‘Uma cidade criativa é uma cidade que se reinventa’

Publicação: 2016-08-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Lima
Repórter


Não é uma receita de bolo, mas um estudo mostrou que cidades criativas mundo afora possuem pelo menos três características em comum: inovações, conexões e cultura. Uma das organizadores desse levantamento foi a consultora Ana Carla Fonseca Reis, convidada da 28º edição do Seminário Motores do Desenvolvimento do RN, que ocorrerá nesta segunda (29), no auditório da PGJ. Esses três elementos seriam os fertilizantes para o desenvolvimento sob uma lógica de cidade criativa. Na entrevista de hoje, Ana Carla fala também que não há resistência, no Brasil, em colocar a economia criativa como um dos propulsores, embora acredite que haja desconhecimento sobre o que é esse segmento de atividade. Além disso, ela cita uma exemplo de como uma pequena cidade portuguesa entrou para a rede mundial de cidades criativas.
DivulgaçãoAna Carla explica que ainda há resistência, no Brasil, em colocar a economia criativa como um dos propulsores do desenvolvimentoAna Carla explica que ainda há resistência, no Brasil, em colocar a economia criativa como um dos propulsores do desenvolvimento

O que é fundamental para considerar que uma cidade é criativa?
Com base em um estudo que desenvolvemos junto a 18 colegas de 13 países, identificamos que uma cidade criativa se pauta por três questões. A primeira são as inovações, em sentido amplo - das inovações sociais às de tecnologia de ponta, dependendo dos desafios e das condições da cidade. Uma cidade criativa, em essência, é uma cidade que se reinventa. A segunda são as conexões: entre público, privado e sociedade civil; entre sua história e seu desejo de futuro; entre áreas da cidade e dentre outros elementos. A terceira, por fim, é sua cultura, o que em sentido macro representa sua alma, sua identidade e em um recorte mais micro abrange também sua cena cultural, sua vida artística.

O porte populacional e financeiro da cidade influencia na aplicação desse conceito?
Embora cidades de maior parte tendam (via de regra) a ter desafios mais complexos, seu potencial de reinvenção é proporcional a esses desafios, já que criativa a rigor não é a cidade, mas sim o são seus cidadãos.

Na segunda metade do século passado, muitos conceitos que tratam de reforma urbana surgiram. Um desses é o de cidades inteligentes. O que diferencia a ideia de cidade inteligente e cidade criativa?
Uma cidade inteligente preconiza o recurso à tecnologia para benefício da cidade e de seus cidadãos. Na cidade criativa o recurso básico é a criatividade humana. A tecnologia é bem-vinda, sempre e quando não se sobreponha ao protagonista do cidadão, mas há programas e ações que não dependem de tecnologia.

Para o desenvolvimento de uma cidade criativa, o que é mais relevante: a participação do cidadão, iniciativa privada ou poder público?
Qualquer um dos três pode catalisar novos olhares de transformação, como se acendesse um palito de fósforo, para iluminar novos caminhos e possibilidades. Porém, essa luz só se converterá em longeva, perene e sustentável se os demais atores se engajarem nesse processo. Todos os processos de transformação dos quais participei ou me envolvi, tendo por pauta a lógica da cidade criativa, requereram a participação de governo, setor privado e sociedade civil.

Há resistência em se pensar o desenvolvimento da cidade a partir da economia criativa no Brasil?
Embora a economia seja apenas um dos fluxos que se desenvolvem na cidade (a cidade é muito mais do que sua economia), há uma simbiose muito potente entre economia criativa e cidade criativa, já que esta oferece um ambiente mais propício à criatividade, do qual a economia necessita. Por sua vez, com o ancoramento da economia criativa a cidade também tende a se beneficiar não apenas desses setores econômicos, como da presença e da valorização dos profissionais que trabalham neles. Não creio que no Brasil haja resistência em pensar o desenvolvimento da cidade a partir da economia criativa, mas entendo que ainda haja falta de clareza acerca do que de fato é economia criativa.

Depois das atividades econômicas relacionados ao petróleo, o turismo é o segmento mais importante da economia do Rio Grande do Norte. Como os princípios da cidade criativa podem auxiliar essa atividade econômica?
O turismo que agrega à cidade e aos cidadãos não é o comoditizado, mas o que valoriza as singularidades do território e as propostas diferenciais de suas pessoas. Nada mais em consonância do que uma cidade que se destaca por valorizar as mesmas questões.

Você conhece a experiência do bairro da Ribeira, como bairro criativo em Natal. Você a considera essa experiência exitosa?
O êxito de uma iniciativa deve ser analisado à luz dos objetivos traçados. Embora eu tenha menos envolvimento com a Ribeira do que gostaria, entendo que os objetivos que vêm pautando o bairro são os de preservação ambiental, reinserção positiva no imaginário dos cidadãos que não vivem ali e geração de novas dinâmicas econômicas. Quero crer que, ao se tornar mais visível, os natalenses em geral venham valorizando e defendendo o patrimônio que ali se encontra; que eventuais resistências a visitar o bairro estejam diminuídas e que, ao contrário, ele venha sendo incorporado no mapa afetivo dos cidadãos; e que, com o maior fluxo de pessoas, novas oportunidades de geração de emprego e renda venham sendo criativas, inclusive graças ao trabalho de algumas instituições referenciais, como a Casa da Ribeira.

Existe uma rede de cidades criativas da Unesco com mais de cem cidades em todo o mundo. Cinco delas são brasileiras. Na sua avaliação, esse número é significativo para o Brasil?
Creio que a questão de fundo é se valorizamos nossas cidades pelo que elas têm - ou seja, se nós mesmos reconhecemos seu potencial criativo e nele investimos. O projeto da rede de cidades criativas da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura] valoriza tanto o produto - o que a cidade apresenta de criativo, na categoria para a qual se postula -, quanto o processo de candidatura, a exemplo do envolvimento dos cidadãos nessa empreitada. Parece-me que, mais até do que receber ou não o título da Unesco, mas esse despertar de novos olhares do cidadão sobre sua cidade, esse trabalho conjunto envolvendo governo, privado e cidadão em defesa do que a cidade é.

Você vê alguma possibilidade de Natal ser incluída nessa lista?
Respondo convidando-o a pensar comigo a respeito. Participei há dois anos do processo de candidatura à rede da Unesco da portuguesa Idanha-a-Nova, uma cidade de poucos milhares de habitantes. Muitas pessoas ficaram surpresas pelo fato de uma cidade tão pequenina se candidatar a uma rede tão qualificada; mas a riqueza de suas tradições musicais, o empenho de sua população em mostrar suas singularidades musicais, a excelência do trabalho validado pela comunidade e a presença da música em seu dia a dia garantiu sua presença na rede. Lisboa poderia ter se candidatado, assim como o Porto, Coimbra ou Braga, em diferentes categorias? Potencialmente sim. Mas o nível de engajamento cidadão de Idanha-a-Nova a levou a dar um passo que as outras não deram. De modo que a melhor resposta para sua pergunta é outra pergunta. Você vê esse amor, esse engajamento e essa vontade do natalense de defender e projetar sua cidade no mundo, a partir do que ela é e tem de mais singular?

Autoridades no assunto descrevem como bairros degradados conseguiram capitanear projetos de cidades criativas mundo afora. Mas você tem a teoria do “bolo de chocolate”, segundo a qual esse tipo de bolo só é famoso pelo chocolate, embora os outros ingredientes sejam essenciais para ele ser o que é. Diante disso, podemos concluir que concentrar os esforços criativos de uma cidade em um só bairro é uma ideia limitadora? por quê?
Uma cidade é mais do que um conjunto de bairros isolados. Uma cidade é e sempre foi um ser vivo, um sistema de partes conectadas. Tomar a parte pelo todo - imaginar que uma cidade é criativa porque tal ou tal bairro o é - equivalera a dizer que alguém é são, porque seu fígado funciona bem. Acho que nossas cidades merecem mais do que isso.

Quem é
Economista, mestre em Administração e doutora em Urbanismo (tese pioneira em cidades criativas) pela Universidade de São Paulo (USP). Administradora Pública pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/SP), com MBA pela Fundação Dom Cabral. Liderou projetos globais em marketing e inovação para empresas multinacionais, com base na América Latina, em Milão e Londres. Autora e editora de vários livros referenciais, dentre os quais Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável. Com esse título foi vencedora da maior comenda da literatura brasileira, Prêmio Jabuti na área de economia, administração e negócios em 2007. É Sócia-Diretora da Garimpo de Soluções – economia, cultura & desenvolvimento, empresa de consultoria em economia criativa e cidades criativas. Já ofereceu seus serviços em 30 países, 169 cidades e 172 clientes.


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