‘TSE deve julgar Dilma e convocar nova eleição’

Publicação: 2016-06-23 00:00:00
A ex-ministra Marina Silva defende que o caminho para o país superar a crise política é a convocação de novas eleições para presidente ainda neste ano. Marina, que atualmente lidera o partido Rede Sustentabilidade, afirma que o Tribunal Superior Eleitoral precisa julgar o processo que envolve as  candidaturas de Dilma Rousseff/Michel Temer e, confirmadas as denúncia de que houve irregularidades na arrecadação de campanha por parte da então candidata a presidente, cassar a chapa, o que se for ainda em 2016, implicaria na volta do eleitor às urnas neste ano.
Ex-ministra defende que os eleitores voltem às urnas ainda este ano para escolher o presidente da República
A defesa de nova eleição foi feita por Marina Silva ontem, em Natal, durante entrevista que ela concedeu momentos antes de participar  do lançamento do pré-candidato a prefeito de Natal pela Rede de Francisco Raimundo Freitas. Hoje de manhã ela vai a Touros, participar do lançamento da pré-candidatura a prefeito do advogado Alisson Rocha Leal. No Sindicato da Polícia Civil, a ex-ministra do Meio Ambiente no governo Lula falou à TRIBUNA DO NORTE sobre a organização do partido Rede Sustentabilidade e também disse que as investigações relacionadas à campanha presidencial do PSB em 2014 nada tem de irregularidade.

O que vem a ser a Rede Sustentabilidade?
Estamos fazendo esse trabalho no país inteiro, que é de dupla função: Organização de um partido que tem apenas nove meses de registro na Justiça Eleitoral, com o processo de formação dos filiados e constituição de comissões provisórias e diretórios municipais; ao mesmo tempo em que apresentamos uma contribuição efetiva neste momento de profunda crise da política, em que há um profundo descrédito em relação a participação no processo político. É muito difícil criar um partido no momento da pior crise política que o nosso país está vivendo. Mas é nesse contexto que estamos nos constituindo, o que pode ser também uma grande oportunidade. Dizem que sábios são os que aprendem com os erros dos outros, estúpidos são os que não aprendem nem com seus próprios erros. Nós temos a felicidade de termos apenas nove meses, portanto nos é dada a oportunidade de aprender com os erros dos outros, mas ao mesmo tempo é um grande desafio, porque é um momento de profunda crise. A Rede é um experimento novo, que está acontecendo no Brasil e esse esforço se soma à luta de criação de novos partidos e de novo tipo no mundo inteiro.

Há possibilidade de conquistar eleitores nesta conjuntura de crise?
É uma safra nova de partidos que tentam dialogar com aquilo que nós chamamos de novo sujeito político que está surgindo no Brasil e no mundo. Antes nós tínhamos toda militância política articulada em torno daquilo que eu chamo de ativismo dirigido pelos partidos, sindicatos, ONGs, centrais sindicais, líderes carismáticos. Mas hoje está surgindo de fato um novo sujeito político, que ainda não tem o seu equivalente em termos de lideranças consolidadas, não tem as estruturas partidárias organizativas e esses esforços de criação de novos partidos é uma tentativa e experimento de como dialogar com esse novo sujeito político, que já não quer mais ser expectador, mas ser ser mobilizador, autor e protagonista dos processos. É este trabalho que está sendo feito e nosso cálculo não é puramente eleitoral, nossa métrica não é eleitoral. Nossa escolha é programática, não é pragmática. Nós vamos ter candidaturas que forem compatíveis com esse processo de criação e construção qualitativa de uma nova proposta política, da mesma forma que a constituição da bancada da Rede no Congresso Nacional, onde temos um senador e quatro deputados federais.

A senhora será mesmo candidata a presidente?
Com toda legitimidade da pergunta, afinal de contas fui candidata duas vezes (2010 e 2014), e é legítimo que a população queira saber, tenho respondido exatamente aquilo é a verdade: Ainda não sei se serei candidata novamente. Já contribui com o debate no Brasil e na primeira vez dizia que era fundamental que o país fizesse um realinhamento político, quebrando a polarização PT x PSDB, porque aquela lógica de oposição e situação cegas ia levar o Brasil para o buraco, porque a situação cega só vê virtudes, mesmo quando existem problemas evidentes, como é o caso do “Petrolão”; e a oposição cega só vê defeitos, mesmo quando existem coisas boas, como é o caso do Bolsa Família. Isso não ajudava o país e corríamos o risco de perder o que havíamos conquistado a duras penas, que era a nossa democracia, a estabilidade econômica, a inclusão social em função do atraso na política. Eu dizia isso em 2010 e parecia que era um ET falando. Em 2014, novamente disse: “Se não mudarmos, vamos ser mudados”. Existiam indicadores dizendo: “Mudem ou vocês serão mudados”. Obviamente, meu objetivo é contribuir é contribuir para o Brasil ser um país melhor de se viver e a única coisa que sei é que estamos vivendo o pior momento da história do país com profunda crise econômica e política, uma grave crise social e arriscando até a nossa estabilidade institucional. É por isso que tenho defendido: Não adianta atalhos e imaginar que vai pegar uma rota de fuga. É preciso ter plano de vôo seguro, que, no meu entendimento, seria o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgar as denúncias de que o dinheiro do “Petrolão” fraudou as eleições e se ficar comprovado que de fato houve essa fraude, cassar a chapa Dilma Rousseff/Michel Temer e convocar uma nova eleição para, com base na verdade, que agora não pode mais ser escondida, estabelecermos uma nova transição, porque PT e PMDB são faces de uma mesma moeda.

Como a senhora avalia a hipótese de uma emenda constitucional para antecipação da eleição presidencial?
Em primeiro lugar, é fundamental que qualquer saída para essa crise tenha como marca o caminho da Constituição Federal, que pode ser o impeachment ou renúncia. A emenda à Constituição padece de suporte constitucional, porque não se muda as regras do jogo durante o jogo. É impeachment, renúncia ou cassação pelo TSE. No meu entendimento, o melhor caminho seria o TSE devolver para os 200 milhões de brasileiros a possibilidade de repactuar as relações da sociedade com seus dirigentes máximos.

Como a senhora analisa a investigação sobre um suposto esquema de caixa dois na sua campanha eleitoral?
Em primeiro lugar não foi na minha campanha. Todas as contas da minha campanha acontecem após a morte de Eduardo Campos. Na pré-campanha, quando fui apoiar Campos, já existia uma estrutura sobre a qual eu não tenho como ser responsabilizada. Após a formalização da chapa, existiam as contas de Eduardo Campos, com  ele como candidato a presidente e eu como vice. Agora estão sendo questionadas por essas investigações. A minha campanha propriamente dita não tem qualquer questionamento, porque foi uma outra estrutura e, obviamente, que o avião não tinha a minha responsabilidade, das 122 viagens que fiz, apenas oito de carona a convite de Eduardo, foram feitas nesse avião. Todas as demais foram feitas em aviões de carreira e posso comprovar com toda documentação de que eu não tinha qualquer ascendência e gestão sobre o avião, que se perdeu e infelizmente, também, com a perda de Eduardo e tudo se encerra no momento da perda do avião. Eu confio inteiramente no trabalho da Justiça e da Polícia e, nesse momento, é fundamental que as investigações da Laja a Jato sejam aprofundadas. Ninguém está acima da lei e quero que o Brasil seja passado a limpo, porque a Operação Lava Jato está dando uma das maiores contribuições para esse país, já está fazendo uma espécie de reforma política na prática e se de fato desmontar toda as estruturas de corrupção que temos no país e estão sendo reveladas, se aprovarmos as dez medidas do Ministério Público para combater e prevenir a corrupção, a política vai se tornar desinteressante para quem quer fazer negócios espúrios. A política deve ser prestada como serviço. Política não é sinônimo de atenção econômica e não é sinônimo de enriquecimento ilícito. A Lava a jato tem o meu total apoio. Aqueles que pensam em me colocar na vala comum de tudo isso que está acontecendo, pensando que vou ter uma palavra de desqualificação estão redondamente enganados. A Lava a Jato está prestando um serviço que levaria décadas se fosse pelos processos normais dos governos. Eduardo não está aqui para se defender, mas devemos trazer a verdade seja ela qual for.