado onde viveu quase 50 anos, ele desenvolveu pesquisas sobre o vocabulário e costumes locais, nos moldes do que realizou sobre a cultura cabo-verdiana. “Mas é prematuro detalhar o material inédito de Luís Romano. Ainda há muito para ser analisado”, ressalta  a professora.

Em Natal, um dos grandes amigos de Luís Romano foi o xará Luís da Câmara Cascudo. Foi do potiguar o prefácio da primeira edição do romance “Famintos” (1962), livro mais conhecido do cabo-verdiano. A obra retrata a extrema situação de miséria que o povo de Cabo Verde vivia no período em que foi colônia de uma Portugal Salazarista. “'Famintos' é um livro fundamental da Literatura de Cabo Verde. Chega a ser rude pelo modo ultra realista que o autor aborda a violenta ditadura de Portugal sobre o país”, comenta Simone.

Coube a Simone a responsabilidade de publicar o primeiro livro póstumo de Luís Romano: “Comentários Literoverdianos”. A obra, com 500 páginas, reúne trabalhos sobre a história da literatura cabo-verdiana e foi entregue à professora pelo próprio autor antes de falecer. O lançamento será no dia 16 de fevereiro, em Cabo Verde, um dia depois da chegada do acervo do escritor. “Luís Romano é um autor que ficou esquecido no país dele. Passou muito tempo fora. Embora seja um nome conhecido e tido como importante, precisa que sua obra volte a circular em Cabo Verde”, afirma a professora.

Buainain conheceu Romano através de um amigo. A vida fascinante do escritor motivou-o a gravar série de entrevistas
Buainain conheceu Romano através de um amigo. A vida fascinante do escritor motivou-o a gravar série de entrevistas

Documentário
Há 10 anos, o fotógrafo e documentarista Marcelo Buainain recebeu um amigo de Cabo Verde. Dentre a programação na capital potiguar estava marcada uma visita ao escritor Luís Romano, que na época Buainain desconhecia. Topou ir com o amigo. Na conversa com Romano, ficou fascinado com a história dele e de cara veio a ideia de produzir um documentário sobre o escritor.

Buainain fez uma série de visitas a casa Luís Romano, na avenida Afonso Pena, chegando a gravar dez horas de entrevista. “Ele era um homem muito inteligente, culto, falava vários idiomas. Peguei-o bastante debilitado de fala e audição. Nossas conversas giraram mais em torno dos livros, em especial sua obra mais famosa, 'Faminto'”, diz o documentarista. “É um livro bastante indigesto. Em alguns momentos ele descreve quadros de miséria extrema. Gente que come às próprias fezes para preencher o estômago. Um porco faminto que come uma a filha de uma mulher. Na conversa ele falou bastante sobre o que envolve o livro e sobre Cabo Verde”, detalha Buainain, que registrou a partida do navio que levará o acervo do escritor para Cabo Verde. “A ida desse acervo representa o rompimento dele com o RN”.

Sobre o fato de Luís Romano não ser um nome conhecido nos círculos literários de Natal, Buainain acredita que se deve ao fato do escritor ser bastante reservado. “Pelo que me contaram ele teve uma vida muito discreta. Talvez por ser um imigrante, acabou não se envolvendo muito com os escritores daqui. Mas foi próximo de Cascudo, Sanderson Negreiros, foi vizinho de Vicente Serejo”, diz o documentarista.

“Tive algumas dificuldades com o jeito dele. Era muito sarcástico e irônico. Seu humor era uma mistura de muitas coisas. Para você ter uma ideia, ele tinha uma perna amputada por causa da diabetes e brincava com a própria situação. Dizia ter algo que poucas pessoas tinham: uma perna faltando”, conta Buainain, que também presenciou momentos de amabilidade. “Ele fazia uma bebida em casa, a grogue, uma cachaça típica de Cabo Verde. Ele tocava um sino para chamar a enfermeira para que fosse servido o grogue. Ali era seu lado boêmio”.

O documentarista está trabalhando com calma todo o material gravado sobre Luís Romano. Recentemente ele convidou o fotógrafo Giovanni Sérgio para ajudar do projeto. A ideia é lançar o documentário em 2022, ano do centenário de nascimento do escritor. “Comecei esse trabalho sozinho, de forma independente. Mas para viabilizar melhor a produção do filme, estou tentando uma co-produção com Portugal e Cabo Verde. É um autor importante de língua portuguesa e pretendo filmar em Lisboa e Cabo Verde, lugares onde ele morou”, diz Buainain.

Nos próximos dias ele lançará um mini doc com o apanhado do que gravou até agora. O curta terá 10 minutos e será disponibilizado no Youtube. “Esse material será o primeiro passo para entrar em contato com alguns produtores de fora”, afirma.


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