A tristeza do frevo

Publicação: 2020-02-27 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: DivulgaçãoCarnavalCarnaval


Andei um tempo atracado a uma discussão sobre a tristeza do frevo. Não a aquela tristeza feroz que vai cavando abismos na carne e na alma. A outra, feita da melancolia das coisas perdidas. Como os frevos saídos dos velhos banjos do ‘Flor da Lira’, bloco de pau e corda, centenário, e que um dia segui nas ladeiras de Olinda. Como se voltasse ao tempo morto, tangido pela tristeza de letras e notas que soam como hinos às grandes saudades.

Rochinha, nosso João Mendes da Rocha, sabe dessa luta, mas nunca concordou muito. Prefere esconder a tristeza, e até negá-la. Os que argumentam citam ‘Vassourinhas’, a alegria dos clarins rasgando o ar como uma gargalhada. Ora, basta andar mais um pouco e começar a seguir os frevos mais antigos. E se deixar embriagar pelo vinho triste da saudade, lembrando ‘Mário Melo / braços para o alto / cabelos desgrenhados’. É acordar tempos imensos de vida.

Por isso gostei tanto do artigo de Marilene Felinto, na Folha de S. Paulo da terça-feira gorda: “Quão triste será que um frevo pode vir a ser?”. Foi como se o título saltasse da página e caísse dentro da alma. Marilene é um dos melhores textos deste Brasil, agora com marca própria para publicar seus livros. Como recentemente, com seu “Fama e infâmia - uma crítica ao jornalismo brasileiro”, assumindo denúncias em torno do que taxa de jornalismo incorreto.

Pois bem. De raízes protestantes desde a infância vivida no Recife, lembra o pesado ofício de seguir, feito expiação, o exemplo de Jó - ‘a perseverança na dor e no flagelo’. A menina, de dentro de casa, olhava na rua o retrato fiel do purgatório que parecia uma espécie de dádiva, “invejável alívio ao pecado, uma segunda chance, uma leveza à religião católica”, enquanto para os ‘crentes’ os mesmos dias de carnaval eram de rezas graves e tristíssimas.  

Confesso que fiquei muito satisfeito comigo mesmo. Então não é de tão poucos, e só dos sem riqueza, o gosto melancólico e perfumado dos lança-perfumes que meu pai, no tempo melhor, chegava com uma caixa. Aquele perfume hoje acordaria todas as coisas perdidas que não voltam mais. Por isso os frevos se transformaram em trilhas sonoras, talvez canções, quem sabe hinos, ainda que a infância nem sempre tenha sido tão inesquecível e docemente feliz.

Depois de tantos anos, Marilene confessa que o pecado imposto ao carnaval acabou em ódio às duas religiões. Como acreditar – recorda - na mentira do purgatório e, pior, no pecado do sangue de Cristo a escorrer das mãos do pastor? Mesmo assim, e porque a tristeza venceu, ela lembra que o frevo passava contando que o “Recife adormecia, ficava a sonhar, ao som da triste melodia”. E ainda se despedia: “Adeus, adeus, minha gente”. Para nunca mais...

CARA - Dia 15 de março o tal novo Brasil vai mostrar a cara: impeachment de Jair Bolsonaro é golpe. Incontestável. Contra Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, eles também eleitos, é legal.

ALIÁS - Seria gravíssimo, numa democracia de verdade, um presidente partilhar convocação de manifestação contra o Supremo e o Congresso. Na democracia brasileira há quem defenda. 

FEIO - Neste carnaval venceu a rima maldita: faltou insulina e sobrou serpentina. Que o diga o MP que lutou muito para o poder público não deixar que os diabéticos ficassem à mingua.

LONGE - O presidente Jair Bolsonaro é um vitorioso nas suas excentricidades. Foi tema de carro alegórico na Alemanha. Com seu boneco ao lado de árvores e brasileiros carbonizados.

MÚSICA - Leide Câmara, da ANL, e o Grupo Águas Claras Ópera, iniciam 6 de março, 18h, na Academia, os recitais homenageando nomes da história musical do Rio Grande do Norte. 

NOMES - O primeiro concerto vai ser sobre Waldemar de Almeida e Oswaldo de Souza e  palestra do acadêmico Carlos Gomes. Projeto conta com o apoio da Fundação José Augusto.

LIÇÃO - Humorista Marcelo Adnet, coautor do samba-enredo da S. Clemente, na resistência, em entrevista na Folha de S. Paulo: “A imprensa não foi feita para passar a mão na cabeça”. 

VAZIO - Abre-se mais um vazio na Av. Afonso Pena com o fechamento do ‘Douce France’. Depois de 22 anos Natal perde a mesa e a lhaneza de Alberto Cícero, seu mestre de cerimônia.

LUTA - Virão discussões em torno da área do alto da encosta de Ponta Negra que hoje, sem edificação elevada, garante a visão do Morro do Careca. E desta vez a questão é saber até que ponto alguém vai defender fechar a visão do maior ícone paisagístico. Tem gente que vai.

IDEIA - Mas há, na Câmara, quem defenda edificações de um ou dois andares, a depender da cota do terreno na parte baixa, e com a construção de um Belvedere no nível da avenida. Uma solução que nem proíbe totalmente, nem fecha o que chamam de o cartão postal de Natal.

PRESSÕES - Os vereadores enfrentarão pressões de algumas entidades quando a proposta do Plano Diretor chegar ao plenário. A verticalização é inevitável, mas que as discussões sejam equilibradas. A lei não pode atrofiar a cidade nem privá-la dos traços marcantes. Eis o ponto.




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