“Uma cidade inteligente tem que servir ao cidadãos, não o contrário”

Publicação: 2016-08-28 00:00:00
Marcelo Lima
Repórter


A eficiência e boas práticas para o desenvolvimento falam a linguagem de qualquer cidade. É basicamente isso que o oficial internacional sênior da ONU Habitat (Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos), Alain Grimard, acredita. Amanhã, ele fará a palestra de abertura do 28º Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, às 8h, no Auditório da sede da PGJ, com o tema “Cidades inteligentes e sustentáveis: tendência mundial para soluções locais”. Nesta nova entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE, ele fala que o termo “cidade inteligente” pode nutrir sonhos de aglomerados urbanos futuristas irrealizáveis - pelo menos a curto prazo. Além disso, Grimard comenta sobre diversas redes de cidades inteligentes pelo mundo.
O oficial internacional sênior da ONU Habitat será o principal palestrante do 28º seminário Motores do Desenvolvimento do RN, que ocorrerá amanhã (29) na sede da Procuradoria Geral de Justiça
Mais recentemente, o conceito de Cidade Inteligente foi modificado. Agora, se fala com mais frequência em “Cidade Inteligente e Humana”. Para o senhor, qual é a diferença?
Há diferentes conceitos atualmente usados para definir o que é ou o que deve ser uma cidade inteligente. Mas eu acredito que nós temos olhado para esses diferentes nomes e definições mais como uma moda do que uma forma de distinguí-los ou separá-los. Existe agora um número muito grande de consultores e empresas ao redor do mundo tentando “vender” para autoridades locais a necessidade para suas cidades se tornarem “inteligentes” e outros do tipo. Na maioria das vezes, isso acontece associada a ideia de usar mais e mais dados e tecnologias. Para mim, uma cidade inteligente é uma cidade que toma as melhores decisões para desenvolver sua economia, aumentar o bem-estar dos seus cidadãos, torná-la mais equitativa e mais sustentável. Se isso é o que chamamos de “Cidade Humana”, eu concordo com essa definição mais ampla.

Existe no mundo uma rede de cidades inteligentes e humanas da ONU. Qual é a função dela?
Agora existe uma frase feita sendo dita para as cidades: “se você quer continuar competitiva (e próspera), tem que ser inteligente”. Mas acredito que o conceito de ‘cidades inteligentes’ é muito frequentemente usado como marketing político. Em ambientes onde as desigualdades são aumentadas, onde o envelhecimento populacional traz questões de gestão delicadas, onde a questão ambiental é emergente, onde a questão de novos territórios está ligada à concorrência entre as cidades, onde as influencias estão se movendo, é um termo [Cidade Inteligente] que muito frequentamente expressa um sonho, um objetivo atraente. Esse termo existe para sonhar, para alimentar a imaginação, feito as imagens dos carros voadores e histórias de teletransporte. O que nós temos que lembrar é: uma cidade inteligente tem que servir para os cidadãos, não o contrário.

A cidade de Natal teria condições de fazer parte de rede internacional? Quais aspectos credenciam Natal para ingressar nessa rede?
Com certeza. Não sei exatamente as condições, mas desde que você tenha disposição das autoridades públicas e setor privado para tornar-se um membro dessa rede especializada, isso é factível. Já existem muitas redes de cidades inteligente. Algumas são internacionais como “Rede Conectada de Cidades Inteligentes”, “Cidades Inteligentes, Abertas e Ágeis”. Algumas rede são estritamente para países europeus, como a “Cidades Inteligentes Europeias”. Alguns países estão criando agora suas prórpias redes nacionais, como o Canadá e Índia. O governo da Índia, desde 2015, está apoiando 100 cidades para se tornarem inteligentes e está colocando-as juntas para aprender umas com as outras. A vantagem de ser parte de uma rede é a velocidade de aquisição do conhecimento, aprenser sobre boas práticas, os prós e os contras para se tornar inteligente, mais sustentável. Nos últimos anos, nós temos visto no Brasil iniciativas muito boas de cidades brasileiras no sentido de se unirem a esse movimento. O mais conhecido é “SmartCity Business America Congress & Expo” [http://www.smartcitybusiness.com.br/2016pt/], que organiza grandes encontros em São Paulo, Recife, Curitiba e outras cidades. É uma iniciativa brasileira, lugar  de convergência, onde especialistas e líderes de iniciativas inovadoras e transformadoras podem intensificar contatos em alto nível, compartilhar experiências, conhecimentos, ideias, diferentes visões, soluções e casos de sucesso.

Um dos princípios que a Onu-Habitat preconiza para melhorar uma cidade é a disponibilidade de habitação com diferentes níveis de preços, em qualquer bairro, para acomodar pessoas de rendas diferentes. Hoje no Brasil, a lógica de mercado faz exatamente o contrário. Existe uma segregação entre bairro e regiões só para ricos e só para pobres. O senhor analisa que o poder público brasileiro, de modo geral, tem alguma vontade de mudar essa realidade? 
Eu poderia falar, mas não tenho acesso às estatística recentes que mostrem uma tendência em termos de mix das habitações e usos do solo no Brasil. De todo modo, a Onu Habitat gostaria de convidar todos os líderes públicos e autoridades para estar consciente da Nova Agenda Urbana que vai ser adotada no próximo mês em Quito, Equador. Essa vai ser uma grande oportunidade para todos os líderes. Esta Agenda Urbana é redefinida somente a cada 20 anos. Então, a partir do próximo mês, cidades líderes poderão contar com um novo texto e orientações que vão reforçar os princípios-chave, como a relação da riqueza das cidades a qualidade da concepção do espaço urbano, a alta densidade, maior compacidade e mais diversidade são importantes.

Na sua mais recente entrevista ao jornal TRIBUNA DO NORTE, o senhor falou que as novas gerações de líderes estão mais sensíveis para o desenvolvimento sustentável, inclusive no Brasil. O que faz o senhor acreditar nisso?
Quanto mais uma cidade educar e treinar o cidadão, mais eles vão estar sensíveis para assuntos e políticas públicas. No fim, os líderes terão que entregar mais, vão ter que se superar para satisfazer cidadãos que demandam mais e mais, mais consciente do que deve ser o desenvolvimento sustentável. Sabe-se que o desenvolvimento está melhorando com conhecimento e novas competências. Líderes concordam que com mais educação as pessoas sabem perfeitamente que eles tem que oferecer novas oportunidades para todos. E nós não devemos esquecer que, com o desenvolvimento extensivo de novas tecnologias da informação e comunicação, líderes e cidadãos têm tem mais acesso a novos modelos, novas ferrmentas e novas oportunidades. Desde que um país como o Brasil esteja investindo em educação, os beneficiarios dessa educação estarão aptos para contribuir mais ao desenvolvimento de suas cidades.

Na sua opinião, a iniciativa privada tem contribuído com o desenvolvimento sustentável nas cidades brasileiras?
Na medida em que as atividades econômica são uma condição essencial para o bem-estar e prosperidade de uma cidade, é óbvio que as iniciativas privadas são necessário para o desenvolvimento sustentável das cidades. Sem crescimento econômico sustentável, parece ser impossível para uma cidade ser atuante, obter rendimentos (impostos) das empresas e trabalhadores com a finalidade de financiar a infraestrutura básica e serviços sociais. Mas é preciso dizer que a sustentabilidade também significa respeito ao meio ambiente e a realidade social do lugar. Neste ponto, a importância das autoridades públicas para definir e implantar políticas que vão orientar os negócios na direção certa, que vão respeitar e preservar o ambiente e outros do tipo. Por isso, as leis brasileiras sobre o licenciamento ambiental são algo muito positivo, pois permite que o setor privado contribuir intensamente para o desenvolvimento sustentável dos territórios onde as empresas operam. Nesse sentido, o Brasil está na vanguarda de muitos países do mundo.

A ideia de “Cidade Inteligente” pode ser trabalha associada a ideia de “Cidade Criativa”?
Sim, absolutamente. Uma cidade tem que ser criativa por meio de seus líderes, seus empresários, seus cidadãos para tornar-se cada vez mais inteligente. Além disso, a presença de universidade, centros de pesquisa é também essencial para a estiumuar o conhecimento, criatividade e inovação. Uam cidade inteligente não deve esperar por outras cidades antes de investir, inovar. Ela tem que criar suas próprias ideias, mostrar liderança. Assumir riscos. Mas sempre em um diálogo próximo com os membros constituintes da cidaade: iniciativa privda, cidadãos, sociedade civil organizada e outros.  

No Brasil, a pobreza e desigualdade urbana esteve historicamente relacionada à inércia do poder público. Isso porque as cidades crescem num ritmo muito mais rápido do que o ritmo em que o gestores públicos levam serviços públicos e infraestrutura para essas novas áreas ocupadas. Como mudar isso?
A receita pode ser bem simples dizer, mas não é fácil de concretizar, de ganhar forma. Gestores públicos precisam facilitar, promover localmente a criação da riqueza de forma que os rendimentos (impostos) irão aumentar para as cidades e, desse jeito, elas vão estar aptas para investir mais na infraestrutura e serviços públicos. Essa medida pode ser complementada com políticas sociais que incluem as diferentes classes sociais.